As quedas nos estoques certificados geralmente estão associadas aos níveis dos diferenciais nas origens (diferença entre o preço FOB na origem e o preço na bolsa), que em determinados momentos, quando fortalecidos, estimulam a retirada de estoques certificados, que estão nos armazéns certificados pela bolsa nos EUA e Europa, para garantir a disponibilidade de café no curto-prazo com menores custos. Movimento como este foi observado entre outubro de 2021 e fevereiro deste ano, quando os estoques recuaram para mínimas em 20 anos, enquanto os diferenciais estavam fortalecidos em meio ao temor por um balanço de oferta e demanda global deficitário em 2021/22, o que impulsionou os preços na bolsa para suas máximas em 10 anos naquele momento.
Depois de apresentar relativa estabilidade desde meados de fevereiro, a queda de 55.288 sacas no acumulado da última semana, para o patamar de 1,02 milhões de sacas, gerou apreensão entre os participantes do mercado. Apesar da manutenção dos diferenciais das origens em patamares elevados, o que por si só desestimula a certificação e contribui para a retirada de cafés dos estoques certificados, ao menos até o momento, não houve grandes mudanças nos fundamentos do mercado de café que justifiquem uma retirada generalizada de estoques certificados.
No Brasil, os preços de café arábica ao produtor tem acompanhado a tendência altista no mercado internacional, apesar das quedas do dólar no mercado cambial brasileiro. O indicador CEPEA para o café arábica encerrou a sexta-feira cotado a R$ 1293,37/saca, um avanço semanal de 1,3%.
Já para o café robusta, o indicador CEPEA registrou uma significativa queda de 4,2% para levar a variedade abaixo do patamar de R$ 700 desde agosto do ano passado, fechando cotado a R$ 693,72/saca. A queda dos preços do café robusta no mercado doméstico está ligada ao aumento da disponibilidade em meio ao estágio mais avançado da colheita nos estados produtores da variedade.
Para o robusta, a disparidade das tendências no mercado internacional, que tem avançado, e no mercado doméstico, tem contribuído também para reduzir os diferenciais, o que tem ocorrido desde o início da colheita. Uma queda dos diferenciais neste período do ano é um comportamento já esperado, devido à sazonalidade da colheita, como pode ser observado do gráfico de diferenciais. No entanto, os diferenciais, que ainda seguem positivos em torno de USD 270/ton (menor patamar desde meados de janeiro), permanecem fortalecidos, sendo necessários novos recuos para que alcancem patamares negativos e estimule as exportações por parte dos comerciantes da variedade.
Diferenciais de café robusta no Brasil (USD/Ton)
Fonte: ICE, CEPEA. Elaboração: StoneX.
Importações no EUA deve dar pistas quanto ao atual cenário de O&D global
A divulgação recente de queda nas exportações de produtores da América Central também adiciona elemento altista ao cenário recente do mercado. De acordo com o Instituto do Café de Honduras (IHCAFE), o quinto maior produtor de café do mundo marcou registrou uma retração de 23% em suas exportações no mês de maio, que foram de 641 mil sacas, contra 833 mil no mesmo mês em 2021. De acordo com o Instituto, a queda está ligada à menor produção do país, principalmente em função da ocorrência do fungo da ferrugem, que impactou parte das lavouras devido à alta umidade na região.
Já o Instituto de Café da Costa Rica (ICAFE), informou recuo de 35,4% nos embarques de café em maio, que totalizaram 103 mil sacas, contra 159 mil no mesmo mês do último ano. Segundo o Instituto, a queda é explicada pela menor produção do país neste ano, que deve recuar quase 9,0%, mas também à uma antecipação das compras dos agentes para tentar driblar a falta de contêineres e os maiores períodos de transporte, citando as maiores exportações nos primeiros meses do ano, como a alta de 73% nos embarques de janeiro.
Ademais, a Organização Internacional do Café (ICO) divulgou que identificou que as exportações globais de café arábica foram de 6,808 milhões de sacas em abril, uma retração de 7,3% em relação ao mesmo mês do ano passado. Nesta terça-feira (7), o USDA divulgará os números das importações dos Estados Unidos em abril. Os dados, analisados de maneira conjunta com os estoques nos portos americanos da Green Coffee Association (GCA) e com as exportações dos países produtoras, devem dar maiores pistas sobre o atual cenário para o mercado global e para o consumo de café. Considerando o forte recuo nas exportações dos países e possivelmente menor importação nos EUA, a depender dos dados de importação do USDA, potenciais avanços nos estoques GCA poderiam indicar problemas no consumo e atuar de forma baixista.
USDA: Novos relatórios attachés foram divulgados
Na última semana, o USDA divulgou seus relatórios attachés para mais 4 países, Colômbia, Índia, Guatemala e México, completando até o momento a divulgação de 12 países. No entanto, ainda restam os relatórios de outros 7 países, incluindo os dois maiores produtores, Brasil e Vietnã.
Para a Colômbia, o USDA ajustou para baixo sua estimativa para a produção em 2021/22, de 13,8 milhões de sacas para 13 milhões, representando uma queda 5,8%, que foi atribuída principalmente ao clima desfavorável, com volumes excessivos de chuva, causados pelo fenômeno do La Niña. Para 2022/23, a produção do país deve se repetir, com produção de 13 milhões de sacas.
Para a Índia, a produção em 2022/23 deverá ser 3,8% maior, atingindo 5,7 milhões de sacas, refletindo o clima nas regiões produtoras do país, que favoreceu o desenvolvimento das lavouras. O USDA reduziu sua estimativa para a produção da Guatemala em 2021/22 em quase 15%, para 3,4 milhões de sacas, já a produção em 2022/23 deverá recuar 1,3%. De acordo com o relatório, o aumento de 32% nos custos de produção, incluindo os fertilizantes, foi o principal motivo por trás das perdas. Sobre o attaché do México, a agência indica uma produção quase inalterada em 2022/23, estimada em 3,8 milhões de sacas.
Considerando todos os dados divulgados até o momento, a produção desses países deverá aumentar 2,9% em 2022/23, enquanto as exportações devem avançar 1,4%. Como foi comentando, estes ainda são dados parciais. Além disso, o USDA não divulgou a produção de países importantes como o Brasil e Vietnã.
Tabela resumo das estimativas dos relatórios dos adidos USDA
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Dólar fecha semana em alta, em linha com desempenho no exterior
Acompanhando o cenário altista para a moeda americana no exterior e afetado pela percepção de maior risco fiscal no país, o dólar registrou avanço da semana frente ao real. O par real/dólar encerrou o período com ganho semanal de 0,8%, encerrando cotado a R$ 4,778. Já o dollar index avançou 0,5% durante o mesmo período, para terminar a sexta-feira (3) cotado a 102,2 pontos.