Panorama de câmbio: principais eventos da semana
- Fatores baixistas
- Tendência recente de fuga de ativos denominados em dólar enfraquece a moeda americana e favorece o desempenho das demais moedas, como o real.
- Fatores altistas
- Questionamento jurídico das tarifas de importação pelos EUA e proposta de taxar capitais estrangeiros aumentam a incerteza e imprevisibilidade da condução das políticas econômicas americanas e elevam a aversão ao risco, o que tende a prejudicar o real.
- Desaceleração de indicadores para o mercado de trabalho americano pode aumentar as preocupações com a economia do país, elevando a aversão global ao risco e enfraquecendo o real.
- Preocupação com cenário fiscal brasileiro segue elevada em meio a resistências ao aumento do IOF, o que pode elevar percepção de riscos para ativos nacionais e prejudicar o desempenho do real.
- Corte de juros pelo Banco Central Europeu tende a enfraquecer o euro e, indiretamente, favorece um fortalecimento da moeda americana.
Resumo da semana passada
A semana foi marcada pelo ressurgimento das tensões comerciais americanas após questionamento judicial da legalidade das tarifas de importação impostas pelo país e novas ameaças de Trump à União Europeia e China. No Brasil, um questionamento do aumento do IOF também piorou a percepção de riscos fiscais no país.
A taxa de câmbio do real encerrou a sessão desta sexta-feira (30) cotada a R$ 5,7205, avanço semanal de 1,3% e mensal de 0,8%, porém recuo anual de 7,4%. Já o Dollar Index (DXY) fechou a semana cotado a 99,4 pontos, variação de +0,3% na semana, -0,2% no mês e -8,1% no ano.
Dólar comercial (US$/R$) e Dollar Index (pontos)

Fonte: StoneX cmdtyView. Elaboração: StoneX.
O MAIS IMPORTANTE: Volatilidade e imprevisibilidade das políticas econômicas americanas
Impacto esperado no USDBRL: altista
Possíveis alternativas jurídicas para a implantação de tarifas nos EUA

Fonte: MUFG. Elaboração: StoneX.
Nesta semana, embora o ambiente de negócios continue bastante incerto e volátil, parece provável que a sensação de imprevisibilidade e insegurança entre investidores permanecerá elevada e prejudicará o desempenho global do dólar, que engatou o quinto mês seguido de desvalorização frente a moedas de outras economias avançadas. Em particular, o questionamento jurídico sobre a legalidade das tarifas de importação impostas pela Casa Branca reforçou, a um só tempo, a incerteza sobre a permanência dessas tarifas no longo prazo e também a determinação do governo americano em utilizar deste instrumento econômico independentemente de eventuais contestações judiciais.
Em resumo, na quarta-feira, um painel de três juízes da Corte Internacional de Comércio dos Estados Unidos decidiu que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, extrapolou os limites jurídicos de sua autoridade ao impor tarifas de importação por meio de declaração de Estado de Emergência pela IEEPA (International Emergency Economic Powers Act), uma lei de 1977. Porém, na quinta-feira, um recurso no Tribunal de Apelação para o Circuito Federal dos Estados Unidos determinou que a ordem judicial deve ser suspensa enquanto o Tribunal não julgar o mérito do tema.
Inicialmente, a ordem judicial ampliou a incerteza sobre a condução das políticas comerciais americanas, visto que despertou uma preocupação de que as medidas impostas pela Casa Branca pudessem ser proibidas pelo Judiciário do país. Vale lembrar que o Panorama Semanal de Câmbio da semana passada já havia alertado que “a Casa Branca intensifica essa incerteza e imprevisibilidade [na condução das políticas econômicas americanas] ao promover (...) alterações por meio de atos do poder Executivo, praticamente desacompanhadas de mudanças na legislação, utilizando-se de oito declarações de Estado de Emergência para amparar juridicamente estes atos. Isto, por sua vez, gera maior insegurança sobre a estabilidade dessas mudanças, visto que abre a possibilidade de contestação judicial das medidas, ou que a Casa Branca simplesmente mude de opinião e cancele ou modifique seus atos”. Na sequência, porém, integrantes do governo Trump alertaram que possuíam alternativas jurídicas para manter as tarifas em vigor. Estas duas conclusões – a maior incerteza sobre a permanência dessas tarifas no longo prazo e a determinação do governo americano em utilizar deste instrumento econômico – reforçaram um movimento de diversificação da carteira de investidores, diminuindo a exposição a ativos americanos e enfraquecendo o dólar.
