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Panorama Semanal de Câmbio

By: Leonel Mattos, Market Intelligence Analyst • BRAZIL PRS

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Dólar deve refletir dados econômicos no Brasil e nos EUA, ameaça de reciprocidade brasileira e ataques da Casa Branca ao Fed

  • Altista
  • Ameaça de reciprocidade do Brasil contra EUA e desaceleração do PIB nacional pode afastar a entrada de recursos externos no Brasil e contribuir para o enfraquecimento do real.
  • Baixista
  • Relatório da Situação do Emprego e Índices Gerentes de Compra (PMI) dos Estados Unidos devem sugerir que a economia americana segue desacelerando, reforçando apostas de cortes de juros pelo Federal Reserve e enfraquecendo o dólar globalmente.
  • Ataques da Casa Branca contra o Federal Reserve pode prejudicar a credibilidade das instituições econômicas americanas e resultar em maior percepção de riscos dos ativos do país, o que tende a desvalorizar o dólar globalmente.

Resumo da semana passada

  • Donald Trump anunciou a demissão da membra do Conselho de Governadores do Federal Reserve, Lisa Cook, por suposta fraude hipotecária. Cook, por sua vez, acionou o Judiciário para anular a demissão.
  • PIB americano do segundo semestre é revisado para cima, enquanto inflação e consumo de julho cresceram em linha com as expectativas.
  • IPCA-15 apresentou deflação menor que o estimado e manteve uma aceleração significativa em seu núcleo, que exclui os itens de alimentação e energia.

Dólar comercial (US$/R$) e Dollar Index (pontos)

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Fonte: StoneX cmdtyView. Elaboração: StoneX.
Variações do dólar comercial | No dia: +0,29% | Na semana: -0,01% | No mês: -3,19% | No ano: -12,23% | Em 12 meses: -3,57% |
Variações do Dollar Index | No dia: -0,12% | Na semana: +0,03% | No mês: -2,30% | No ano: -9,58% | Em 12 meses: -3,53% |

 

O MAIS IMPORTANTE: Dados econômicos americanos
Impacto esperado no USDBRL: baixista

EUA: Histórico e expectativa para a taxa de juros – atualizado em 29 de agosto de 2025

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Fonte: CME FedWatch Tool. Elaboração: StoneX.  Refere-se à aposta com maior probabilidade no mercado futuro de juros na data indicada.

A semana traz diversos indicadores econômicos importantes que devem ajudar os investidores a calibrarem suas expectativas para a economia dos Estados Unidos no segundo semestre.

 

Por que isso é importante: A evolução da atividade produtiva, do mercado de trabalho e da inflação influenciam significativamente as decisões de política monetária do Federal Reserve.

  • No momento, investidores apostam em um ciclo de cortes de juros a partir de setembro por acreditar que o mercado de trabalho americano está se enfraquecendo mais rapidamente que o antecipado, o que diminui a perspectiva de rendimentos de títulos americanos e tende a enfraquecer o dólar globalmente.

 

Panorama: Desde o “choque tarifário” feito pela Casa Branca em abril, investidores temem que a economia americana possa passar por um processo de “estagflação”, isto é, de estagnação do crescimento com aceleração da inflação.

  • Esses temores se aprofundaram após a divulgação do Relatório da Situação do Emprego de julho, que diminuiu significativamente o número de empregos criados em maio e junho após revisão.
  • Porém, até o momento, a maior parte dos indicadores apresenta um desempenho mais estável e melhor que o antecipado, com uma suave desaceleração do mercado de trabalho e aumentos sutis da inflação.

 

Estranho equilíbrio: Em discurso recente, Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, notou que o mercado de trabalho está em “um curioso tipo de equilíbrio” por conta tanto de um número menor de trabalhadores disponíveis quanto de uma desaceleração no ritmo de contratações.

