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Dólar recua com expectativas por avanços no Oriente Médio, mas cenário eleitoral limita queda

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By: StoneX Intelligence Brazil, StoneX Intelligence Brazil
Após atingir mínima intradiária de R$5,11 pela manhã, a taxa de câmbio reverteu o movimento de baixa e encerrou esta quinta-feira (05) cotada a R$ 5,216, ganho de 0,5% ante ao fechamento de ontem O mercado de divisas iniciou o dia repercutindo o forte posicionamento do Comitê de Política Monetária (Copom) de ontem, em que ampliou a taxa básica de juros (Selic) de 4,25% para 5,25% ao ano. Porém, a divisa americana zerou as perdas diante do tom das declarações do presidente Jair Bolsonaro, que ameaçou agir “fora das quatro linhas da Constituição” e afirmou que a “hora do [Ministro do STF, Alexandre de Moraes] está chegando”. Houve, também, uma percepção de maior risco fiscal em função da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que, dentre outros aspectos, estabelece o pagamento a precatórios fora do teto de gastos do governo.

Ontem, o Comitê de Política Monetária decidiu por elevar a taxa básica de juros em 1,0 ponto percentual nesta terça-feira (04), acima do ajuste de 0,75 ponto percentual sinalizado na reunião de junho e levando a Selic a 5,25% ao ano, prevendo um ajuste de mesma magnitude para a reunião de setembro. A decisão confirmou a expectativa da maioria dos analistas de uma atuação mais agressiva do ciclo contracionista da política monetária do Banco Central em 2021, em função das crescentes pressões inflacionárias observadas no país nos últimos meses. Em relação cenário externo, o comunicado destacou a evolução da variante delta da Covid-19 como fator adicional de risco à recuperação da economia global e que ainda há risco de relevante aumento da inflação nas economias centrais. Contudo, o comunicado reafirma que o ambiente para países emergentes segue favorável, considerando os estímulos monetários, os programas fiscais e a reabertura das economias conforme os programas de vacinação avançam.
O aumento realizado na Selic, maior ajuste altista em uma reunião desde 2003, reflete as preocupações do Copom com a persistência do avanço inflacionário ao consumidor, com os últimos dados indicando uma composição mais desfavorável e acarretando uma revisão nas projeções de curto prazo para a inflação. O Comitê destacou a surpresa com componente subjacente da inflação de serviços e a continuidade da pressão sobre bens industriais, que tem causado elevação dos núcleos. O cenário climático adverso, levando em consideração a crise hídrica no país, também tem provocado altas em componentes voláteis, podendo provocar elevação do adicional da bandeira tarifária de energia e novas altas nos preços de alimentos. Diante destas mudanças, o Banco Central aumentou sua expectativa para a inflação em 2021 de 5,8% na última reunião para 6,5%, devendo encerrar significativamente acima do limite superior da meta de inflação (5,25% a.a.). Assim, a autoridade monetária considerou uma trajetória de elevação da taxa de juros a 7,00% a.a. até o final deste ano, acima do patamar considerado neutro (6,5% a.a.), mantendo-se neste patamar em 2022 e reduzindo-se para 6,5% em 2023. Entre os fatores de risco para alterações no cenário básico do Copom para a inflação, estão uma possível reversão do aumento recente no preço das commodities, uma piora na trajetória fiscal do país, e questionamentos sobre a continuidade das reformas no Congresso e no processo de ajuste das contas públicas

