
Dólar deve refletir paralisação do governo americano, ata do Fed, IPCA, riscos fiscais no Brasil e possível conversa entre Lula e Trump
- Altista
- Paralisação do governo americano suspende a divulgação de indicadores econômicos do país, o que dificulta a compreensão da conjuntura do país e pode prejudicar a atração de investimentos estrangeiros.
- Ata da decisão do Fed pode sugerir uma postura mais cautelosa entre os integrantes do FOMC e diminuir apostas para cortes de juros mais rápidos nos EUA, o que tende a favorecer a atração de investimentos estrangeiros e valorizar o dólar globalmente.
- Votação da MP das alternativas ao IOF pode resultar em arrecadação menor do governo brasileiro e ampliar a percepção de riscos fiscais para ativos nacionais, o que enfraqueceria o real.
- Baixista
- Leitura mais aquecida do IPCA de setembro deve reforçar a expectativas de juros mais altos por mais tempo no país, o que favorece a atração de investimentos estrangeiros e tende a fortalecer o real.
- Possível reunião entre Trump e Lula aumenta a expectativa de uma reaproximação comercial e diplomática entre Brasil e Estados Unidos, o que pode diminuir a percepção de riscos para ativos nacionais e favorecer o desempenho do real.
Resumo da semana passada
- Governo americano entra em paralisação, suspendendo a divulgação de indicadores econômicos oficiais sobre a economia do país.
- Dados de empregos privados da ADP e PMI industrial e de serviços do instituto ISM sugerem desaceleração mais intensa dos EUA em setembro.
- Notícias sobre a possibilidade de o governo brasileiro subsidiar uma gratuidade universal das tarifas de ônibus aumentaram percepção de riscos fiscais de ativos brasileiros.
Dólar comercial (US$/R$) e Dollar Index (pontos)

Fonte: StoneX cmdtyView. Elaboração: StoneX.
Variações do dólar comercial | No dia: -0,11% | Na semana: -0,09% | No mês: +0,21% | No ano: -13,66% | Em 12 meses: -2,55% |
Variações do Dollar Index | No dia: -0,15% | Na semana: -0,42% | No mês: -0,06% | No ano: -9,62% | Em 12 meses: -4,18% |
O MAIS IMPORTANTE: Paralisação do governo americano
Impacto esperado no USDBRL: altista
Desde a quarta-feira passada (01), as atividades não essenciais do governo americano estão paralisadas e aproximadamente 750 mil servidores públicos estão em em licença sem remuneração (“furlough”) após o prazo legal para o financiamento dessas atividades expirar.
- Uma reabertura do governo depende da aprovação de um novo Orçamento ou prorrogação do anterior pelo Congresso do país.
- Porém, republicanos e democratas apresentam demandas bastante distintas para os gastos públicos e não houve progresso até o momento nas negociações entre ambos.
Por que isso é importante: A paralisação afeta a maior parte do setor público americano, incluindo os departamentos responsáveis pela coleta e publicação de estatísticas econômicas, que suspenderam todas as divulgações de indicadores desde a última quarta-feira.
- Isto pode resultar em maior percepção de riscos para ativos americanos na medida em que dificulta a leitura de investidores quanto à evolução da conjuntura econômica americana, o que poderia desvalorizar o dólar globalmente.
Atraso nos dados: A paralisação ameaça a divulgação de dados para mercado de trabalho, atividade econômica e inflação antes da próxima decisão de juros do Federal Reserve, em 29 de outubro.
- Por isso, investidores devem monitorar as negociações entre republicanos e democratas pela possibilidade do fim dessa paralisação.
- Na semana passada, indicadores como os pedidos semanais de auxílio-desemprego e o Relatório da Situação de Emprego de setembro já não foram divulgados.
- Esse cenário aumenta a importância de dados regionais e privados sobre as movimentações dos mercados financeiros.
- Na paralisação de 16 dias de 2013, as divulgações continuaram a ser divulgadas com atraso por dois meses e meio. Já na paralisação de 35 dias em 2018 e 2019, não houve atraso, pois o Congresso já havia autorizado recursos para o funcionamento das agências estatísticas e elas continuaram funcionando.
Inflação no Brasil
Impacto esperado no USDBRL: baixista
Investidores devem reagir à divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), cuja projeção mediana é de uma alta de 0,54% em setembro após uma retração de 0,11% em agosto.
- Em termos anuais, o índice deve alcançar 5,24%, bem acima da meta de 3%, o que evidencia o desafio da estabilização inflacionária do Banco Central.