  • Por exemplo, os dados semanais de auxílio-desemprego sugerem que não há uma aceleração no número de novos pedidos, o que sugere que o ritmo de demissões está aproximadamente estável.
  • Já os pedidos continuados de auxílio-desemprego, isto é, o número de pessoas que continuam recebendo o benefício após a primeira semana, apresenta rápida aceleração e sugere que o ritmo de contratações diminuiu significativamente.
  • Esse cenário pode ser chamado de “no hire, no fire”, ou seja, sem contratações nem demissões, um indicativo de que o mercado de trabalho se enfraquece, mas não se encontra em crise.
  • Nesse contexto, a divulgação do Relatório da Situação do Emprego de agosto ganha importância ao atualizar as condições do mercado de trabalho.
  • A mediana das estimativas aponta que a criação líquida de empregos deve continuar modesta, passando de 73 mil em julho para 78 mil em agosto, o que provavelmente manteria as apostas de investidores por um corte de juros em setembro.

Novos pedidos semanais (esquerda) e pedidos continuados semanais (direita) de auxílio-desemprego nos Estados Unidos

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Fonte: U.S. Department of Labor (DOL), Federal Reserve Bank of St. Louis. Elaboração: StoneX.

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Fonte: U.S. Department of Labor (DOL), Federal Reserve Bank of St. Louis. Elaboração: StoneX.

 

Visão dos gerentes: Por outro lado, os Índices Gerentes de Compra (PMI) têm apontado para riscos mais elevados de uma “estagflação”, sinalizando rápido aumento de preços e diminuição da atividade produtiva e da demanda por trabalhadores, tendência que deve se repetir nas divulgações desta semana.

PMI da indústria (esquerda) e de serviços (direita) dos Estados Unidos e subcomponentes selecionados

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Fonte: Institute for Supply Management (ISM). Elaboração: StoneX.

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Fonte: Institute for Supply Management (ISM). Elaboração: StoneX.

 

Pressões políticas sobre o Federal Reserve
Impacto esperado no USDBRL: baixista

Carta de Donald Trump anunciando a demissão de Lisa Cook

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Fonte: Casa Branca.

Na semana passada, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a demissão da membra do Conselho de Governadores do Federal Reserve, Lisa Cook, por suposta fraude hipotecária.

  • Cook, por sua vez, entrou com processo para impedir temporariamente sua demissão enquanto o mérito de sua demissão não for analisado pelo Judiciário.

 

Por que isso é importante: A pressão política para influenciar o Federal Reserve e a condução da política monetária americana pode prejudicar a credibilidade das instituições econômicas e resultar em maior percepção de riscos dos ativos do país, o que tende a desvalorizar o dólar globalmente.

 

Complacência dos mercados: Apesar dos riscos significativos, os mercados financeiros como um todo apresentaram reações muito sutis aos atritos entre Casa Branca e Fed, surpreendendo a maior parte dos analistas.

  • Não há clareza sobre os motivos que justificam essa ausência de reações mais intensas.
  • Uma possibilidade seria que investidores acreditam que Trump não terá sucesso na demissão de Cook, algo que é incerto neste momento.
  • Outra possibilidade seria que investidores desejam um Federal Reserve mais alinhado aos interesses da Casa Branca, mas o histórico de bancos centrais subservientes aos interesses políticos deveria causar preocupações.

 

Ataques a Powell: Há meses que o presidente dos Estados Unidos tem criticado o Federal Reserve e seu presidente, Jerome Powell, frustrado pelas decisões do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) de não reduzir as taxas de juros americanas.

  • Em abril, Trump afirmou em rede social que “a demissão de Powell não poderia chegar mais rápido”.
  • No mesmo mês, o Wall Street Journal reportou que advogados da Casa Branca exploraram opções legais para tentar remover Powell do Federal Reserve, incluindo se poderiam fazê-lo sob “justa causa”.
  • Em maio, Trump confirmou reportagens de imprensa de que ele estudava antecipar o anúncio do sucessor de Powell a fim de influenciar as expectativas para a política monetária americana.
  • Em junho, Trump voltou a afirmar em rede social que poderia demitir Powell.
  • No fim de junho, Trump enviou uma carta a Powell criticando o patamar de juros americanos e afirmando que ele custou “uma fortuna” aos EUA.
  • Em julho, a Casa Branca elevou a pressão contra Powell, alegando que ele mentiu ou foi grosseiramente negligente em seu testemunho ao Congresso quanto às renovações da sede do Fed, buscando uma alternativa legal para sua demissão.
  • Também em julho, Trump confirmou reportagens de imprensa de que ele discutiu a demissão de Powell com deputados do Partido Republicano na noite anterior, porém que era “altamente improvável” que ele o faria.
  • E no final desse mesmo mês, Trump fez uma visita oficial às obras de renovação do Fed, criticando os custos da obra e o nível de juros americano diante de Powell.

