Comentários de Abertura
A guerra tarifária intensificou-se durante a madrugada com a China, mas Wall Street parece perceber que os números já não importam mais. Qualquer número que for anunciado agora tem pouco impacto no comércio, que praticamente já foi interrompido entre os dois países. Recebemos mais dados de inflação no nível de atacado nesta manhã, mas o foco principal continua sendo a obtenção de acordos comerciais que reduzam tarifas, para evitar uma recessão doméstica e global. As ações estão modestamente mais fracas, enquanto o VIX está sendo negociado próximo de 45, e o dólar atinge novas mínimas de três anos, perto de 99,3. Os títulos de 10 anos do Tesouro estão sendo negociados em torno de 4,49%, enquanto os títulos de 2 anos estão em torno de 3,86%. Os preços do petróleo bruto estão caindo abaixo de US$ 60 por barril, enquanto os mercados de grãos e oleaginosas tiveram leves altas durante a madrugada.
O índice de preços ao produtor (PPI) caiu 0,4% em março na comparação mensal, refletindo deflação no nível do produtor. Isso se compara à inflação de 0,1% em fevereiro e a uma expectativa de mercado de 0,2%. O PPI subiu 2,7% em março na comparação anual, abaixo dos 3,2% do mês anterior e das expectativas de 3,4%. O núcleo do PPI, que exclui os setores mais voláteis de alimentos e energia, caiu 0,1% em março, frente a um aumento de 0,1% em fevereiro e à expectativa de 0,3%. O núcleo do PPI subiu 3,3% na base anual, abaixo dos 3,4% em fevereiro e da projeção de 3,6%. O PPI de bens caiu 0,9% no mês, e o de serviços caiu 0,2%. Os dados de hoje sugerem novamente que os riscos inflacionários permaneceram baixos em março, mas também que o temor dos consumidores em relação às tarifas pode provocar uma desaceleração deflacionária na economia. Isso foi precificado nos mercados ontem, e os mercados de hoje reagiram de forma tranquila aos dados.
Negociadores da União Europeia devem estar em Washington, D.C. neste fim de semana para discutir como ambos os lados podem reduzir suas tarifas. A UE havia preparado um pacote de retaliação quando o presidente Trump iniciou sua pausa no início desta semana, ao mesmo tempo em que aumentava as tarifas contra o único país que retaliou até agora – a China. Assim, os representantes da UE decidiram suspender o pacote de retaliação e voar para os EUA para negociar. Outros países também estão se preparando para fazer o mesmo. As negociações com a Europa serão mais complicadas, considerando a tarifa de 25% imposta por Trump sobre aço e alumínio – que ele considera questão de segurança nacional – e a tarifa de 25% sobre automóveis. O presidente Trump precisará começar a anunciar acordos comerciais com parceiros importantes em breve para tranquilizar os mercados.
“Se você pode ir alto, eu posso ir mais alto.” Essa parece ser a lógica da atual guerra tarifária entre China e Estados Unidos. As tarifas recíprocas dos EUA subiram para 145% durante a madrugada, enquanto as tarifas retaliatórias da China foram a 125%. Já passamos do ponto em que os números importam, pois o comércio essencialmente parou. Para o americano comum, isso significa não conseguir adquirir o produto desejado ou pagar mais para comprá-lo de outra fonte – e provavelmente surgirão novas fontes alternativas. Para a China, isso significa perder US$ 430 bilhões em negócios com consumidores, o que afetará seu setor manufatureiro. A forte queda do dólar norte-americano permitiu que o yuan se recuperasse um pouco em relação ao dólar, mas o problema para a China é que sua moeda agora está caindo significativamente frente às moedas de outros parceiros comerciais, encarecendo as importações, embora também estimule a demanda por seus produtos em alguns desses países. De qualquer forma, a China não pode substituir a escala da demanda dos consumidores dos Estados Unidos.
A guerra tarifária está desafiando o compromisso da China de manter um yuan forte para ser vista como uma alternativa sólida ao dólar no comércio global. No entanto, agora o país precisa permitir o enfraquecimento do yuan para estimular a demanda externa e compensar as perdas com os EUA. Um yuan mais fraco também aumenta o risco de fuga de capitais, o que a China não pode permitir. Os mercados estarão atentos a possíveis medidas de apoio econômico por parte da China, como cortes na taxa de juros e nos requisitos de reserva bancária nos próximos dias e semanas, além de novos estímulos fiscais, que podem agravar o problema da dívida chinesa – que já causou uma redução na nota de crédito do país na semana passada. Enquanto isso, a queda do índice do dólar para mínimas de três anos, combinada ao aumento dos rendimentos dos Treasuries, sugere que investidores estrangeiros estão repatriando recursos. Isso se soma a estratégias de hedge e desmonte de bases, reduzindo a demanda por títulos de dívida em um momento em que os gastos fiscais continuam gerando grande oferta desses papéis. Os rendimentos mais altos dos Treasuries eram algo esperado, mas os fatores acima aceleram esse movimento, contribuindo para a volatilidade recente. O presidente Trump quer taxas de juros mais baixas para estimular a economia, mas isso será difícil se ele não reduzir os gastos fiscais para conter a emissão de títulos. Não seria surpresa se o Federal Reserve voltasse a adotar o afrouxamento quantitativo para absorver parte dessa oferta de títulos.
Os mercados de grãos e oleaginosas continuam sendo o destaque positivo em meio a todo esse cenário, com os preços do milho liderando, atingindo novas máximas de seis semanas após o relatório WASDE do USDA divulgado ontem. O USDA aumentou as exportações de milho dos EUA em 100 milhões de bushels (cerca de 2,54 milhões de toneladas) nesse relatório, com possibilidade de novos aumentos. Também elevou a projeção de esmagamento de soja em 10 milhões de bushels (aproximadamente 272 mil toneladas). Apesar de modesto, esse aumento indica que o USDA espera uma decisão favorável da EPA sobre o apoio à produção de biodiesel. O USDA também informou a venda de mais dois carregamentos de soja para “destinos desconhecidos”. Seriam mais compras da Sinograin para reserva? Tarifas não são problema para um comprador estatal que paga o imposto a si mesmo.






