
Petróleo se recupera após recuo de 9% na sessão passada
O contrato mais ativo do Brent fechou em queda na quarta-feira (20), a USD 107,34/bbl (–8,8%), após Donald Trump afirmar que as negociações com o Irã estavam em "estágio final".
O movimento de queda dos últimos dois dias foi catalisado por sinalizações verbais de avanço diplomático, com JD Vance declarando "muito progresso" nas negociações na terça (19) e Trump indicando estar próximo de um acordo na quarta. O resultado foi direto: comprimiu o prêmio de risco geopolítico embutido na curva dos futuros, à medida que os investidores voltaram a precificar a possibilidade de retomada dos fluxos pelo Estreito de Ormuz.
Na manhã desta quinta-feira (21), o Brent opera a USD 107,4/bbl (+2,2%), e o WTI, a USD 100,97/bbl (+2,8%), corrigindo parte das quedas registradas na véspera. Os futuros do petróleo se recuperam porque, apesar dos avanços diplomáticos, Teerã e Washington seguem sem um acordo de paz formal.
Paralelo a isso, o anúncio iraniano feito ontem da criação de uma autoridade para controlar o Estreito de Ormuz e a confirmação do Líder Supremo do Irã de que os estoques de urânio enriquecido ficarão no país contribuíram para a retomada dos avanços nesse início de sessão.
Irã cria autoridade para controlar fluxos no Estreito de Ormuz
O Irã anunciou uma "Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico", formalizando uma zona marítima controlada e exigindo autorização para trânsito, potencialmente com cobrança de tarifas, o que Washington já rejeitou. Dois superpetroleiros chineses, com cerca de 4 milhões de barris, saíram do Golfo Pérsico pelo Estreito de Ormuz ontem, e um petroleiro sul-coreano também cruzou a via em comum acordo com Teerã.
Por que isso importa: A reabertura seletiva a "países amigos" cria uma fragmentação do acesso ao estreito, com implicações diretas sobre os fluxos físicos. Embora, no curto prazo, a medida reduza marginalmente a pressão sobre os fluxos de petróleo, no médio prazo ela institucionaliza um mecanismo de controle iraniano sobre o trânsito, o que Washington considera inaceitável e que pode travar qualquer acordo, contribuindo para o avanço das cotações.
Panorama: Antes da guerra, 140 navios por dia cruzavam Ormuz. Hoje, a média diária é de cerca de 26 embarcações, volume 20% menor que o observado no período pré-conflito.
- A semana passada registrou 54 embarcações fazendo a travessia, o dobro da semana anterior, mas ainda um volume baixo frente à capacidade histórica.
- Refinarias estatais chinesas reduziram o processamento de 10 mbpd (pré-guerra) para 8,4 mbpd em maio, como impacto direto da queda das exportações pelo Golfo Pérsico.
- A zona econômica europeia já enfrenta contração de atividade no maior ritmo em 2,5 anos, em parte pela pressão inflacionária do choque energético.
- A proposta iraniana mais recente repete condições já rejeitadas por Trump (controle do estreito, reparações, retirada das tropas), sinalizando que o espaço para negociação permanece curto.
O que esperar: Se o Paquistão conseguir aproximar Washington e Teerã nos próximos dias e houver sinalização concreta de reabertura irrestrita de Ormuz, o Brent deve ceder para menos de USD 100/bbl novamente, eliminando parte do prêmio residual.
- Caso as negociações colapsem e Trump retome os ataques, o mercado deve enfrentar um novo ímpeto altista nos futuros, com o Brent podendo voltar a operar acima de USD 115/bbl.
Estoques americanos em queda acelerada
Os dados da EIA divulgados ontem revelaram uma redução de 7,9 milhões de barris nos estoques comerciais de petróleo nos EUA na semana encerrada em 15 de maio, mais que o dobro das expectativas, de 2,9 milhões. Somados à retirada recorde de 9,9 milhões de barris da Reserva Estratégica (SPR) na mesma semana, o total combinado da queda chegou a quase 18 milhões de barris.
Por que isso importa: A queima acelerada de estoques estratégicos e comerciais sinaliza que o mercado físico está longe do equilíbrio, com a SPR sendo usada como colchão operacional para sustentar exportações e consumo elevados no mercado norte-americano. Com isso, as reservas estratégicas alcançaram 374 milhões de barris, o menor valor desde julho de 2024, com a tendência de retração se estendendo para as próximas semanas.
Panorama: Estoques comerciais de petróleo caíram para 445 milhões de barris, patamar levemente acima da média sazonal de 5 anos, mas com trajetória de convergência acelerada.
- Exportações americanas de petróleo subiram para 5,6 mbpd (+112 kbpd), refletindo demanda intensa de outros países para suprir o gap do Oriente Médio.
- Estoques de gasolina caíram 1,5 milhão de barris, para 214,2 milhões, enquanto o consumo se manteve resiliente, em 8,77 mbpd, mesmo com preços acima de USD 4,50/galão.
- Já as reservas de diesel subiram levemente (+372 mil barris), mas ainda abaixo da sazonalidade histórica, sem alívio estrutural no balanço.
O que esperar? Caso a EIA confirme, nas próximas semanas, estoques totais abaixo da sazonalidade, o mercado tende a reprecificar o risco de escassez em nível global, com o mercado norte-americano sofrendo mais com a ampliação da demanda por parte de outros agentes compradores.
- Mesmo com um cessar-fogo formal e a reabertura gradual de Ormuz aliviando a pressão, o tempo de recomposição dos estoques não seria curto, dado que a readaptação logística global da commodity tende a se resolver apenas no longo prazo.
Tabela diária - Variação dos preços na sessão anterior

Fonte: ICE, NYMEX. Elaboração: StoneX.