Café recua com expectativa de superávit global amplo em 2026
- Altista
- Petróleo segue pressionando complexo de commodities;
- Safra menor e restrições nas vendas fortalecem diferenciais de café arábica no Brasil no curto prazo.
- Estoques permanecem baixos na Europa e Japão.
- Baixista
- Expectativa de superávit na safra global de 2026.
- Projeções de safra recorde no Brasil;
- Desenvolvimento positivo das lavouras e clima regular no Brasil;
- Projeções positivas para volumes do Vietnã e Indonésia em 2025/26;
Café recua com aproximação de início da safra no Brasil, apesar de restrições no curto prazo e estoques globais ainda apertados
A última semana foi marcada pela continuidade do movimento de correção nos preços futuros de café, em um ambiente ainda dominado pela expectativa de safra robusta no Brasil. Apesar de alguns vetores altistas no curto prazo, como os níveis historicamente baixos de estoques na Europa e no Japão e as incertezas associadas ao conflito no Oriente Médio, o mercado seguiu priorizando o cenário de maior disponibilidade global, especialmente com a aproximação da colheita brasileira.
Arábica: O contrato de maio encerrou a semana cotado a US¢ 295,4/lb na bolsa de Nova Iorque, com desvalorização de 2%. Os preços permaneceram pressionados diante da consolidação de projeções mais otimistas para a safra brasileira 2026/27. A proximidade do início da colheita, prevista para ganhar ritmo entre o fim de abril e maio, também reforçou o padrão sazonal de enfraquecimento das cotações, à medida que o mercado antecipa maior entrada de produto físico.
- Apesar do viés baixista, o movimento de queda tem ocorrido de forma gradual, com fundos reduzindo gradualmente suas posições compradas, sem sinais de liquidação abrupta.
- Adicionalmente, o ritmo moderado de vendas por parte dos produtores brasileiros, influenciado pela valorização recente do real, tem limitado pressões mais intensas sobre os preços.
- Estoques certificados apresentaram leve recomposição nas últimas semanas, mas ainda permanecem em níveis historicamente baixos, o que reduz a margem para quedas mais acentuadas no curto prazo.
- O mercado aguarda também a divulgação dos dados de exportação do Cecafé, com parciais indicando embarques próximos de 2,2 milhões de sacas em março, significativamente abaixo da média dos últimos três anos (3,3 milhões), o que segue sustentando diferenciais mais firmes para o arábica.
Robusta: O contrato equivalente em Londres encerrou a semana cotado a US$ 3.448/ton, com baixa de 4,0%. Apesar da queda mais expressiva, os preços seguem relativamente sustentados quando comparados ao arábica, refletindo a continuidade do aperto nos estoques monitorados pela ICE, que permanecem próximos das mínimas dos últimos meses. Esse quadro tem garantido suporte aos contratos mais próximos, mesmo diante do cenário global mais favorável do lado da oferta.
- Na última semana, esse quadro foi reforçado por dados da Indonésia, que indicaram uma forte retração nas exportações de café robusta da região de Sumatra. Com queda de 25,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Fonte: CmdtyView. Elaboração: StoneX.
Mercado físico: O indicador Cepea do café arábica encerrou a semana cotado a R$ 1.870/saca, retração semanal de 3,9%. Já o indicador do café robusta registrou leve queda de 7,7%, encerrando a R$ 937/t.
Nesta segunda‑feira: O mercado iniciou a sessão registrando divergência significativa entre as bolsas, estendendo as quedas mais significativas recentes observadas em Londres, com desvalorização de 2,3% para o café robusta e avanço de 1% para o café arábica.
StoneX projeta superávit de 10 milhões de sacas para o balanço global de café em 2026
Na segunda-feira, publicamos para nossos clientes a revisão das nossas estimativas para o balanço global de oferta e demanda de café de 2025, junto das estimativas para 2026.
- Na matéria, que pode ser acessada através do link, realizamos uma análise abrangente, baseada em dados detalhados das principais regiões produtoras, exportadoras e consumidoras, incluindo mapeamentos específicos para Europa e Estados Unidos, Brasil e países asiáticos.
Projeções da StoneX: Nossa perspectiva atualizada aponta para um balanço global mais confortável em 2026, com a produção projetada para subir para 182,5 milhões de sacas e o consumo se recuperando para 172,5 milhões de sacas.
- Com isso, projeta-se superávit de 10 milhões de sacas, o que deve permitir que os estoques se recomponham a partir de níveis historicamente apertados para acima de 48 milhões de sacas.
- Para 2026, a relação é projetada para recuperar para 28,0%, o maior nível desde 2022, refletindo nossa expectativa de que o superávit projetado para 2026 permita recompor estoques de forma significativa.
Panorama: Mesmo com um superávit maior estimado, contudo, é improvável que o mercado se sinta “bem abastecido” já nas próximas semanas.
