Em meio à extrema volatilidade preços futuros de café recuam com previsão de chuvas no Brasil
• Maior queda diária em 17 anos, mercado recua com alívio climático
• Arábica em Nova Iorque caiu 7,6%, robusta em Londres perdeu 10%
• Modelos climáticos indicam chuvas significativas no cinturão cafeeiro em setembro
• Florada do arábica ainda baixa, clima das próximas semanas é crucial
• Conilon já finalizou florada em condições climáticas favoráveis
• Estados Unidos reduzem importações do Brasil e ampliam compras da Colômbia
• Importações americanas de Vietnã crescem 198%
• Colheita do Vietnã em novembro pode aliviar oferta global de robusta
A última semana foi marcada por intensa volatilidade no mercado de café. Os preços futuros começaram em forte alta, com o contrato mais ativo em Nova Iorque avançando 1.875 pontos na segunda-feira (15), equivalente a 4,9% de valorização. Esse movimento refletiu preocupações com o clima no Brasil durante o período de florada e também a influência do câmbio. O dólar apresentava queda significativa frente ao real, em meio a fatores externos e internos. Nos Estados Unidos, consolidava-se a expectativa — posteriormente confirmada — de corte na taxa básica de juros pelo Federal Reserve.
A partir do dia 16, no entanto, os preços recuaram fortemente, com destaque para o dia 17, quando houve queda de 3.325 pontos, equivalente a 8,5% em apenas uma sessão. Foi a maior desvalorização diária em 17 anos. A reversão ocorreu com o fortalecimento do dólar frente ao real e, sobretudo, com a perspectiva de retorno das chuvas no cinturão cafeeiro brasileiro. Os modelos climáticos passaram a indicar volumes significativos de precipitação nas áreas produtoras de arábica em pleno processo de abertura da florada. Esse alívio reduziu as preocupações climáticas, levando a ajustes baixistas. Além disso, o aumento das margens iniciais pela bolsa contribuiu para ampliar a volatilidade.
O contrato de dezembro em Nova Iorque encerrou a semana com queda acumulada de 3.035 pontos, ou 7,6%, cotado a US¢ 366,50 por libra-peso. Em Londres, o robusta recuou US$ 466 por tonelada, perda de 10%, fechando a US$ 4.135 por tonelada. O dólar registrou queda semanal de 0,6%, cotado a R$ 5,32. Nesta segunda-feira (22), o mercado abriu em leve recuperação, com alta de 125 pontos em Nova Iorque, equivalente a 0,34%, para 367,75 centavos de dólar por libra-peso. Em Londres, o robusta subia US$ 145, ou 3,5%, para US$ 4.280 a tonelada.
Preços futuros de café arábica (US¢/lb) café robusta (USD/ton)
Fonte: Cmdty View. Elaboração: StoneX.
No mercado físico brasileiro, os preços também recuaram na última semana. O indicador Cepea para o arábica caiu 8,5%, para pouco mais de R$ 2.147 por saca. O robusta registrou queda de 9,3%, sendo negociado em torno de R$ 1.288 por saca.
O clima segue como principal fator de influência no mercado. As previsões apontam para volumes substanciais de chuva em diversas regiões produtoras nos próximos sete dias. No Cerrado Mineiro, vários municípios devem registrar acumulados entre 19 e 41 milímetros. No sul de Minas, as estimativas variam entre 16 e 56 milímetros, enquanto nas Matas de Minas ficam entre 13 e 38 milímetros. Em São Paulo, os volumes projetados estão entre 21 e 31 milímetros. Já as regiões produtoras de robusta receberam chuvas substanciais nos últimos dias, garantindo boas condições para o desenvolvimento da florada e do chumbinho.
As primeiras semanas de setembro trouxeram floradas de arábica no sul de Minas, em São Paulo e no Cerrado. Porém, a intensidade foi baixa, com apenas 18%, 16% e 10% de flores abertas, respectivamente. Isso se deveu ao baixo volume e à irregularidade das chuvas que antecederam a florada. Já nas Matas de Minas e no sul do Espírito Santo, onde as precipitações foram mais volumosas e bem distribuídas, houve florada mais homogênea, com cerca de 45% de flores abertas. Nas áreas de conilon, a florada já foi praticamente concluída, em condições muito favoráveis. O desafio nessas regiões agora é assegurar o pegamento e a expansão dos frutos.
As atenções permanecem voltadas ao arábica, onde o percentual de flores abertas ainda é baixo. O clima nas próximas semanas será determinante para um bom desenvolvimento. Apesar de os volumes previstos ainda estarem abaixo da média histórica, o cenário de 2025 é melhor do que o de 2024. As lavouras contam com maior umidade no solo e, diferentemente do ano passado, não têm enfrentado temperaturas máximas excessivas, que haviam causado perdas significativas. Isso mantém a expectativa de uma safra maior em 2026, o que tende a exercer pressão baixista sobre os preços no médio prazo.
Outro fator monitorado pelo mercado é a questão comercial envolvendo os Estados Unidos. As tarifas impostas sobre o café brasileiro já afetam a inflação no país e reduzem as exportações brasileiras. Dados mostram queda de 18% nas importações americanas de café do Brasil em julho, enquanto aumentaram as compras de outros fornecedores. As importações da Colômbia cresceram 16%, de Honduras 36%, da Guatemala 4,3% e do Vietnã impressionantes 198%. Houve também avanços em origens como México, Nicarágua, Etiópia, Peru, Indonésia e Costa Rica.
No acumulado até julho, os Estados Unidos importaram pouco mais de 4 milhões de sacas do Brasil, queda de 3,7% em relação ao mesmo período de 2024. Em contrapartida, as compras da Colômbia alcançaram 2,9 milhões de sacas, aumento de quase 24%. Esse movimento reflete o maior apetite por diversificação de origens, enquanto o Brasil tende a redirecionar sua oferta a outros destinos. Há, no entanto, iniciativas do Congresso americano e de entidades do setor para tentar remover as tarifas. Caso isso ocorra, a dinâmica do comércio internacional poderá se alterar novamente. Nos primeiros 7 meses do ano os EUA importaram pouco mais de 14 milhões de sacas, representando um incremento de pouco mais de 10% se comparado ao mesmo período de 2024.
O mercado também acompanha a colheita no Vietnã, que deve começar em meados de novembro. A expectativa é de recuperação de 6% na produção, após anos de impactos climáticos adversos, sobretudo relacionados ao El Niño. Essa colheita tende a aliviar a oferta de robusta no mercado internacional.
TABELA DE INDICADORES

Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.