Do ponto de vista fundamental, o sentimento do mercado continua construtivo, devido ao balaço negativo em 2021/22, aos problemas logísticos e aos fatores climáticos. Como foi comentado no último relatório, é um consenso que o balanço de O&D deverá ser negativo em 2021/22 – as estimativas para o balanço de oferta e demanda variam de -2,6 a -13 milhões de sacas. Com relação a logística, vários países estão enfrentando problemas para exportar o café, como o Peru, a Colômbia, o Brasil, Vietnã e Indonésia – não exista uma expectativa para solução destes problemas em um curto prazo.
Já em relação ao clima, algumas regiões produtoras no Brasil receberam volumes substanciais de chuva, como a região das matas de Minas, São Paulo, Paraná, Espírito Santo, Bahia e Rondônia. Alguns municípios da região sul de Minas, maior produtor nacional, receberam volumes entre 30 e 60 mm nos últimos 60 dias, porém volume ainda é inferior à média história principalmente mais ao norte da região, o que pode ser notado no mapa de anomalia de chuva. A região do cerrado segue com volumes bem abaixo da média história, com acumulados entre 5 e 20 mm nos últimos 60 dias. As chuvas observadas nas Matas de Minas e no sul do estado do Espírito Santo foram suficientes para iniciar o processo de floração das lavouras, sendo que estes volumes estão mais próximos da média histórica. A região norte do Espírito Santo não recebeu volumes satisfatórios de chuvas, mas os volumes observados associado a prática da irrigação, contribuíram para a abertura da florada do café robusta no estado. Ademais, o último modelo GFS tem apontado para um clima majoritariamente seco e quente em todo o cinturão cafeeiro no Brasil nos próximos 14 dias.
% de precipitação dos últimos 60 dias em relação à média histórica
Fonte: StoneX, com dados do NOAA/NCEP/EMC (GFS: Global Forecast System), 2021.
Na Colômbia, o volume excessivo de precipitações tem causado problemas – houve relatos de que as chuvas têm destruídos estrados e causado problemas para a produção no País. A situação na Colômbia pode piorar ainda mais, já que os modelos da agência Americana NOAA aumentaram para 70-80% a chance da ocorrência de La Niña no final deste ano e no início do próximo ano. A ocorrência do La Niña entre dezembro e fevereiro está associada ao um aumento no volume de chuvas na Colômbia, América Central e Ásia, o que pode gerar problemas logísticos, na produção e de qualidade. Importante ressaltar que a partir de setembro a Colômbia está no período de colheita da sua safra principal. Além disso, a partir de meados de novembro, países da América Central e Vietnã iniciarão seu período de colheita.
Como foi abordado em outras edições deste relatório, os problemas logísticos causados pela pandemia da Covid-19 têm gerado atrasos nos embarques de café em vários países produtores. No Brasil, os dados preliminares de exportação, divulgado pela Secex, apontaram para uma redução de 10% nas exportações em agosto. Os dados do Conselho dos Exportadores de Café (Cecafé) ainda não foi divulgado, mas devem apontar tendência indicada nos dados da Secex. Não existe um calendário oficial para a divulgação dos dados, mas os dados do Cecafé deverão ser divulgados no início desta semana.
Ainda nesta semana, teremos a divulgação do relatório da da Green Coffee Association (GCA), que traz os dados do volume de estoque de café nos portos americanos. Os estoques GCA é um importante indicador do mercado doméstico de café nos EUA. O último relatório GCA mostrou um incremento de 5% nos estoques entre junho e julho, porém o volume visto em julho ainda era 13,9% inferior ao visto em julho do ano anterior.
No Brasil, o indicado CEPEA para a variedade arábica registrou um recuo de 0,68%, para fechar a semana cotado a R$ 1.073,90/saca. Por outro lado, o indicado CEPEA para o robusta apontou para um ganho de 1,57%, quando fechou cotado a R$ 735,73/saca.
As cotações de café arábica com qualidade inferior avançaram em relação ao café arábica com padrões mais finos. De acordo com o consultor em gerenciamento de risco da StoneX Brasil, Raphael Morais, as exportadoras e tradings estão tendo menor atividade no mercado físico, tendo foco no recebimento de cafés futuros, devido as preocupações com relação aos problemas logísticos, que têm dificultado a exportação e as negociações no mercado internacional. Por outro lado, foi notado uma atividade mais intensa por parte da indústria nacional, que segue preocupada em meio a forte redução na oferta de café e a alta nos preços.
