Com relação à guerra, existem dois fatores principais que estão contribuindo para pressionar os preços de café. Primeiramente, a eclosão do conflito aumenta o sentimento de aversão ao risco, o que diminui o apetite dos investidores para ativos de maior risco, como o café. Tal tendencia pôde ser notada no último relatório COT do contrato de arábica em Nova Iorque, que mostrou que os fundos de índice liquidaram 1.567 contratos comprados e diminuíram em 343 o número de contratos vendidos.
Outro problema está ligado ao consumo de café pelos países que estão em conflito. Os dados do USDA indicam que a Rússia consumiu 4,16 milhões de sacas e a Ucrânia 1,23 milhões em 2020/21, portanto os dois países tiveram um consumo anual de 5,4 milhões de sacas.
Evolução do consumo de café de Rússia e Ucrânia (milhões de sacas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
O cenário ainda é muito incerto com relação aos impactos da guerra, porém, historicamente, devido às enormes incertezas e preocupações que envolvem momentos de conflitos armados, governo e população tendem a focar seus recursos em bens e alimentos considerados essenciais, o que pode interferir na demanda por café. Além disso, parte das empresas de frete têm interrompido seus embarques para a região, e existe o temor de que novas sansões também podem contribuir para barrar ou reduzir o fluxo de café para a região.
No caso brasileiro, a Rússia é o 6° maior destino das exportações de café; em 2021, o Brasil exportou 1,2 milhão de sacas de café para o país. Já a Ucrânia, não está entre os principais destinos do produto brasileiro, porém importou mais de 217 mil sacas em 2021. Entre as principais categorias exportadas da commodity pelo Brasil, o mercado de café solúvel tende a ser o mais impactado, uma vez que Rússia e Ucrânia são respectivamente os 2º e 7º maiores importadores do produto do país, acumulando 535 mil sacas importadas no último ano, 13,3% do total registrado no período. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Cafés Solúveis (ABICS), os países de maneira conjunta geraram uma receita de cerca de US$ 100 milhões nas exportações brasileiras de solúvel.
Apesar de participações relativas menores, há de se considerar os volumes significativos das exportações do grão verde que podem ser afetadas. No último ano, foram registradas 708 mil sacas (2,2% do total) de café arábica enviadas aos países, com os embarques do café conilon acumulando 190 mil sacas (5,1% do total). Segundo os dados do Cecafé, em 2021 o total de todas as exportações de café para Rússia e Ucrânia geraram uma receita cambial de cerca de US$ 210 milhões.
Participação de Ucrânia e Rússia nas exportações brasileiras
de café em 2021
Fonte: Cecafé. Elaboração: StoneX.
Tendo em vista o cenário supracitado, houve uma forte liquidação de contratos por parte dos fundos de gestão ativa, forte queda nos preços e redução no número de contratos abertos. Entre os dias 22/02 e 01/03, os fundos em Nova Iorque liquidaram 4.834 contratos comprados e adicionaram 1.812 contratos vendidos, reduzindo sua posição líquida comprada em 6.646 para 43.746 contratos – o número total de contratos abertos teve uma redução de 6.437 contratos.
Para o mercado em Londres, também houve forte liquidação por parte dos fundos. O último relatório COT para o café robusta em Londres, referente ao dia 01/03/2022, mostrou que os fundos venderam 13.852 contratos, sendo 11.057 a liquidação de contratos comprados e adicionando 2.795 contratos vendidos, para um balanço líquido de 25.074 contratos comprados. O número total de contratos abertos teve queda de 6.296 contratos entre os dias 22/02 e 01/03.
Posição dos fundos especulativos em café em Nova Iorque e Londres (mil contratos)
Fonte: CFTC, ICE. Elaboração: StoneX.
Tirando os fatores ligados a guerra, ainda existem vários elementos positivos para o mercado de café, como a forte redução da produção na Colômbia, menor produção no Brasil e a queda nas estimativas de exportação de Honduras. Os dados mais recentes divulgados pela Federação Nacional dos Cafeteiros mostrou que a produção colombiana teve queda de 16% em fevereiro, quando produziu 928 mil sacas, ante 1,1 milhões de sacas produzidas em fevereiro de 2021. Ademais, a Associação dos Exportadores de Café de Honduras (ADECAFEH) ajustou com queda de 20% suas estimativas para as exportações de café do país, para 4,6 milhões de sacas em 2021/22.
Os dados preliminares do Escritório Geral de Estatísticas do Vietnã indicaram que as exportações do país foram 5,7% maiores em fevereiro, totalizando 2,16 milhões de sacas. Ademais, o relatório da Organização Internacional do Café (OIC) indicou que as exportações mundiais de café avançaram 2,8%, para 10,9 milhões de sacas em janeiro, ante o mesmo mês em 2021.