 

Ataques a Cook: Em 20 de agosto, a Casa Branca ampliou sua pressão ao Fed, com o diretor da Agência Federal de Financiamento Habitacional dos Estados Unidos, Bill Pulte, acusando Lisa Cook de cometer fraude hipotecária.

  • A acusação é que Cook se utilizou de taxas preferenciais ao hipotecar dois imóveis diferentes declarando que ambos eram sua residência principal.
  • Pulte é um dos principais defensores da demissão de Powell por conta dos custos das obras de renovação do Fed, e já acusou de fraude hipotecária outros adversários políticos de Trump, como o senador democrata Adam Schiff e a procuradora-geral de Nova Iorque, Letitia James.
  • Embora um funcionário do Departamento de Justiça dos Estados Unidos ter sinalizado que pretende investigar as acusações contra Cook, até o momento não há notícias de que essa investigação esteja em curso.

 

Legalidade questionável: Há desafios jurídicos importantes para a demissão de um integrante do Federal Reserve. A Suprema Corte americana decidiu em 1935 que membros de órgãos independentes, como o Fed, não podem ser demitidos sem justa causa.

  • Adicionalmente, em decisão de 22 de maio deste ano, a Suprema Corte afirmou que “discordamos que [as demissões de membros de agências independentes] necessariamente implica na constitucionalidade da remoção de membros do Federal Reserve sem justa causa”.
  • Em sua carta, Trump afirmou que a acusação de fraude imobiliária constitui “justa causa” para a demissão de Cook.
  • Contudo, há diversos questionamentos sobre a legalidade da demissão de Trump.
  • Na jurisprudência americana, uma demissão por justa causa de servidor público com direito a estabilidade exige a abertura de um processo, com direito à defesa do servidor antes da formalização de sua demissão. Isto não ocorreu neste caso.
  • Adicionalmente, na jurisprudência americana, encaminhamento criminal não constitui justa causa, visto que ele é tão-somente uma notificação de suspeita de irregularidade. A maior parte dos encaminhamentos não resulta em uma investigação criminal, embora ele possa resultar em uma.
  • Embora a linguagem da Lei do Federal Reserve, de 1913, seja vaga e abrangente, na maior parte dos cargos com direito à estabilidade a justa causa é definida como “ineficiência, negligência ou má conduta” no desempenho da função. Ou seja, justa causa necessariamente está ligada à atividade desenvolvida pelo servidor, e as alegações contra Cook são de fatos anteriores ao seu mandato no Federal Reserve.

 

Conquistando o Conselho: Trump é explícito em suas afirmações que seu objetivo é levar o Fed a baixar seus juros, porém as decisões de política monetária do FOMC são tomadas por 12 membros – os sete integrantes do Conselho de Governadores do Fed e cinco presidentes de Federal Reserves regionais.

  • Trump, porém, busca uma maneira de conseguir reconfigurar o Comitê com pessoas alinhadas aos objetivos da Casa Branca.
  • Na quinta-feira (28), Trump afirmou a repórteres que “teremos uma maioria [no FOMC] muito em breve. Assim que tivermos uma maioria, o mercado imobiliário vai mudar e vai ser ótimo. As pessoas estão pagando taxas de juros muito altas. Esse é o único problema para nós. Temos que diminuir um pouquinho as taxas de juros”.
  • Dois dos sete membros do Conselho de Governadores foram indicados por Trump em seu primeiro mandato – Christopher Waller e Michelle Bowman, que discordaram da decisão dos demais integrantes do FOMC na decisão de 30 de julho.
  • Outra membra, Adriana Kugler, renunciou ao seu cargo no começo de agosto, e Trump indicou Stephen Miran, atual chefe do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca, como substituto para esse mandato, que se encerra em 31 de janeiro.
  • Se a Casa Branca tiver sucesso na demissão de Cook, Trump indicaria mais um membro ao Conselho de Governadores e conquistaria a maioria, com quatro indicados dentre sete conselheiros.

