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Semanal de Café

By: StoneX Intelligence Brazil, StoneX Intelligence Brazil

Preocupações com a guerra derrubam os
preços de café
 
Fernando Maximiliano
 
Leonardo Rossetti
 
Além da aversão ao risco, o conflito geopolítico entre Rússia e Ucrânia pode ter impacto no consumo da bebida
Resumo

•    Cotações de café arábica recuaram 1440 pontos (6,0%) em NY na semana, encerrando cotado a US₵ 224,25/lb. 
•    Indicador Cepea de café arábica recuou 7,6%, encerrando a R$ 1.325,98/sc.
•    Preços de café robusta caem USD 140 (6,4%) em Londres, para USD 2038/ton.
•    Indicador Cepea para o robusta apresentou queda de 4,6% e terminou a semana cotado em R$ 767,95/sc.
•    Tensões em Rússia e Ucrânia continuam pressionando as cotações de café 
•    Conflito no leste europeu pode afetar consumo de café 
•    Possível queda nos embarques para Rússia, 6º maior importador de café do Brasil, preocupa os agentes 
•    Nas exportações brasileiras, café solúvel tende a ser o mais impactado
•    Fundos elevam aversão ao risco e reduzem posições compradas nas bolsas
•    Queda na produção da Colômbia em fevereiro mantém preocupação com a atual safra no país 
•    Favorecido pela alta no complexo de commodities, real se valoriza na semana 
•    Possível interrupção das importações de petróleo da Rússia pelo mundo elevam aversão ao risco global 
•    Entre os indicadores, inflação no Brasil e Estados Unidos em fevereiro são destaque

   Fatores baixistas       Fatores altistas

 

Os preços de café tiveram uma forte queda, reflexo do início da guerra entra a Rússia e a Ucrânia. O contrato mais ativo (maio/22) encerrou a sexta-feira (04) cotado a US₵ 224,25 /lb, um recuo de 1440 pontos (6,0%) em relação à sexta-feira anterior (25). Desde o início da guerra, que começou no dia 24 de fevereiro, os preços de café arábica tiveram uma queda de 2330 pontos (9,4%), indo de US₵ 247,55/lb para US₵ 224,25/lb. No Brasil, o indicador CEPEA para o café arábica seguiu a movimentação de Nova Iorque e terminou a semana em queda, apresentando um recuo de R$ 108,45 (7,6%), cotado a R$ 1.325,98/saca – desde o início do conflito, os preços de café arábica apresentaram um recuo de 8,1%.

Seguindo as movimentações observadas em Nova Iorque, os papeis futuros de café robusta terminaram a semana em queda. O contrato mais ativo do robusta (maio/22), recuou USD 140 (6,4%) para encerrar a semana cotado a USD 2.038/ton. Desde o início da guerra, o contrato mais ativo em Londres teve queda de USD 196 (8,7%). De forma menos intensa no Brasil, o indicador CEPEA para o café robusta apresentou queda de 4,6% e terminou a semana cotado em R$ 767,95/sc.

INTRADAY SEMANAL (CONTRATO MAIS ATIVO) - 28/02 A 04/03
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Fonte: CommodityNetwork Traders’ Pro. Elaboração: StoneX.

Com relação à guerra, existem dois fatores principais que estão contribuindo para pressionar os preços de café. Primeiramente, a eclosão do conflito aumenta o sentimento de aversão ao risco, o que diminui o apetite dos investidores para ativos de maior risco, como o café. Tal tendencia pôde ser notada no último relatório COT do contrato de arábica em Nova Iorque, que mostrou que os fundos de índice liquidaram 1.567 contratos comprados e diminuíram em 343 o número de contratos vendidos. 

Outro problema está ligado ao consumo de café pelos países que estão em conflito. Os dados do USDA indicam que a Rússia consumiu 4,16 milhões de sacas e a Ucrânia 1,23 milhões em 2020/21, portanto os dois países tiveram um consumo anual de 5,4 milhões de sacas. 