Essa tendência de enfraquecimento do dólar por redução dos fluxos de capitais para os Estados Unidos também é reforçada por falas recentes de Trump, que, na semana passada, ameaçou sobretaxar a União Europeia em 50% a partir de 01 de junho (em menos de 48 horas, estendeu esse prazo para 09 de julho) e, na sexta passada (30) reclamou que a China estaria violando os termos do acordo recente entre os dois países, que combinaram uma redução temporária por 90 dias das tarifas de importação cobradas mutuamente. Essas ameaças elevaram temores de que as tensões comerciais provocadas pela Casa Branca possam voltar a se elevar abruptamente, temores estes que nunca haviam desaparecido, visto que os recuos recentes da Casa Branca foram anunciados como temporários, ainda não houve nenhuma formalização de acordos comerciais e, principalmente, não há clareza sobre os objetivos buscados pelo governo nem como as tarifas vão evoluir com o tempo.
(Atualização: no sábado, 31/05, Trump anunciou que as tarifas de importação sobre o aço e o alumínio, que começaram em 25% e foram reduzidas a 10% em 09 de abril, passarão a 50% a partir desta quarta, 04/06)
Nesse sentido, investidores também temem que uma proposta dentro do Orçamento que tramita no Congresso possa reduzir ainda mais os fluxos de capitais para os EUA. No texto da lei orçamentária que foi aprovada pela Câmara dos Deputados do país está uma provisão (Seção 899 – Imposição de ações corretivas contra impostos estrangeiros injustos) que propõe a taxação de capitais estrangeiros de qualquer pessoa ou entidade domiciliada em “nações estrangeiras discriminatórias”, ou seja, países cujos impostos o governo americano julgue serem abusivos ou desfavoráveis às empresas americanas. Nesses casos, a seção permite que sejam elevadas as taxas sobre rendimentos, lucros e juros obtidos por investimentos de estrangeiros nos EUA em cinco pontos percentuais a cada ano até um máximo de 20 pontos acima da alíquota legal. Como a definição de “impostos injustos” é vaga e imprecisa, caso a proposta também seja aprovada pelo Senado americano, a Casa Branca teria ampla liberdade para taxar capitais de países com tributações diferente das dos EUA, como os impostos sobre serviços digitais da União Europeia, Canadá, Reino Unido e Austrália, por exemplo. A medida deve diminuir a atratividade de ativos americanos justamente em um momento em que a moeda do país é prejudicada pelo fluxo de saída de capitais externo.
Embora o enfraquecimento global do dólar pareça bastante provável dentro do contexto analisado, a tendência para o real é menos clara. Por um lado, o real costuma se fortalecer quando o dólar se desvaloriza, e as perdas recentes da moeda americana favoreceram uma redução da taxa de câmbio nacional. Por outro, o cenário de incertezas, inseguranças e imprevisibilidades na condução das políticas econômicas americanas estimula um comportamento cauteloso por parte de investidores, o que pode resultar em maior aversão ao risco, impulsionar o desempenho de ativos considerados “portos seguros” e, por consequência, enfraquecer o real.
