Em meio à grande volatilidade, mercado de café reage à queda dos estoques, às tarifas e ao clima no Brasil
• Café futuro avançou em Nova Iorque e Londres com alta volatilidade
• Reunião Trump-Lula e chuvas no Brasil impactam o mercado
• Estrutura invertida indica oferta restrita no curto prazo
• Estoques certificados caem 26% e reforçam cenário de escassez
• Chuvas intensas melhoram perspectivas para safra 2025/26
• Colheita no Vietnã deve pressionar preços do robusta
• Mercado monitora tarifas, clima e exportações brasileiras com atenção
Marcado por grande volatilidade, o mercado futuro de café apresentou avanços na última semana em Nova Iorque e em Londres. Um conjunto de fatores contribuiu para essa tendência, com destaque para as preocupações com o desenvolvimento da safra no Brasil, o cenário de oferta limitada de arábica, a queda nos estoques certificados e principalmente as incertezas ligadas às tarifas sobre as importações nos EUA vindas do Brasil e à expectativa de imposição de tarifas contra a Colômbia, em meio à deterioração das relações entre os Estados Unidos e o país sul-americano.
A semana foi marcada por forte volatilidade, especialmente na quinta-feira, dia 23, quando as cotações se aproximaram das máximas históricas observadas em fevereiro deste ano. Naquele dia, os preços chegaram a alcançar US¢ 437,95 por libra-peso, mas encerraram a sessão em US¢ 410,15/lb, com amplitude de quase 3 mil pontos entre mínima e máxima. O real se valorizou 0,4% na semana, e a moeda norte-americana encerrou cotada a R$ 5,39. O contrato mais ativo em Nova Iorque registrou avanço semanal de 1,4%, encerrando cotado a US¢ 403,00 por libra-peso. Em Londres, o movimento foi mais moderado, com alta de 0,4%, para USD 4.571 por tonelada.
No mercado doméstico, o indicador Cepea para o café arábica apresentou valorização de 1,2%, sendo cotado a R$ 2.289,68 por saca de 60 kg. Já o robusta permaneceu praticamente estável, cotado a R$ 1.401,63 por saca.
Os preços futuros iniciaram a semana em queda. Nesta segunda-feira, dia 27, no momento da redação deste relatório, o contrato de dezembro recuava 2,67%, sendo negociado a US¢ 392,30 por libra-peso em Nova Iorque. Em Londres, o contrato de janeiro registrava baixa de 1,91%, cotado a USD 4.470 por tonelada. O mercado reagia à previsão de chuvas no Brasil e às notícias do final de semana, após o encontro entre o presidente norte-americano Donald Trump e o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva em Kuala Lumpur, na Malásia.
Preços futuros de café arábica (US¢/lb) café robusta (USD/ton)
Fonte: Cmdty View. Elaboração: StoneX.
Um dos principais fatores que sustentam as cotações em patamares elevados é a menor disponibilidade de café no curto prazo, refletida na estrutura dos preços futuros. O mercado segue em situação de inversão, com os contratos de vencimento mais próximo negociados a preços superiores aos contratos de vencimento mais distante, o que indica aperto na oferta imediata. Nas últimas semanas, a diferença entre o primeiro e o segundo contrato em Nova Iorque aumentou significativamente. Enquanto no início de setembro o spread girava em torno de US¢ 11 por libra-peso, no final de outubro essa diferença chegou a superar US¢ 22, alcançando US¢ 22,75 na sessão do dia 20/10. Esse avanço reflete o cenário de restrição de oferta no curto prazo, diretamente relacionado às tarifas e à queda nos estoques certificados.
Curva futura dos preços de café arábica no dia 24/10 (esquerda) e spread entre os dois primeiros contratos Dezembro/25 e Março/26 (direita) - (US¢/lb)

Fonte: Cmdty View. Elaboração: StoneX.

Fonte: Cmdty View. Elaboração: StoneX.
Os estoques certificados de café arábica vêm registrando forte retração. No dia 24 de outubro, somavam menos de 450 mil sacas, o que representa queda de quase 26% em relação ao mês anterior. O recuo é mais expressivo para os cafés de origem brasileira. No início de 2025, os estoques certificados do Brasil chegaram a 630 mil sacas, mas atualmente contabilizam pouco mais de 26 mil, uma redução drástica. Esse movimento está ligado aos diferenciais de preços nas origens. Diante dos atuais patamares, não há estímulo econômico para que produtores ou tradings certifiquem café nas bolsas internacionais, o que reforça o quadro de oferta restrita e pressiona os preços do primeiro contrato.
As condições climáticas no Brasil trouxeram algum alívio ao mercado. Modelos meteorológicos indicam volumes substanciais de chuva em praticamente todo o cinturão cafeeiro nas próximas duas semanas. Estimam-se acumulados de até 130 mm no Cerrado Mineiro, 125 mm nas Matas de Minas, 180 mm no sul de Minas Gerais, 184 mm em São Paulo e 240 mm no Paraná. Para as regiões produtoras de robusta, esperam-se acumulados de até 100 mm em Rondônia e 70 mm no norte do Espírito Santo. Essas chuvas contribuem para manter um cenário favorável ao desenvolvimento da safra 2025/26. No entanto, o fator climático continuará sendo decisivo, especialmente sob influência do fenômeno La Niña.
Nas próximas semanas, o mercado acompanhará atentamente as discussões sobre tarifas. O encontro entre os presidentes dos Estados Unidos e do Brasil, realizado no dia 26, pode representar o início das negociações e sinalizar avanços para uma possível resolução. Por outro lado, persistem as incertezas em relação à Colômbia, que responde, junto com o Brasil, por mais da metade das importações norte-americanas de café, sendo 35% provenientes do Brasil e 20% da Colômbia em 2024. Além disso, os participantes do mercado acompanharão a divulgação dos dados de exportação do Brasil. Diante da manutenção das tarifas, é provável que os números de outubro indiquem nova queda nos embarques para os Estados Unidos.
Outro ponto de atenção é o início da colheita no Vietnã, previsto para novembro, que pode atuar como fator baixista sobre as cotações em Londres, considerando a expectativa de uma safra aproximadamente 7% maior em relação ao ciclo anterior. Essa perspectiva amplia a oferta global de robusta e tende a exercer pressão sobre os preços nesse mercado. O comportamento do clima e o nível dos estoques certificados seguirão como fatores-chave. A contínua redução desses estoques tende a sustentar um viés altista nas cotações da bolsa.
TABELA DE INDICADORES

Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.