Como resultado, a forte demanda da indústria pelos cafés arábicas inferiores e pela variedade robusta tem suportado os preços no mercado doméstico e contribuído para diminuir a diferença de preço entre os cafés arábicas inferiores e o café arábica de melhor qualidade. Raphael recorda que no mesmo período do ano passado, o café LG 600 1x1 (600 defeitos, com 1% impureza e 1% de fundo) era negociado em torno de R$ 350,00/saca, enquanto o café tipo 6 foi visto em torno de R$ 600,00/saca, com a diferença entre os padrões na casa de R$ 250,00/saca (-41,6%). Nos últimos dias, o mesmo padrão, LG 600 1x1, foi comercializado a R$ 950,00/saca, enquanto a tipo 6 foi visto em torno de R$ 1.080/saca, apontando para uma diferença de apenas R$ 130,00/saca (-12%).
O último relatório Commitment of Traders (COT), divulgado pelo CFTC, informou que no período entre 31 e 7 de setembro, os fundos especulativos elevaram suas posições compras em futuros e opções de 49.839 na semana anterior para 52.419, com um avanço líquido de 2.691 em suas posições compradas, indo a 36.511. Um avanço como este, usualmente tende a atuar de forma altista para os preços, todavia, durante o período, as cotações do contrato mais líquido em Nova Iorque recuaram 195 pontos, encerrando o dia 7 de setembro cotado a US₵ 193,95. Para este movimento, podemos ver uma contribuição importante dos fundos de índice, que não acompanham necessariamente as tendências do mercado de café. Os fundos de índice diminuíram suas posições compradas em 3.514 e vendidas em 782 contratos, reduzindo sua posição liquidamente comprada em 2.732 contratos, para um total de 58.570.
À medida que nos aproximamos do final do ano cafeeiro de outubro de 2020 a setembro de 2021, avaliações finais do balanço global são feitas. Algo típico para o mercado do café são as variações das previsões de produção e consumo, mas a opinião consensual é que o ano cafeeiro terminará com um superávit de oferta, conforme o ano de safra alta no Brasil e bons rendimentos de muitos dos outros produtores superam uma demanda estagnada impactada pela pandemia global de COVID-19.
Mais recentemente, a Organização Internacional do Café (OIC) publicou seu relatório de agosto sobre o mercado de café, revisando as previsões de produção e consumo para o período.
Para a produção, a OIC aumentou ligeiramente sua estimativa em 0,02%, de 169,604 milhões previstos no mês passado para 169,644 milhões de sacas. O consumo foi revisto em menos de 0,3%, de 167,584 milhões para 167,011 milhões de sacas. No geral, espera-se que o ano cafeeiro de 2020/21 termine com 2,633 milhões de sacas de superávit.
“Espera-se que a relação oferta/demanda seja mais apertada, pois prevê-se que a oferta total seja apenas 1,6% maior do que a demanda no ano cafeeiro de 2020/21, em comparação com 3,1% em 2019/20. Com a esperada redução substancial da produção do Brasil advinda das geadas recentes e problemas relacionados ao clima em muitos outros países exportadores, espera-se que a oferta total caia abaixo do consumo mundial”, observou a OIC em seu relatório.
Esta é, de longe, a previsão mais baixa de um excedente na indústria, com a CoffeeNetwork estimando um excedente entre 11 e 12,8 milhões, o USDA prevendo um excedente de 12,66 milhões e várias outras empresas apresentando um excedente que varia entre 4,5 e 10,5 milhões de sacas.
Embora o número de consumo da OIC esteja em linha com outras previsões, sua estimativa de produção é significativamente menor. A grande variação entre as previsões deriva de muitas questões do setor, incluindo a falta de transparência e os desafios que daí decorrem na elaboração precisa de relatórios sobre a produção. Para manter a consistência dos dados, a OIC converte os números de produção de uma base de ano-safra para uma base de campanha de comercialização, dependendo dos meses de colheita para cada país, o que poderia levar a algumas discrepâncias nas suas previsões em relação a outras.
Olhando para o futuro, o foco começará a mudar para o ano-safra global de 2021/22, com as primeiras estimativas já indicando deslocamento para um déficit global da oferta. Embora a OIC não tenha divulgado previsões para este período, a organização indicou que “uma redução substancial da produção mundial no ano cafeeiro de 2021/22 é esperada, uma vez que algumas origens importantes foram afetadas por choques relacionados ao clima.”
Em semana de grande volatilidade no mercado cambial brasileiro, o par real/dólar encerrou cotado a R$ 5,265, em alta de 1,4% frente a sexta-feira anterior (3). A moeda americana chegou a atingir máximas de R$ 5,32 entre a terça e quarta-feira, contribuindo para as maiores quedas diárias das cotações de café em Nova Iorque na semana. A conjuntura doméstica figurou como principal fator de influência para as oscilações no câmbio, com destaque para a divulgação do IPCA de agosto e as repercussões políticas das manifestações no feriado de 7 de setembro.