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Dólar avança em dia de aversão global a riscos

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By: Leonel Mattos, Market Intelligence Analyst • BRAZIL PRS
Resumo: Este texto busca analisar as mudanças sugeridas pelo novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, e alertar para os riscos de uma reconfiguração profunda na condução da política monetária pelo banco central americano.
Por que isso é importante: Uma correta compreensão das mudanças pretendidas por Kevin Warsh é fundamental para antecipar mais precisamente a trajetória dos juros e da política monetária americana nos próximos quatro anos.
Na quarta-feira, 17 de junho, a primeira decisão de política monetária do Comitê Federal do Mercado Aberto (FOMC) do Federal Reserve (Fed) sob seu novo presidente, Kevin Warsh, surpreendeu os agentes do mercado financeiro, tanto pelo número de integrantes do Comitê que antecipava novas altas de juros ainda em 2026 quanto pela postura firme de Warsh na defesa da estabilidade de preços.
Warsh assumiu a posição em um contexto de forte pressão da Casa Branca sobre o Federal Reserve. O presidente do país, Donald Trump, criticava frequentemente e forma contundente o presidente anterior do Fed, Jerome Powell, por conta do patamar elevado dos juros americanos. A Casa Branca tentou demitir a membra do Conselho de Governadores do Fed, Lisa Cook, porém o ato foi suspenso pela Suprema Corte enquanto o mérito da decisão não é julgado. Além disso, processou Powell por suposta má-gestão, porém desistiu da ação posteriormente.
Muitos investidores acreditavam que Warsh se mostraria mais receptivo às demandas do Executivo por juros mais baixos. Essa expectativa se fortaleceu durante sua sabatina no Senado para confirmação à presidência do Fed, quando ele defendeu a necessidade de reformas na instituição e sugeriu que o nível de juros poderia ser reduzido caso o banco central passasse a considerar os impactos desinflacionários das recentes transformações tecnológicas e o utilizasse outras métricas para acompanhar a inflação.
Por isso, causou surpresa a defesa reiterada de Warsh de uma postura mais firme combate à inflação, ao afirmar que a inflação “é uma escolha”, uma vez que é “determinada pela política monetária”, e que o Comitê devolveria inequivocamente a estabilidade de preços aos EUA. Como resultado, as expectativas para os juros de curto prazo nos Estados Unidos se elevaram, antecipando uma postura mais restritiva do Fed.
Contudo, ainda é cedo para afirmar que Warsh será o oposto do que se antecipava em termos de receptividade às demandas da Casa Branca por juros mais baixos. Em particular, alguns elementos sugerem que há riscos de uma mudança profunda na forma de atuação do Federal Reserve, que poderia tornar a instituição mais predisposta à adoção de uma política monetária mais flexível e estimulativa.
Em especial, Warsh adotou um estilo de comunicação extremamente sucinto em sua primeira decisão do FOMC, recusando-se a fornecer detalhes sobre o debate e as análises realizadas pelo Comitê, o que dificulta as previsões dos agentes do mercado financeiro sobre os próximos passos do Fed.
Adicionalmente, reportagens indicam que Warsh contratou dois pesquisadores conservadores de política econômica para sua equipe de assessores. Daniel Heil trabalhou com Warsh no Hoover Institution, da Universidade de Stanford. Já Paul Winfree atuou como especialista em políticas nacionais na primeira administração Trump e foi o autor do capítulo sobre o Federal Reserve no Projeto 2025, um conjunto de propostas políticas ultraconservadoras para remodelar o governo dos Estados Unidos e ampliar os poderes do Executivo.
Por fim, os riscos de uma mudança à forma de o FOMC operar estão presentes nas cinco forças-tarefas criadas por Warsh para revisar “as cinco áreas centrais para a conduta mais ampla da política monetária [do Fed]”. O novo presidente do Fed anunciou que estava trazendo especialistas externos, “tanto dentro quanto fora da profissão econômica”, o que gera riscos de inserção de vieses nos resultados dessas forças-tarefas.
Esta força-tarefa pretende revisar todas as formas de comunicação do Federal Reserve com o público, incluindo as Projeções Econômicas Sumarizadas e as entrevistas coletivas após as decisões. O Comunicado da última decisão já foi encurtado significativamente, removendo qualquer menção a expectativas futuras do Comitê e como cada integrante votou na decisão.
Benefícios potenciais: Em tese, uma reforma das comunicações do Fed pode aumentar a eficiência da formação de expectativas dos agentes de mercado e reduzir ruídos. Durante a gestão de Jerome Powell, foi comum observar uma reação inicial dos mercados financeiros após os Comunicados, seguida de reversão durante a coletiva de imprensa.
