Movimento de alta sustentado pelas tensões russa-ucranianas perde força e futuros do trigo sofrem fortes perdas
fatores baixistas
- Ritmo lento dos embarques físicos dos Estados Unidos;
- Queda da comercialização de trigo da Rússia;
- Reflexos da pandemia da Covid-19.
fatores altistas
- Escalada da tensão entre Rússia e Ucrânia;
- Intempéries climáticas nos Estados Unidos e Canadá;
- Alta taxa e quota de exportação russa sobre o trigo;
- Queda do excedente exportável global.
ESTADOS uNIDOS
Os mercados futuros de trigo iniciaram a semana em forte tendência de alta, com os preços sendo puxados pelo noticiário acerca da escala de tensões entre Rússia e Ucrânia – para saber mais sobre os reflexos de um possível conflito na região do Mar Negro, acesse a
matéria especial dessa semana. Na segunda-feira (24), o contrato mais próximo (março/22) fechou a 800,40 USD cents/bushel, na Bolsa de Chicago (CBOT, na sigla em inglês); a US¢ 818,00/bu, na Bolsa de Kansas City (KCBT); e a US¢ 948,40/bu, na Bolsa de Minneapolis (MGEX).
Além disso, as inspeções de exportação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) reportaram uma pequena alta semanal (4,3%) de embarques físicos de trigo – o Departamento reportou a saída de 400,97 mil toneladas de trigo. Contudo, destaca-se que os embarques reportados ficaram abaixo daqueles registrados no mesmo período do ano passado, de 571,68 mil toneladas, e com isso o acumulado do ano comercial corrente está 2,93 milhões de toneladas abaixo daquele registrado no mesmo período do ano passado, totalizando 13.218.112 toneladas.
Intraday | Preço contínuo – Chicago (USD cents/bushel)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
Na terça-feira (25), a situação entre Rússia e Ucrânia seguiram no centro das atenções dos mercados, levando o contrato de março/22 a US¢ 831,40/bu em seu ponto mais alto da sessão principal na CBOT – no fechamento, o mesmo contrato foi cotado a US¢ 818,00/bu. Nas demais bolsas estadunidenses, a KCBT fechou a US¢ 834,40/bu, enquanto a MGEX registrou leve queda, fechando a US¢ 947,20/bu.
Para além da questão ucraniana, os agentes também acompanharam as atualizações dos dados referentes ao progresso da safra de inverno nos Estados Unidos (EUA). De acordo com o resumo mensal dos estados, de forma geral, o trigo HRW na região sul das Grandes Planícies apresentou queda de 3 a 5% no percentual bom/excelente (B/E), com o estado de Kansas registrando mínimas de quatro anos. Em relação ao trigo SRW, se, por um lado, os estados de Michigan, Kentucky e Tennessee apresentaram quedas de 3 a 8% no percentual B/E, por outro, o estado de Missouri apresentou alta de 8%.
Na quarta-feira (26), sem novas notícias em relação à situação russa-ucraniana e sem o movimento de ambos os lados, os mercados voltaram a cair. A correção dos preços se mostrou agressiva em Chicago, Kansas City e Minneapolis. Enquanto a KCBT (fechamento: US¢ 815,60/bu) registrou perdas de US¢ 18,60/bu sobre o contrato de março/22; Chicago (fechamento: US¢ 795,00/bu) recuou US¢ 23,00/bu; e Minneapolis (fechamento: US¢ 916,20/bu), US¢ 31,00/bu.
Na quinta-feira (27), nem mesmo as
vendas semanais de exportação dos EUA acima das estimativas do mercado foram capazes de reverter o movimento de queda – preços de fechamento: CBOT, US¢ 777,00/bu; KCBT, US¢ 793,40/bu; e MGEX, US¢ 902,40/bu. De acordo com o USDA, na semana encerrada no dia 20 de janeiro, as vendas de exportação para 2021/22 chegaram a 676,68 mil toneladas de trigo, enquanto as estimativas do mercado apontavam para um total entre 200 e 600 mil. Para 2022/23, foram registradas 60 mil toneladas do cereal.
Vendas de Exportação Semanais - EUA (mil toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Após uma semana de grande volatilidade, na sexta-feira (28), os futuros do trigo fecharam a semana em leve movimento de alta: (contrato de março/22) CBOT, US¢ 786,20/bu; e KCBT, US¢ 802,20/bu. O destaque da sessão foi Minneapolis, onde os ganhos chegaram a US¢ 17,60/bu, fechando a US¢ 920,20/bu.
Na última semana, os preços futuros do trigo na Europa, mais especificamente na Bolsa de Paris, tiveram dois momentos bem distintos. Na segunda (24) e na terça-feira (25), continuou o movimento de alta que era predominante desde 17 de janeiro. Como vem sendo mencionado, os ganhos eram impulsionados pelas tensões na fronteira entre Rússia e Ucrânia, que traziam a perspectiva de disrupções nas cadeias logísticas do 2º e do 4º maior exportador de trigo do mundo. Assim, em apenas dois dias o contrato para março/22 saltou de EUR 272,50/t para EUR 290,75/t.