Evolução do consumo de café de Rússia e Ucrânia (milhões de sacas)
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Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.

O cenário ainda é muito incerto com relação aos impactos da guerra, porém, historicamente, devido às enormes incertezas e preocupações que envolvem momentos de conflitos armados, governo e população tendem a focar seus recursos em bens e alimentos considerados essenciais, o que pode interferir na demanda por café. Além disso, parte das empresas de frete têm interrompido seus embarques para a região, e existe o temor de que novas sansões também podem contribuir para barrar ou reduzir o fluxo de café para a região. 

No caso brasileiro, a Rússia é o 6° maior destino das exportações de café; em 2021, o Brasil exportou 1,2 milhão de sacas de café para o país. Já a Ucrânia, não está entre os principais destinos do produto brasileiro, porém importou mais de 217 mil sacas em 2021. Entre as principais categorias exportadas da commodity pelo Brasil, o mercado de café solúvel tende a ser o mais impactado, uma vez que Rússia e Ucrânia são respectivamente os 2º e 7º maiores importadores do produto do país, acumulando 535 mil sacas importadas no último ano, 13,3% do total registrado no período. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Cafés Solúveis (ABICS), os países de maneira conjunta geraram uma receita de cerca de US$ 100 milhões nas exportações brasileiras de solúvel.

Apesar de participações relativas menores, há de se considerar os volumes significativos das exportações do grão verde que podem ser afetadas. No último ano, foram registradas 708 mil sacas (2,2% do total) de café arábica enviadas aos países, com os embarques do café conilon acumulando 190 mil sacas (5,1% do total). Segundo os dados do Cecafé, em 2021 o total de todas as exportações de café para Rússia e Ucrânia geraram uma receita cambial de cerca de US$ 210 milhões.

Participação de Ucrânia e Rússia nas exportações brasileiras
de café em 2021
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Fonte: Cecafé. Elaboração: StoneX.

Tendo em vista o cenário supracitado, houve uma forte liquidação de contratos por parte dos fundos de gestão ativa, forte queda nos preços e redução no número de contratos abertos. Entre os dias 22/02 e 01/03, os fundos em Nova Iorque liquidaram 4.834 contratos comprados e adicionaram 1.812 contratos vendidos, reduzindo sua posição líquida comprada em 6.646 para 43.746 contratos – o número total de contratos abertos teve uma redução de 6.437 contratos. 

Para o mercado em Londres, também houve forte liquidação por parte dos fundos. O último relatório COT para o café robusta em Londres, referente ao dia 01/03/2022, mostrou que os fundos venderam 13.852 contratos, sendo 11.057 a liquidação de contratos comprados e adicionando 2.795 contratos vendidos, para um balanço líquido de 25.074 contratos comprados. O número total de contratos abertos teve queda de 6.296 contratos entre os dias 22/02 e 01/03.

Posição dos fundos especulativos em café em Nova Iorque e Londres (mil contratos)
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Fonte: CFTC, ICE. Elaboração: StoneX.
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Tirando os fatores ligados a guerra, ainda existem vários elementos positivos para o mercado de café, como a forte redução da produção na Colômbia, menor produção no Brasil e a queda nas estimativas de exportação de Honduras. Os dados mais recentes divulgados pela Federação Nacional dos Cafeteiros mostrou que a produção colombiana teve queda de 16% em fevereiro, quando produziu 928 mil sacas, ante 1,1 milhões de sacas produzidas em fevereiro de 2021. Ademais, a Associação dos Exportadores de Café de Honduras (ADECAFEH) ajustou com queda de 20% suas estimativas para as exportações de café do país, para 4,6 milhões de sacas em 2021/22. 

Os dados preliminares do Escritório Geral de Estatísticas do Vietnã indicaram que as exportações do país foram 5,7% maiores em fevereiro, totalizando 2,16 milhões de sacas. Ademais, o relatório da Organização Internacional do Café (OIC) indicou que as exportações mundiais de café avançaram 2,8%, para 10,9 milhões de sacas em janeiro, ante o mesmo mês em 2021. 