Riscos potenciais: Por outro lado, o modelo lacônico do Comunicado e da coletiva de Warsh lembrou o estilo que era adotado durante a gestão de Alan Greenspan como presidente do Fed, entre 1987 e 2006, que tinha uma comunicação considerada imprevisível pelos investidores. Dessa forma, o Federal Reserve de Warsh pode se tornar menos previsível e atuar de forma inesperada – inclusive com cortes de juros pouco fundamentados.
Esta força tarefa pretende revisar os benefícios e os riscos do atual Balanço Patrimonial do Fed. Uma das maneiras que o Fed faz a gestão da moeda e crédito da economia é por meio da manutenção de um conjunto de títulos em seu poder, atuando como comprador desses títulos e irrigando a economia com liquidez. Esse Balanço Patrimonial cresceu exponencialmente durante a Crise Financeira de 2008, quando o Fed foi além dos títulos do Tesouro americano passou a comprar títulos privados lastreados em hipoteca, e novamente durante a pandemia.
Benefícios potenciais: Em tese, uma redução do Balanço Patrimonial do Fed pode reduzir a sua participação no mercado de capitais americano e aumentar a eficiência do instrumento caso o Fed julgue que precisa voltar a estimular a economia por meio da compra de títulos.
Riscos potenciais: Por outro lado, essa redução pode prejudicar a liquidez dos mercados financeiros globais e reverter o forte rali observado nos ativos americanos, como em suas bolsas de valores.
Esta força-tarefa pretende revisar as fontes de dados utilizadas pelo Fed em sua atuação. O Federal Reserve emprega mais de 500 economistas e pesquisadores, que realizam projeções e cenários para a economia americana com base em um amplo conjunto de dados existentes, tanto oficiais como privados.
Benefícios potenciais: Em tese, uma revisão dos indicadores disponíveis e utilizados pelo Fed pode elevar a qualidade das informações consideradas pelo Fed e levar a decisões mais precisas, relevantes e adequadas.
Riscos potenciais: Por outro lado, há forte risco de inserção de viés nas análises do Fed e que busquem orientar suas decisões para um fim pré-determinado. Warsh afirmou que o Fed utiliza dados baseados “em metodologias de pesquisa antiquadas” e que refletem uma realidade “que pouco se parece com a da economia americana em 2026”. Adicionalmente, afirmou que esses dados podem mostrar “ecos da história” ao invés de informar “o que está acontecendo neste momento”. Esse risco é amplificado pela inserção de profissionais externos ao Fed para fazer as propostas de revisões, visto que o banco central americano é considerado uma instituição de elite e com excelente corpo técnico entre seus membros.
Esta força-tarefa pretende revisar o ritmo e o alcance das novas transformações tecnológicas, como a Inteligência Artificial, e o que isso significa para as metas de pleno emprego e estabilidade de preços do Fed.
Benefícios potenciais: Em tese, uma revisão do entendimento das novas transformações tecnológicas sobre o mercado de trabalho e a produtividade da economia pode elevar a qualidade das informações consideradas pelo Fed e levar a decisões mais precisas, relevantes e adequadas.
Riscos potenciais: Por outro lado, novamente, há forte risco de inserção de viés nas análises do Fed e que busquem orientar suas decisões para um fim pré-determinado. Em particular, Warsh defendeu durante sua sabatina no Senado que essas novas tecnologias devem ter profundo impacto anti-inflacionário na economia americana, o que permitiria uma política monetária menos restritiva pelo Fed.
Esta força-tarefa pretende revisar os modelos de análise de inflação utilizados pelo Fed, suas premissas e suas conclusões em uma economia em transformação.
Benefícios potenciais: Em tese, uma revisão do entendimento das causas e da mensuração da inflação nos Estados Unidos pode elevar a qualidade das informações consideradas pelo Fed e levar a decisões mais precisas, relevantes e adequadas.
Riscos potenciais: Por outro lado, novamente, há forte risco de inserção de viés nas análises do Fed e que busquem orientar suas decisões para um fim pré-determinado. Em particular, Warsh defendeu em sua sabatina no Senado que o Fed utilizasse outras métricas de inflação para orientar a política monetária do Fed, como o “índice de médias aparadas” (trimmed mean), que exclui do cálculo da inflação 20% dos itens com maior e menor variação no mês para buscar uma leitura mais próxima da tendência central.
Por isso, diante da expectativa de revisões profundas na forma como o Federal Reserve conduz sua política monetária, com possibilidade de inserção de vieses em sua comunicação, gestão de seu balanço patrimonial, escolha de indicadores que serão utilizados e revisão dos entendimentos sobre mercado de trabalho e inflação, é possível que este novo Fed adote uma postura mais flexível e estimulativa do que a primeira decisão do FOMC sob Warsh sugeriu.
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