A partir de quarta-feira (26), entretanto, o sentido dos preços mudou. A possibilidade de conflito físico entre os dois países ainda se mostrava presente, mas os significativos ganhos das últimas sessões levaram os investidores a realizar seus lucros, o que acabou produzindo perdas nos contratos. Tal tendência se manteve também na quinta-feira (27). Assim, o contrato de março/22 recuou para EUR 277,00/t. Por fim, na sexta-feira (28), os contratos atuaram de maneira indefinida, mantendo-se próximos dos valores de fechamento do dia anterior. Assim, o de março/22 encerrou a semana cotado a EUR 278,75/t.
Para além da questão dos preços, a última semana foi de destaque para o mercado de trigo europeu, pois nela ocorreu a divulgação do relatório mensal de acompanhamento de safra da Comissão Europeia, o relatório MARS. De modo geral, os resultados condizem com uma safra bastante robusta. Isso porque ele indicou que as temperaturas e as chuvas sensivelmente acima da média foram extremamente benéficas para as lavouras do continente, o que permitiu que as regiões que estavam com o desenvolvimento do trigo defasado, particularmente França e Mar Negro, alcançassem o estágio ideal das outras lavouras. Assim, o relatório conclui que praticamente toda a safra da União Europeia está em condições boas ou muito boas. Caso isso se mantenha até o período da colheita, a produção no bloco econômico deve alcançar as 138,9 milhões de toneladas indicadas pelo último relatório WASDE do USDA.
Entretanto, os pesquisadores da Comissão Europeia fizeram uma consideração importante no relatório. Ao mesmo tempo em que eles afirmam que as temperaturas mais amenas trouxeram benefícios para o desenvolvimento dos grãos, eles também dizem que elas podem gerar grandes danos no futuro. Isso porque o trigo de inverno precisa de uma camada de neve para endurecer e, assim, sobreviver ao forte frio enfrentado durante o período de dormência.
Com o calor acima do normal, esse processo de endurecimento não aconteceu da maneira que deveria em importantes regiões da União Europeia, com destaque para a Romênia e a Bulgária. Portanto, no médio prazo existe o risco de a safra europeia ser danificada por geadas e baixas temperaturas.
Por fim, a atualização dos dados de exportação da União Europeia mostrou que desde o início do ano safra, em 1º de julho, até o dia 25 de janeiro, deixaram o bloco econômico um total de 16,4 milhões de toneladas de trigo. O volume é 5,4% maior que o do ciclo anterior, mas 10,8% menor que o de 2019/20. Isso indica que a demanda atual pela safra europeia é significativa, mas não tão robusta quanto se imaginava no início do período de vendas.
No momento, os principais mercados consumidores do trigo europeu são Argélia (2,5 milhões de toneladas), Egito (1,5 milhão de toneladas) e China (1,2 milhão). Em relação às origens, os líderes são França (4,3 milhões), Romênia (4,3 milhões) e Alemanha (1,9 milhão). Importante destacar que os dados franceses estão defasados, não tendo entrado na conta as exportações de janeiro.
Intraday | Preço contínuo – Paris (EUR/tonelada)
Fonte: Euronext. Elaboração: StoneX.
Nas últimas duas semanas, os preços do trigo nas principais bolsas de derivativo do mundo operaram com bastante volatilidade devido às movimentações que ocorrem na região do mar Negro. Isso já foi discutido à exaustão nas sessões anteriores, com as incertezas relacionadas ao possível conflito entre Rússia e Ucrânia já tendo sido destrinchadas. A novidade aqui é o fato de que, curiosamente, nos portos do Mar Negro em si, os preços não foram significativamente impactados. Tomando como referência o indicador de preço FOB divulgado pela Bolsa de Moscou, nos últimos quinze dias o trigo foi de USD 338,30/t para USD 333,40/t, uma pequena queda que foi na contramão da tendência observada em Chicago e em Paris. É claro que os preços futuros tendem a ser mais voláteis que os físicos, mesmo assim é uma diferença significativa.
Um outro fator importante para o mercado de trigo do Mar Negro foi a divulgação do boletim MARS, um importante relatório de acompanhamento de safra. Apesar de ele ser desenvolvido pelo principal órgão executivo da União Europeia, a Comissão Europeia, o mesmo também acompanha as condições das lavouras na Ucrânia e na Rússia. Assim como para o bloco econômico europeu, a divulgação indiciou safras robustas para os dois países eslavos. As lavouras encontram-se em boas condições e o desenvolvimento do trigo dentro do esperado. O único adendo feito pelos especialistas da Comissão foi de que o endurecimento do grão não é o ideal, o que o deixa sujeito a danos em caso de geadas.
Por fim, os dados de exportação seguem mostrando decréscimo das vendas russas e ganhos das ucranianas. Do início do ano safra (1º de julho) até o dia 20 de janeiro, deixaram a Rússia um total de 23,0 milhões de toneladas de trigo, volume 21% menor que o registrado no ciclo passado. Já na Ucrânia, até o dia 24 de janeiro deixaram o país 16,6 milhões de toneladas, quantidade 29% maior que a de 2020/21.
Rússia - 12,5% | Preço FOB – contínuo (USD/tonelada)
Fonte: Cash Wheat Report. Elaboração: StoneX.
TRIGO NOS MERCADOS FUTUROS DOS EUA
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.