A manutenção da condição de La Niña tem provocado grandes perdas na produção colombiana de café e pode ser uma preocupação para a produção brasileira em 2023. Além das perdas de 15% na produção colombiana no primeiro semestre, a manutenção desta condição durante o segundo semestre do ano pode ter impacto na florada do café no Brasil e, consequentemente, na produção em 2023, tendo em vista que o La Niña no segundo semestre está associado ao atraso das chuvas em grande parte do cinturão cafeeiro.
A última atualização do modelo probabilístico do NOAA, que foi divulgado no dia 19 de maio, indica uma probabilidade acima de 55% pelo menos até os meses de novembro, dezembro e janeiro. A probabilidade de La Niña da última atualização teve um leve recuo se comparado com a previsão anterior, porém segue em níveis elevados para o segundo semestre. Por outro lado, a agência australiana BOM, em sua última atualização, ressalta que a maioria dos modelos climáticos internacionais apontam para uma condição neutra a partir de junho/julho. Portanto, o monitoramento deste cenário é imprescindível para avaliar e antecipar a perspectiva da manutenção do fenômeno.
Previsão probabilística de El Niño/La Niña
Fonte: NOAA. Elaboração: StoneX.
Entre as divulgações da semana, os agentes acompanharam a primeira revisão das estimativas da Conab para a safra brasileira, além da divulgação de mais relatórios Attachés do USDA. Em relatório divulgado na quinta-feira (19), a Conab reduziu em 4,2% suas estimativas para a produção brasileira de café em 2022/23, ajustando de 55,7 milhões de sacas estimadas no relatório de janeiro para 53,4 milhões de sacas. A mudança veio principalmente pela redução de 3,072 milhões de sacas (-7,9%) na produção de café arábica, totalizando 35,7 milhões, enquanto a produção de robusta verificou aumento de 757 mil sacas (4,5%) para 17,7 milhões.
No relatório, foi destacada as condições climáticas desfavoráveis entre junho e setembro de 2021 como determinantes para a redução da produção esperada. É valido destacar que as estimativas da Conab são as menores disponíveis entre todas as estimativas do mercado, que agora apresentam uma amplitude de mais de 11 milhões de sacas, o que reforce a elevada incerteza em torno do potencial da atual safra
USDA inicia a divulgação dos relatórios dos seus adidos nos países produtores
Como foi comentado no relatório especial de perspectivas para mercado de café [maio-julho], o mercado de café acompanha de perto a divulgação dos relatórios do USDA para a produção nos países na temporada 2022/23, que são produzidos a partir dos adidos do USDA lotados nos países produtores. Até a data desta publicação, foram divulgados os relatórios para 7 países: Indonésia, Uganda, Peru, Nicarágua, Costa Rica, Quênia e El Salvador.
Dos relatórios divulgados, destaca-se o aumento de 7,3% na produção da Indonésia, 6,4% em Uganda, 7,1% na Costa Rica e 2% no Peru. A produção no Quênia e El Salvador devem cair 10,3% e 3,1%, respectivamente, porém a produção desses países é pouco representativa no contexto global. De forma geral, considerando todas as estimativas disponíveis, a produção deve aumentar 4,7% e as exportações 2,8%. Vale a pena destacar que não foram divulgadas ainda os dados de países importantes como Brasil, Vietnã e Colômbia, que deverão ser revelados ao longo das próximas semanas.
Tabela resumo das estimativas dos relatórios dos adidos USDA
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Avanço nos estoques GCA e importações potencialmente menores nos EUA levantam dúvidas quando a demanda
Na última semana, a Green Coffee Association (GCA) divulgou que estoques nos portos dos Estados Unidos registram aumento de 86,3 mil sacas em abril, chegando a 5,907 milhões de sacas. O resultado corresponde a um avanço de 1,5% em relação ao mês anterior e de 2,5% frente ao mesmo momento em 2021, quando os estoques totalizavam 5,763 milhões de sacas. De maneira geral, a variação caminhou dentro do esperado pelos agentes, visto que na média dos últimos 5 anos a GCA registra um aumento de cerca de 3,7% na passagem de março para abril.
Os dados de importações dos Estados Unidos serão divulgados apenas em 7 de junho, todavia, algumas suposições já podem ser feitas a partir dos números do GCA e de alguns importantes exportadores.
De acordo com o último relatório do Cecafé, o Brasil totalizou em abril 389 mil sacas embarcadas aos Estados Unidos. O volume é significativamente menor da média dos últimos 5 anos para o mês, de 614 mil sacas, queda de 36,6%. Se comparado às 739 mil sacas enviadas em abril do ano passado, a queda é ainda mais brusca, com diminuição de 47,4%.
Olhando para a América Central, região que costuma ter aumento em seus volumes embarcados ao país norte-americano para mais de 500 mil sacas a partir de abril, ainda existem dúvidas se este padrão de exportações se manterá. Os dois principais fornecedores da região, Honduras e Guatemala, registraram queda de 28% e alta de 12% em suas exportações para o mês, respectivamente. Apesar de os relatórios não apresentarem detalhes sobre quanto foi enviado ao maior consumidor global, parece ser razoável afirmar que as exportações região não deve apontar grande salto em relação à média dos últimos anos, com possibilidades de registrarem uma queda.
Desta forma, apesar da característica sazonal de aumento nos estoques da GCA em abril, os números até o momento fracos de exportação de importantes fornecedores, com destaque para a queda brusca nos embarques brasileiros no mês, sugerem que os dados de importação americana podem vir abaixo do esperado em abril. Apesar de ainda ser cedo para conclusões, em caso de uma confirmação de queda nas importações americanas, é possível que esteja se desenhando um cenário de arrefecimento do consumo ou crescimento abaixo do normal para o país. Nos próximos meses, será de extrema importância acompanhar esta correlação, com uma eventual consolidação desses dados podendo trazer pressões baixistas para as cotações.
Sazonalidade dos estoques de café nos portos americanos – GCA (milhões de sacas)
Fonte: GCA. Elaboração: StoneX.
Dólar fecha semana em forte queda