Favorecido pela alta no complexo de commodities, real se valoriza
na semana

Após registrar altas na semana de início da guerra entre Rússia e Ucrânia, acompanhando grande parte das divisas globais em forte movimento de aversão ao risco, o dólar tornou a recuar na última semana no mercado cambial brasileiro, indo na direção oposta da maioria das outras moedas. O par real/dólar encerrou a última sexta-feira (4) cotado a R$ 5,078, em queda semanal de 1,5%, enquanto o dollar index registrou expressivo avanço de 2,1% para encerrar cotado a 98,6 pontos, seu maior patamar desde maio de 2020.

A moeda brasileira tem se beneficiado por uma elevação da demanda por ativos relacionados a commodities, com uma série de matérias-primas essenciais se valorizando. O maior temor dos mercados globais continua sendo em relação à oferta de algumas commodities que Rússia, Ucrânia e Belarus possuem grande importância no fornecimento global, com destaque para as commodities energéticas, sobretudo petróleo e gás natural, trigo, milho, fertilizantes, alumínio e níquel.

Vale lembrar que o real já vinha em trajetória positiva desde o início deste ano, refletindo as significativas elevações da taxa básica de juros (Selic) no país e entrada de investimentos estrangeiros em ativos considerados significativamente baratos devido aos impactos da pandemia na economia brasileira.

O foco dos investidores deve continuar sendo o conflito no leste europeu, e todas as distorções que eventos futuros e que um prolongamento da duração da guerra pode acarretar a economia global. Uma preocupação no início desta semana é com relação a um possível avanço das sanções impostas à Rússia, que podem vir a afetar significativamente o fornecimento global de petróleo. Neste domingo, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, afirmou que a Casa Branca e seus aliados europeus estão analisando de maneira coordenada a perspectiva de proibir a importação do petróleo russo sem que o fornecimento adequado do óleo seja prejudicado nos mercados globais. A presidente da Câmara dos representantes, Nancy Pelosi, afirmou que está junto de seus aliados democratas “explorando uma legislação forte” para proibir as importações russas. Uma interrupção das importações de petróleo e gás russo seria fortemente altista para o preço destas commodities, o que tenderia a prolongar os efeitos da inflação acelerada nas principais economias globais.

Neste contexto, é necessário acompanhar o comportamento dos bancos centrais destes países, com a possibilidade de que em meio à crise internacional estes percam margem de manobra para controlar uma nova aceleração inflacionária e garantir a estabilidade e crescimento das suas economias.

Assim, cria-se uma expectativa para o que será debatido e qual será a postura da decisão de política monetária do Banco Central Europeu, nesta quinta-feira (10), e do Fed, no dia 16 de março.

Na última semana, o presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou em depoimento perante o Congresso dos Estados Unidos reforçou a postura firme do banco central americano no combate à inflação, indicando que o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) deve decidir por uma elevação de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros na próxima semana.

Nesta semana, entre os principais indicadores no exterior, os agentes devem acompanhar o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) de fevereiro dos Estados Unidos, divulgado na quinta-feira (10). Ainda que o Índice deva captar apenas alguns dias de efeito da guerra, iniciada em 24 de fevereiro, um resultado acima do esperado deve gerar alguma cautela nos agentes, uma vez que as fortes altas nos preços do petróleo e commodities alimentícias indicam que a inflação deve voltar a acelerar em março.

No Brasil, o IBGE divulgará a Pesquisa Industrial Mensal e a Pesquisa Mensal de Comércio de janeiro na quarta e quinta-feira, que devem ajudar na leitura sobre o desempenho da economia brasileira no início do ano. O Indicador mais aguardado fica para a sexta-feira (11), quando o INGE divulgará o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro, com a mediana das projeções dos agentes indicando que este deva se aproximar novamente de um avanço mensal de quase 1,0%.

 

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Tabela de indicadores
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Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.
 
 
  • Café

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