por Alexis Rubinstein
Editora-chefe CoffeeNetwork
alexis.rubinstein@stonex.com
CoffeeNetwork (Nova York) – Os estoques certificados têm sido impactantes para os rumos do mercado de café arábica, totalizando 832.072 sacas em sua última contagem, uma queda de quase 17% ano a ano. Embora esses estoques permaneçam mais baixos no momento, um aumento constante tem sido registrado desde as mínimas de mais de 20 anos atingidas em novembro de 2022. Porém, a grande dúvida do mercado tem sido: os estoques que estão repondo os armazéns da ICE são de café novo ou velho?
Uma vez que só é financeiramente vantajoso certificar café na bolsa quando os diferenciais estão baixos, como em 2020, quando despencaram (especialmente no Brasil), é possível inferir que o influxo estoques certificados não representa um café novo.
Com boatos sobre uma mudança nos regulamentos que permitiria a descertificação do café e sua recertificação, essencialmente para eliminar as penalidades de envelhecimento, a CoffeeNetwork conduziu uma entrevista com Tim Barry, da ICE, para esclarecer a situação. Segundo Barry, “as regras nunca impediram que um proprietário submetesse à classificação qualquer produto com base em sua idade ou que tenha sido certificado anteriormente”. Houve, no entanto, uma alteração recente da regra que acelerou a taxa de acúmulo da penalidade de envelhecimento, o que, aliado a um mercado invertido, incentivou esse processo de recertificação.
“A razão pela qual tivemos uma inversão é a queda drástica dos estoques certificados”, disse Ryan Delany, analista-chefe da Coffee Trading Academy, LLC, à CoffeeNetwork. “Com geadas, preços altos, problemas de transporte, custo recorde de frete, etc., houve incentivo para comprar estoques certificados.” Delany explica que o consumo desses estoques disparou, indicando ao mundo todo que mais café é necessário, e provocando a necessidade de reabastecimento dos estoques certificados.
Tim Barry afirma que ainda há riscos envolvidos em colocar o café para recertificação. “Existem custos envolvidos”, afirma. “Qualquer pessoa que envie café para certificação tem que pagar para ter o café amostrado e classificado, e corre o risco de não passar na classificação.”
“A descertificação não é apenas permitida, mas incentivada”, explica Delany. “Por causa do envelhecimento e porque o objetivo dos estoques certificados é manter o preço do mercado futuro real, para que reflita o preço verdadeiro do café, não algum valor financeiro arbitrário.”
A verdadeira polêmica, portanto, está em torno do processo de recertificação, com o incentivo do detentor do produto a economizar. Delany explica que, na maioria dos casos, não é o mesmo lote de café que está sendo descertificado e recertificado para eliminar as penalidades do envelhecimento. “Meu entendimento é que estão buscando naqueles estoques existentes um café com sabor fresco e o submetendo novamente”, uma vez que ainda deve passar pela classificação. Além disso, o café velho está sendo descertificado, misturado com café fresco e recertificado. Com base nos relatórios de estoques certificados da ICE, há cerca de 30-60% de taxa de aprovação do café.
Embora tudo isso seja relativamente preto e branco, há especulações sobre algumas “áreas cinzentas”. Em 2010, a bolsa aprovou o café do Brasil como origem, para entrega em março de 2013. A emenda afirmava que o café deveria estar "livre de todos os sabores não lavados e envelhecidos na xícara", permitindo essencialmente que o café semi-lavado fosse certificado. Uma vez que a emenda se concentra nos sabores, não na composição real do café, é possível que o café esteja sendo misturado com o café natural e aprovado.
Com o mercado em estado de crise em razão dos estoques certificados em mínimas recordes, muitas tradings houses podem ter adotado uma abordagem de “fazer o que for necessário” para reconstruir estoque.
"Este poderia ser o novo mercado de café", diz Delany. “Evoluímos para longe de ser um contrato de café lavado e o mercado evoluiu para longe de ser um mercado de café lavado.” Com o Brasil e a Etiópia, 50% do café do mundo é natural.
Só quando os diferenciais voltarem a recuar veremos uma certificação mais direta do café novo. Com as safras de outubro e a safra 2022-2023 do Brasil encerradas, entramos em um período de aperto antes da colheita da safra nova brasileira. As expectativas para a safra já têm sido divulgadas, variando de 55 milhões a 76 milhões de sacas. Na semana passada, a StoneX estimou a produção em 62,3 milhões de sacas. Se a estimativa mais alta estiver correta, os diferenciais podem desabar e todos esses incentivos para certificar o café brasileiro retornarão. Os estoques pendentes começarão a aumentar e os spreads voltarão a registrar um carrego. Se ocorrer o contrário, os diferenciais continuarão elevados, mas com café novo disponível, poderíamos começar a ver uma normalização.
"Os estoques pendentes secaram", disse Delany, "acho que atingimos o pico do café a ser certificado, mas não vejo os diferenciais caindo no curto prazo, então não haverá novas certificações pendentes. Se houver café para ser descertificado e recertificado, agora seria a hora de fazê-lo.”
Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.