A elevação nos diferenciais entre taxas básicas de juros brasileira e americana tende a melhorar a atratividade dos investimentos em títulos de renda fixa no Brasil em relação a outras economias emergentes, contribuindo para um maior fluxo de entrada de divisas no país, o que atua de forma a valorizar o real. Por outro lado, o maior aumento previsto para a Selic até o final do ano, com uma retirada mais acelerada dos estímulos monetários da economia brasileira, pode contribuir de forma negativa com o crescimento da economia e o ritmo de retorno no nível de atividade.
Apesar da decisão do Copom, que contribuiu para que o dólar abrisse o pregão em forte queda no mercado cambial doméstico, a escalada dos atritos entre o presidente Jair Bolsonaro e os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ofuscou o contexto de maior apetite por risco de investidores por ativos brasileiros, dando lugar a uma maior cautela. Na noite da véspera, Bolsonaro atacou o ministro do STF, Alexandre de Moraes, responsável pelo inquérito das fake News, após o ministro ter acolhido a notícia-crime encaminhada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que solicita a inclusão do presidente da República nas investigações por disseminação de notícias falsas sobre supostas fraudes no sistema eleitoral brasileiro.
Nesta quinta, Bolsonaro voltou a atacar diretamente o STF, acusando os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso de imporem uma “ditadura de toga”, afirmando que “a hora dele [Alexandre de Moares] vai chegar” e que poderia agir “fora das quatro linhas da Constituição”. Tais declarações, além de contribuírem para um ambiente de maiores incertezas, elevaram a apreensão dos agentes em relação ao teor das falas do presidente, com o temor de que Bolsonaro poderia vir a praticar atos inconstitucionais. No fim da tarde, adicionando novo elemento no quadro de tensão entre os Executivo e Judiciário, o presidente do STF, ministro Luiz Fux, anunciou o cancelamento de reunião entre os chefes dos três Poderes anunciada em julho, alegando que “quando se atinge um dos integrantes [do STF], se atinge a corte por inteiro” e que “o pressuposto do diálogo entre os Poderes é o respeito mútuo entre as instituições e seus integrantes”.
A instabilidade no cenário político, como um todo, aumenta a incerteza do ambiente de negócios, o que pode resultar na exigência de maiores prêmios de risco por parte dos investidores. Como consequência, a atratividade da moeda brasileira pode ser negativamente afetada.
O mercado de câmbio repercutiu, também, a notícia de que o governo pretende enviar ao Congresso Proposta de Emenda à Constituição para modificar o pagamento de precatórios. Nessa proposta, dívidas de até 60 salários-mínimos seriam pagas integralmente à vista, enquanto precatórios acima dos R$ 66 milhões seriam escalonados em uma entrada de 15% e nove parcelas sequenciais. Para quitar esses valores, seria estabelecido um fundo alimentado com ativos da União e receitas de dividendos, concessões, privatizações e leilões do pré-sal, recursos que terão despesas vinculadas e seriam registradas como gastos extraordinários – ficando fora do teto de gastos.
Tal sugestão, contudo, não foi bem recebida por analistas, que observam que as despesas extraordinárias foram criadas como um instrumento para auxiliar no combate aos graves impactos da pandemia. Caso a proposta seja aprovada pelos parlamentares, há uma avaliação de que a PEC se sobrepõe a uma regra imposta pela Lei de Responsabilidade Fiscal, que proíbe hoje o financiamento de gastos correntes com receitas de privatizações. Argumenta-se, também, que a proposta busca viabilizar o financiamento de outras prioridades do governo, como a ampliação do benefício médio do Bolsa Família em ano eleitoral, através de um “calote” dos precatórios – visão que a equipe econômica rechaça. Entretanto, o Ministro da Economia, Paulo Guedes, reconheceu em entrevista nesta semana que, sem a aprovação da PEC pelo Congresso, não seria possível garantir os recursos necessários para o reajuste dos benefícios do programa social.
É digno de nota, também, que o déficit comercial dos Estados Unidos atingiu valor recorde em junho, em função da recomposição dos estoques das empresas, que continua em níveis reduzidos, e da expansão da demanda causada pelos incentivos monetários e fiscais para recuperação da pandemia de Covid-19. As exportações, importações e o déficit comercial registraram máximas históricas para o mês de junho no valor de, respectivamente, US$ 145,9 bilhões, US$ 239,1 bilhões e US$ 75,7 bilhões.
No exterior, o dollar index encerrou o dia cotado a 92,3 pontos, praticamente estável em relação à véspera. As divisas de diversos pares do real, como o peso chileno, o peso colombiano, a lira turca, o rand sul-africano e o rublo russo, recuaram ante a divisa americana, e o Índice de Moedas Emergentes do J.P. Morgan encerrou a sessão com perda de 0,1%.
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