- Além do índice cheio, investidores estarão atentos ao comportamento dos preços de serviços e do núcleo do indicador, que exclui os componentes mais voláteis de alimentação e energia, visto que mostraram avanço mais moderado do que o esperado no IPCA-15 do mesmo mês.
Por que isso é importante: O avanço do IPCA deve contribuir para a redução das apostas, pelo menos por ora, de possíveis cortes da taxa básica de juros (Selic) no curto prazo. Essa perspectiva, por sua vez, tende a favorecer o rendimento dos títulos brasileiros e o desempenho do real.
- Por outro lado, se os componentes de serviços e o núcleo da inflação apresentarem um comportamento mais contido assim como no IPCA-15, podem ganhar forças as apostas de cortes antecipados nos juros brasileiros, em meio à percepção de maior controle dos preços.
Panorama: O IPCA-15 voltou a subir em setembro após retração de agosto, registrando alta de 0,48%, puxada pelo forte aumento da energia elétrica (+12,17%).
- Esse avanço refletiu o fim do bônus de Itaipu, que havia reduzido tarifas em agosto, e a vigência da bandeira tarifária vermelha patamar 2, a mais cara da escala.
- Em contrapartida, o núcleo da inflação, que exclui itens voláteis como alimentação e energia, desacelerou de 0,40% em agosto para 0,05% em setembro, enquanto os serviços, mais sensíveis à demanda, recuaram de 0,62% para 0,08% no mesmo período.
- Esses números sugerem que a pressão inflacionária de setembro ficou concentrada em itens pontuais e voláteis, indicando sinais de estabilização.
- Ainda assim, um único mês de alívio não deve ser suficiente para alterar a postura do Banco Central, que tende a exigir a confirmação dessa tendência por vários meses consecutivos antes de considerar cortes na Selic.
Ata do FOMC
Impacto esperado no USDBRL: altista
EUA: Histórico e expectativa para a taxa de juros – atualizado em 03 de outubro de 2025

Fonte: CME FedWatch Tool. Elaboração: StoneX. Refere-se à aposta com maior probabilidade no mercado futuro de juros na data indicada.
Enquanto a paralisação do governo prejudica a divulgação de indicadores econômicos nos EUA, investidores devem buscar pistas sobre a trajetória dos juros americanos na ata da última decisão do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) do Federal Reserve (Fed).
- Apesar de se referir a um encontro realizado há três semanas, o documento ganha relevância diante da falta de unanimidade entre os dirigentes na decisão, podendo dar mais indícios sobre o grau de alinhamento de outros membros do comitê com a proposta de Stephen Miran, que defendeu um corte mais agressivo de 0,50 p.p.
Por que isso é importante: Caso a ata reforce a expectativa de cortes mais graduais de juros nos próximos meses, tende a aumentar a atratividade dos títulos americanos, favorecendo a entrada de capital estrangeiro e fortalecendo o dólar no mercado global.
FOMC reduz seus juros: Em sua reunião do dia 17 de setembro, o Comitê Federal de Mercado Aberto reduziu sua taxa de juros em 0,25 p.p., do intervalo entre 4,25% e 4,50% a.a. para a faixa entre 4,00% e 4,25% a.a.
- O presidente do Fed, Jerome Powell, notou que o corte de juros foi resultado da mudança no balanço de riscos, que apresenta riscos mais baixos de uma inflação mais alta e persistente e riscos mais altos de uma piora do desemprego.
Por precaução: Entretanto, Powell ressaltou que o cenário continua desafiador e que esses riscos continuam presentes e exigindo medidas opostas para sua gestão.
- Em suas palavras, “[este foi] um corte para gerenciamento de riscos, visto que a inflação acelerou menos que o antecipado e com poucos indícios de efeitos das tarifas de importação, enquanto o mercado de trabalho se desacelerou mais intensamente que o previso.
- Além disso, Powell afirmou que “não houve amplo apoio para um corte de 0,50 p.p.”, sugerindo que não há pressa para novas reduções.
Projeções contraditórias: As Projeções Econômicas Sumarizadas divulgadas após a decisão mostraram que 10 dos 19 integrantes do FOMC antecipam pelo menos mais dois cortes nas duas decisões que restam este ano, enquanto 7 não enxergavam mais nenhuma redução.
- Adicionalmente, as projeções para 2026 para inflação e crescimento econômico foram revisadas levemente para cima, enquanto a de desemprego foi revisada levemente para baixo. Em tese, esse cenário sugeriria menos cortes de juros, pois indica uma economia mais aquecida.
- Adicionalmente, há elevado grau de dispersão nas expectativas para os juros em 2026 e 2027, o que sugere baixo grau de confiança entre os integrantes quanto à evolução da economia nos próximos anos.
