O prolongamento do injustificável conflito militar entre Rússia e Ucrânia, para além da catástrofe humanitária, continua trazendo fortes turbulências e incertezas aos mercados financeiros. Nesta manhã, o euro era negociado em seu patamar mais baixo em 22 meses, de € 1= US$ 1,08060. Em geral, commodities alimentícias, metálicas e, sobretudo, energéticas continuam em trajetória ascendente, produzindo preocupações sobre efeitos nas taxas de inflação em âmbito global, que, por sua vez, necessitarão de políticas fiscais e monetárias recessivas para abrandar seus efeitos. Já ativos russos e o rublo, sob o peso de uma sequência de sanções econômicas, derreteram em valor rapidamente nas últimas duas semanas.
Ontem, os preços de petróleo, gás natural, metais e, em menor medida, dos grãos tiveram nova alta após o secretário de Estado americano, Anthony Blinken, afirmar à imprensa que os Estados Unidos e as nações europeias estão estudando a possibilidade de proibir a importação de petróleo vindo da Rússia. Líderes do Congresso americano sinalizaram em notas e entrevistas que também consideram criar um ato ou lei que proíba a importação de energia russa, enquanto o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, reiterou que a possibilidade de sanções contra o óleo russo “permanecem na mesa”. Contudo, à tarde, o chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, defendeu a decisão da União Europeia de poupar o setor energético russo de sanções pela invasão russa da Ucrânia, dizendo que a energia russa era necessária até que fossem encontradas fontes alternativas. Em reação a estas ameaças, o vice primeiro-ministro da Rússia, Alexander Novak, afirmou que Moscou poderia cortar as exportações de gás natural para a Europa. Estas idas e vindas lançaram o barril do petróleo tipo Brent a US$ 139,13 pela manhã de ontem, seu maior valor desde julho de 2008, para depois retornar a US$ 123,21 no término do dia.
Enquanto isso, no Brasil, o debate do dia foi como a política de preços poderia afetar a votação e a eleição dos políticos que pretendem disputar o pleito de outubro. O presidente da República, Jair Bolsonaro, que há tempos critica a política de paridade de preços da Petrobras com os níveis internacionais de petróleo, agora afirma que pretende interferir na Estatal por conta da “excepcionalidade” da guerra entre Rússia e Ucrânia. Em entrevista a uma rádio, o presidente afirmou que “estamos tomando medida porque é algo anormal, o barril de petróleo saiu da casa dos US$ 80 para US$ 120. (...) Vamos buscar uma alternativa porque, se você for repassar isso tudo para o preço dos combustíveis, você tem que dar um aumento em torno de 50% nos combustíveis, não é admissível você fazer”.
Segundo reportagens, a ideia é solicitar aos acionistas da Petrobras uma “cota de contribuição” diante da guerra, com a suspensão temporária dos reajustes dos combustíveis apenas durante o conflito. Em sua defesa, Bolsonaro afirma que, como outros candidatos à presidência da República – a saber, Luís Inácio Lula da Silva e Ciro Gomes – já defendem alterar a política de preços da estatal, então é melhor que seja ele, a benefício de sua candidatura, do que seus opositores que façam essa alteração. Bolsonaro tem o apoio dos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para tal modificação.
É digno de nota, também, que está prevista para a quarta-feira a votação de dois projetos de leis sobre o tema, de relatoria do senador Jean Paul Prates (PT-RN), que prevê a alteração no cálculo da cobrança do ICMS dos combustíveis e que cria um fundo de estabilização de preços através de dividendos da Petrobras e receitas do pré-sal. Chamou a atenção, ainda, a indicação do presidente do Clube de Regatas do Flamengo, Rodolfo Landim, para a presidência do conselho de administração da Petrobras. Embora Landim tenha sido executivo na empresa até 2006, onde trabalhou por 26 anos, é fato notório sua proximidade do presidente da República. Preocupado com o declínio de sua popularidade em ano de eleição Bolsonaro tornou a Petrobras e sua política de preços de combustíveis um alvo frequente de críticas. Pesquisas de intenção de voto revelam que a inflação é um dos tópicos de maior preocupação dos eleitores e os combustíveis estão entre os produtos que sofreram maior aumento de preços e mais contribuíram para a aceleração da inflação oficial. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos últimos doze meses, o etanol acumula variação de +55,0%, o óleo diesel, de +45,7%, a gasolina, de +42,7%, e o gás veicular, de +35,6%.