A leitura de abril do IPCA não parece sugerir que a aceleração de preços no Brasil esteja próxima de uma reversão, ou mesmo de um arrefecimento. Em sua última ata, o Comitê de Política Monetária (Copom) sugeriu que defasagens temporais nos efeitos da política monetária poderiam explicar o fato de “não se observa[r] grande parte do efeito contracionista esperado bem como seu impacto sobre a inflação corrente”. Contudo, o próprio Comitê admite que muitas pressões inflacionárias ainda persistem atualmente e, presume-se, estão fora do escopo de atuação do Copom, como os desequilíbrios nas cadeias globais de produção, os choques de oferta relacionados à guerra russo-ucraniana, as consequências das políticas de tolerância zero contra a Covid-19 na China e o aperto significativo das condições financeiras pelos Estados Unidos. Além disso, os atritos entre as Instituições brasileiras – Congresso, Executivo, Judiciário, Forças Armadas –, bem como as diversas ampliações de gastos e isenções tributárias pelo governo Bolsonaro ampliam o risco fiscal e político no país, que, por sua vez, pode agravar o problema inflacionário caso estimulem uma desvalorização cambial.
No cenário externo, o ambiente de pessimismo impulsionou dollar index a tocar a marca de 104,5 pontos durante a manhã, seu maior valor em duas décadas, porém este recuou durante a tarde para encerrar o pregão cotado a 104,0 pontos, leve alta de 0,1% em relação ao fechamento de terça-feira. Moedas pares do real, como o peso chileno, o peso colombiano, o peso mexicano, a lira turca, o rand sul-africano, a rúpia indiana e o rublo russo não tiveram direção definidad, e o Índice de Moedas Emergentes do J.P. Morgan terminou a sessão cotado a 51,675 pontos, variação marginal de -0,04% ante à véspera.
A moeda americana também repercutiu ao longo do dia a reação dos mercados à divulgação de dados acima do esperado para o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) nos Estados Unidos. De acordo com o Departamento de Estatísticas do Trabalho (BLS), em abril, o CPI registrou variação mensal de +0,3%, desacelerando em relação à alta de 1,2% observada em março, mas superando a mediana das estimativas, que sugeriam um aumento de 0,2%. Com o resultado do mês, o indicador passou a acumular alta anual de 8,3%, recuando da máxima em cerca de quatro décadas atingida em março (8,5%), porém ainda bastante elevado e além do projetado (8,1%).
De modo geral, as expectativas dos analistas apontavam para uma desaceleração mais clara da inflação a partir de maio, à medida que os números mais fracos observados no início da pandemia deixam de integrar o cálculo do comparativo anual, e conforme o padrão de consumo dos americanos se reaproxima de algo mais próximo da cesta de bens e serviços usada como referência para o indicador. A procura reprimida por serviços, em especial de turismo, alimentação fora de casa e entretenimento, tem retornado a patamares considerados como “normais” desde o relaxamento das medidas de distanciamento social adotadas devido à Covid-19 e, com isso, a demanda concentrada em bens e serviços essenciais tende a se moderar.
Alimentos (+0,9%), habitação (+0,5%), passagens aéreas (+18,6%) e novos veículos (+1,1%) estiveram entre os itens com as principais altas de abril. Combustíveis, que impulsionaram fortemente a inflação nos Estados Unidos em março, recuaram de maneira considerável em abril (-6,1%), sendo sua primeira contração mensal em cerca de um ano. Excluindo-se alimentos e energia, o núcleo do CPI também surpreendeu ao avançar 0,6% no último mês, acelerando-se em relação à alta de março (0,4%) e apresentando variação mais expressiva que a estimada pelos analistas (+0,3%).
O encarecimento dos serviços teve contribuição importante para esse movimento da inflação subjacente, e pode contribuir para uma persistência do nível de preços acima da meta do Federal Reserve de 2% a.a. Essa constatação, em um contexto marcado pelas indicações de que o Federal Reserve não considera a possibilidade de um ajuste robusto da política monetária, e de um contexto de trajetória firme de crescimento da média de salários no mercado de trabalho americano, reforçam essa perspectiva.
Do outro lado do Atlântico, é digno de nota que a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, deu sinais concretos nesta quarta-feira de que a autoridade monetária deve reforçar suas ações para controlar a inflação acelerada no bloco econômico e lançar mão de um aumento da taxa de juros em julho. Em evento na Eslovênia nesta manhã, a presidente declarou que o programa de compra de ativos “deve se encerrar no início do terceiro trimestre”, e que o BCE promoverá na sequência um aumento da taxa básica de juros, “o que pode significar um período de apenas algumas semanas de diferença”. Esta deverá ser a primeira elevação da taxa básica de juros na zona do euro em mais de 10 anos, em um momento em que o bloco registrou uma inflação acumulada de 7,5% em 12 meses em abril, significativamente acima da meta de 2,0% no ano perseguida pela autoridade monetária. O agravamento da crise inflacionária e de suprimentos global desde o início da guerra russo-ucraniana tem peso especial para a União Europeia, principal parceira comercial dos países para uma série de série de commodities energéticas e alimentícias.
Os indicativos do caráter duradouro das pressões inflacionárias na região, ao passo que a guerra dá indícios de que deve se estender ainda por um longo período, tendem a levar o BCE a seguir estratégia semelhante de seus pares nos Estados Unidos e na Inglaterra, elevando de maneira consecutiva a taxa de juros ao longo do segundo semestre na tentativa de controlar a elevação de preços. Vale lembrar que na última semana, o Banco Central da Inglaterra (BoE) aumentou sua taxa de juros do país em 0,25 p.p. pela quarta decisão consecutiva, indo a 1,0% ao ano, e revisou suas perspectivas econômicas para 2022 e 2023. As projeções do BoE de 6,6% para a inflação na Inglaterra em 2023, patamar ainda historicamente elevado para o país, e de contração de 0,25% do PIB, aqueceram os debates sobre os possíveis efeitos prolongados da inflação global, assim como sobre a possibilidade de um cenário de estagflação na economia europeia como um todo.