- Os comentários de Powell e a dispersão das projeções econômicas resultaram em uma leve diminuição das apostas de investidores por cortes de juros pelo Fed.
Mudanças à vista no Fed?: Ao contrário do esperado, apenas o membro mais recente do FOMC, Stephen Miran, divergiu dos demais integrantes do colegiado.
- Ele continua tecnicamente ligado ao Executivo, visto que apenas tirou uma licença do cargo de chefe do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca enquanto não sabe se será indicado para continuar no Fed para o mandato de 14 anos que se inicia em fevereiro.
- Por um lado, o voto unificado dos demais integrantes do Comitê, especialmente os de Christopher Waller e Michelle Bowman, membros indicados por Donald Trump em sua primeira gestão, diminuiu os receios de investidores quanto a uma possível interferência da Casa Branca na condução da política monetária.
- Por outro, Miran defendeu que o FOMC realizasse três cortes de juros consecutivos de 0,50 p.p., uma posição bastante destoante de seus pares e de difícil justificativa com base no cenário econômico e no balanço de riscos atuais.
- Esta posição, entretanto, é coerente com a visão de Donald Trump e demais autoridades econômicas da Casa Branca, como o secretário do Tesouro e o diretor do Conselho Econômico Nacional, que argumentam que os juros americanos estão excessivamente elevados.
Receios fiscais no Brasil
Impacto esperado no USDBRL: altista
Investidores devem monitorar a tramitação da Medida Provisória (MP) que eleva uma série de impostos em compensação de um aumento menor para o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
- A MP perderá sua validade se não for aprovada até quarta-feira (08).
Por que isso é importante: Caso a MP seja aprovada com alterações significativas, ela pode resultar em um aumento da percepção de riscos fiscais para ativos brasileiros e dificultar a atração de investimentos estrangeiros, o que enfraqueceria o real.
Panorama: Na semana passada, notícias de que o governo brasileiro estudava a possibilidade de subsidiar uma gratuidade universal das tarifas de ônibus aumentaram percepção de riscos fiscais de ativos brasileiros.
- Na semana passada, também, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade o Projeto de Lei que amplia a isenção sobre o Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês e aumenta a tributação sobre contribuintes com renda acima de R$ 50 mil mensais.
- O secretário de Reformas Econômicas, Marcos Pinto, acredita que a equipe econômica terá de ceder em alguns pontos para conseguir aprovar a MP, como corte de benefícios tributários e a tributação de títulos incentivados, como Letras de Crédito Agrícola e Imobiliário (LCA e LCI, respectivamente).
- Isto, por sua vez, diminuiria a arrecadação prevista pelo governo e dificultaria o atingimento das metas de resultado primário previstas pelo arcabouço fiscal.
Conversa entre Trump e Lula
Impacto esperado no USDBRL: baixista
Investidores aguardam por mais informações a respeito de uma conversa entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos, Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
- No final de setembro, ambos se reaproximaram durante a Assembleia Geral das Nações Unidas e sugeriram a possibilidade de uma conversa em breve.
Por que isso é importante: Apesar de ser cedo para avaliar qual será o resultado da conversa, a perspectiva de uma reunião aumenta as expectativas por uma diminuição das tensões comerciais e diplomáticas entre os dois países.
- Isto, por sua vez, pode diminuir a percepção de riscos relacionado a ativos brasileiros e favorecer o desempenho do real.
Panorama: Inicialmente, havia uma expectativa de que a conversa acontecesse na semana passada, o que não ocorreu por conta da paralisação das atividades do governo americano.
- Ainda não há uma definição sobre a data ou o formato dessa conversa.
- Reportagens de imprensa afirmam que as equipes diplomáticas dos dois países trabalham para marcar um encontro presencial dos dois presidentes durante a reunião de cúpula da Asean em 26 de outubro em Kuala Lumpur.
- Na quarta-feira passada (01), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o governo brasileiro busca abrir uma mesa de negociação para amenizar as tarifas de importação e que não pretende misturar comércio com política.
- Os Estados Unidos demonstram interesse em firmar acordos com o Brasil para acesso a minerais estratégicos, como lítio, nióbio e terras raras. Lula já havia admitido, em entrevista no mês passado, a possibilidade de negociar esses ativos.
- No campo da tecnologia, o governo brasileiro tem se movimentado para facilitar acordos com grandes empresas do setor, como mostra a recente Medida Provisória que estimula a instalação de datacenters no país.

TABELA DE INDICADORES ECONÔMICOS

Fontes: Banco Central do Brasil; B3; IBGE; Fipe; FGV; MDIC; IPEA e StoneX cmdtyView.