Dados de emprego nos EUA
Impacto esperado no USDBRL: altista
Nesta semana serão divulgados os principais indicadores para o mercado de trabalho dos Estados Unidos. O destaque ficará por conta do Relatório de Situação de Emprego de maio, na sexta-feira (07), cuja mediana das projeções aponta para a criação líquida de cerca de 130 mil empregos, uma desaceleração frente ao saldo de 177 mil registrados em abril. Além disso, serão divulgados a Pesquisa de Abertura de Vagas e Turnover (JOLTs) de abril, na terça-feira (03), e o Relatório de Emprego do Setor Privado (ADP) de maio, na quarta-feira (04). Caso os dados sugiram sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho, podem aumentar a preocupação dos investidores com o ritmo de crescimento da economia americana, sobretudo diante das incertezas geradas pelas recentes medidas econômicas do governo Trump. Até o momento, os efeitos diretos da condução econômica do novo governo sobre o emprego ainda não são claros, mas persistem receios relacionados à imposição de tarifas de importação, paralisação de contratações e demissões em larga escala promovidas recentemente em órgãos federais. Na última quinta-feira (29), adicionalmente, os pedidos semanais de auxílio-desemprego mostraram níveis acima das expectativas, somando 240 mil solicitações, frente à estimativa mediana de 229 mil. Embora esse dado isolado não configure uma tendência, a repetição de surpresas negativas nos próximos indicadores pode aumentar os receios de desaceleração econômica no país, o que tende a ampliar a aversão global ao risco e desvalorizar o real.
IOF e temores fiscais no Brasil
Impacto esperado no USDBRL: altista
No Brasil, o embate entre o Ministério da Fazenda e o Congresso Nacional em torno do aumento das alíquotas do IOF pode continuar repercutindo entre investidores ao longo da semana. O aumento do imposto, anunciado de forma inesperada há duas semanas, gerou forte resistência entre setores produtivos e lideranças políticas. Em reação, parlamentares vem tentando nos últimos dias articular um Projeto de Decreto Legislativo (PDL) para anular a decisão, movimento com forte possibilidade de se concretizar após o presidente da Câmara, Hugo Motta, afirmar que o ambiente político é favorável à derrubada do decreto. Por sua vez, Motta também afirmou que o Congresso daria um prazo de dez dias para que o Ministério da Fazenda apresentasse uma alternativa de arrecadação “duradoura e consistente”. Ao longo da semana passada, contudo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reiterou que não há fonte de receita viável para substituir os recursos previstos com a elevação do IOF, alertando que sua anulação elevaria o bloqueio de despesas em 2025 de R$ 31,3 bilhões para mais de R$ 50 bilhões. A ausência de solução imediata foi confirmada pelo secretário do Tesouro, Rogério Ceron, que admitiu que a equipe econômica do governo ainda não tem uma alternativa para o decreto, mas disse que irão trabalhar para apresentar uma proposta dentro do prazo de 10 dias dado pelo Congresso. Nesse contexto, a incerteza fiscal gerada pelo impasse institucional deve seguir elevando os prêmios de riscos exigidos por investidores para ativos brasileiros, o que tende a enfraquecer o real.
Decisão de juros do Banco Central Europeu (BCE)
Impacto esperado no USDBRL: altista
Há consenso entre analistas de que o Banco Central Europeu (BCE) deverá reduzir sua taxa básica de juros pela oitava reunião consecutiva na próxima quinta-feira (05), passando de 2,25% para 2,00% ao ano. A expectativa se sustenta na combinação entre a melhora das projeções inflacionárias para a União Europeia, a desaceleração da atividade econômica e a piora dos riscos associados à escalada tarifária por parte dos Estados Unidos. No que tange ao comportamento dos preços, a percepção de alívio inflacionário tem sido reforçada nas últimas semanas, impulsionada tanto pela valorização do euro, que barateia os produtos importados, quanto pela queda acentuada nos preços internacionais das commodities, especialmente energéticas. No plano geopolítico, cabe relembrar, contribui para a elevação da incerteza a recente declaração do presidente Donald Trump, que anunciou sua intenção de elevar para 50% as tarifas de importação sobre produtos da União Europeia a partir de 9 de julho, em resposta à sua frustração com o ritmo das negociações bilaterais entre o bloco econômico e os EUA. Nesse contexto, investidores seguem apostando em novos cortes de juros por parte do BCE, o que, por sua vez, tende a enfraquecer o euro e fortalecer o dólar indiretamente.
TABELA DE INDICADORES ECONÔMICOS