- Mesmo com início da colheita no Brasil, os estoques devem permanecer distribuídos de forma desigual em um primeiro momento, e o caminho para a normalização depende fortemente do desempenho da safra brasileira ao longo da confirmação de produtividade no pós-colheita, além da evolução do clima em outras origens.
- Do lado da demanda, a desaceleração da inflação deve sustentar uma recuperação gradual, mas os consumidores seguem sensíveis a preços e à incerteza macroeconômica.
- Em um contexto de regulação em evolução (incluindo o EUDR), risco de política comercial e tarifas e riscos logísticos em meio a tensões geopolíticas contínuas, 2026 deve ser visto como um ano de transição — em que melhores perspectivas de oferta reduzem o risco eventos extremos, mas em que a vigilância permanece essencial, pois pequenos choques ainda podem rapidamente se traduzir em volatilidade.
Possível mudança na distribuição dos estoques: Diante desse resultado, como apontado anteriormente, a relação estoque/uso deve mostrar recuperação. Essa recomposição esperada dos estoques, contudo, tende a ocorrer de forma assimétrica ao longo da cadeia global.
- O atual desenho das curvas futuras, frequentemente invertidas, combinado a níveis elevados de juros internacionais e ao ajuste recente da indústria em operar com estoques mais enxutos, desincentiva a formação de estoques em regiões consumidoras.
- Nesse contexto, a recomposição deve se concentrar majoritariamente nas origens, sobretudo no Brasil, enquanto mercados consumidores como Estados Unidos e Europa tendem a manter níveis relativamente baixos no curto prazo.
- Essa distribuição desigual implica que, mesmo em um cenário de superávit global, a percepção de aperto pode persistir em determinados pontos da cadeia, mantendo diferenciais firmes e ampliando a sensibilidade dos preços a choques logísticos ou disrupções pontuais na oferta.
Oferta e demanda global de café (milhões de sacas), estoques e relação estoques/uso
Fontes: StoneX, USDA, ECF e AJCA. Design: StoneX
Estoques certificados seguem baixos no Japão e Europa
Dados divulgados na última semana voltaram a reforçar a percepção de que que os estoques de café verde seguem em níveis historicamente baixos nas principais regiões consumidoras.
- No Japão, os volumes permaneceram próximos de 2,21 milhões de sacas em fevereiro, abaixo da média de cinco anos (2,75 milhões). Na Europa, os estoques recuaram para 6,8 milhões de sacas, queda mensal e anual, e ainda bem distantes dos níveis observados em 2022.
Críticas do presidente colombiano à Federação Nacional de Cafeicultores do país.
Nos últimos dias, declarações do presidente colombiano, Gustavo Petro, trouxeram à tona o debate sobre a dinâmica da produção de café no país.
- Em suas falas, o presidente criticou a atuação da Federação Nacional de Cafeicultores diante da queda recente da produção, após o volume recuar de 13,5 milhões de sacas no ciclo 2024/25 para estimadas 12,6 milhões no período entre outubro e dezembro de 2025.
- Petro também atribuiu parte do problema à falta de estudos estruturais por parte da entidade, mencionando resistência ao reconhecimento dos impactos da crise climática.
- Do ponto de vista técnico, contudo, a leitura apresentada pela Federação é distinta. A entidade argumenta que a desaceleração observada decorre majoritariamente de fatores conjunturais, em especial o esgotamento fisiológico das lavouras após ciclos consecutivos de elevada produtividade, além do excesso de chuvas registrado desde o último trimestre de 2025. Esse diagnóstico sugere um ajuste temporário da oferta, sem caracterizar, ao menos por ora, uma deterioração estrutural da capacidade produtiva colombiana.
Em detalhes: Nesse contexto, a Federação avalia que a Colômbia segue relativamente bem-posicionada nos médio e longo prazos.
- Um dos principais pontos destacados é o processo contínuo de renovação do parque cafeeiro, intensificado desde 2008. A modernização das lavouras, com ampla adoção de variedades mais resistentes à ferrugem e mais adaptadas à variabilidade climática, tende a aumentar a resiliência da produção ao longo do tempo.
- Além disso, o desenvolvimento de novas cultivares, com lançamento previsto para 2027, reforça a perspectiva de manutenção da competitividade do país como fornecedor relevante de café arábica lavado no mercado internacional.
- Do ponto de vista de mercado, a leitura predominante é que a queda atual da produção colombiana contribui para sustentar os diferenciais do arábica no curto prazo, especialmente em um ambiente ainda marcado por estoques restritos nos principais países consumidores.
- De forma geral, assim, neste momento há poucos indícios que justifiquem preocupações estruturais de longo prazo com a produção colombiana. As próximas safras, no entanto, serão determinantes para confirmar se a retração recente se trata apenas de um ajuste pontual ou se pode sinalizar uma mudança mais duradoura na trajetória produtiva do país.
TABELA DE INDICADORES

Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.