 

Conquistando o FOMC: Se Trump possuir a maioria dos membros do Conselho de Governadores, ele conseguiria influenciar a escolha dos presidentes de Federal Reserves regionais e, assim, conquistar a maioria dos votos do FOMC.

  • Pela Lei do Federal Reserve, de 1913, os 12 presidentes dos Federal Reserves precisam ser ratificados pelo Conselho de Governadores do Fed a cada cinco anos (a cada ano, somente cinco desses 12 podem votar nas decisões do FOMC).
  • A próxima ratificação ocorrerá em março de 2026 e, em teoria, se Trump possuir a maioria do Conselho, eles podem recusar a aprovação de presidentes regionais que não estejam alinhados aos interesses da Casa Branca.
  • Adicionalmente, tanto a Seção 341 da Lei do Federal Reserve como uma opinião do Gabinete de Assessoria Jurídica do Departamento de Justiça dos Estados Unidos afirmam que o Conselho de Governadores do Fed pode demitir presidentes de Federal Reserves regionais sem a necessidade de justa causa.

 

Precedentes preocupantes: Embora esse cenário seja bastante drástico, vale lembrar que Donald Trump está provocando uma série de mudanças drásticas e desafiando os limites das instituições americanas em diversas frentes.

  • Trump promove mudanças expressivas no comércio exterior, imigração, política fiscal, política energética, regulamentação dos negócios, diplomacia e estrutura da administração federal dos Estados Unidos por meio de atos do poder Executivo, praticamente desacompanhados de mudanças na legislação e amparados juridicamente na declaração de poderes emergenciais em 72 ocasiões.

 

Reciprocidade contra os EUA e PIB do segundo trimestre
Impacto esperado no USDBRL: altista

O governo brasileiro autorizou, nesta semana, o início de um estudo para avaliar a possível aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica contra os Estados Unidos.

  • A medida é uma resposta direta às tarifas de importação impostas pela Casa Branca sobre produtos brasileiros.
  • A análise permitirá ao governo considerar eventuais retaliações, que podem incluir restrições ao comércio de bens e serviços ou até medidas relacionadas a direitos de propriedade intelectual.

 

Por que isso é importante: A possibilidade de retaliação eleva o risco de piora das relações comerciais e diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.

  • Esse cenário tende a ser negativo para a economia brasileira e para empresas exportadoras, podendo reduzir a entrada de capitais externos para o país e, assim, prejudicar o desempenho do real.

 

Panorama: O Itamaraty, em coordenação com o governo federal, encaminhou à Câmara de Comércio Exterior (Camex) o pedido de análise, que deve ser concluído em até 30 dias.

  • A Camex avaliará se as tarifas impostas pelos EUA se enquadram como passíveis de sanção segundo a Lei da Reciprocidade Econômica.
  • Caso a resposta seja positiva, será criado um grupo de trabalho para definir quais medidas o Brasil poderá adotar. A decisão final será comunicada oficialmente à Casa Branca.
  • Na fase atual, portanto, a autorização não implica que qualquer medida recíproca será necessariamente implementada.
  • Além disso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem reiterado cautela, afirmando na última sexta-feira (29) que “não tem pressa de fazer qualquer coisa com a reciprocidade contra os Estados Unidos”.

 

De olho nos dados econômicos: O debate sobre possíveis retaliações ocorre em um momento de atenção à resiliência da atividade econômica doméstica.

  • Entre os indicadores a serem divulgados na próxima semana, destaca-se a divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre.
  • A mediana das projeções aponta para crescimento trimestral de 0,3%, abaixo da alta de 1,4% registrada no primeiro trimestre.
  • Esse desempenho mais fraco, por sua vez, deve estar relacionado às condições restritivas de crédito, que devem ter exercido efeito limitador para o consumo das famílias.
  • Pelo lado da oferta, contudo, espera-se que o setor de serviços tenha se mostrado novamente resiliente, devendo crescer a um ritmo aproximadamente duas vezes superior ao do PIB.

 

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TABELA DE INDICADORES ECONÔMICOS

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Fontes: Banco Central do Brasil; B3; IBGE; Fipe; FGV; MDIC; IPEA e StoneX cmdtyView.
  • Moedas

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