Comentários sobre o uso do yuan chinês como moeda de pagamento internacional
Desde 2009, as autoridades chinesas perseguem uma estratégia de longo prazo para internacionalizar a sua moeda, o yuan (também chamado de renminbi - RMB), por entender que a redução da dependência do dólar para transações externas é vital para se estabelecer como uma liderança geopolítica e econômica global, além de permitir maior autonomia e reduzir possíveis volatilidades ao não depender de divisas externas. Essa estratégia foi reforçada pelo contexto de crescente antagonismo entre Washington e Pequim em diversos tópicos, do relacionamento com Taiwan a direitos humanos até o uso de tecnologias de microchips. Adicionalmente, em tempos recentes, os Estados Unidos, em conjunto com aliados importantes do Grupo dos Sete (G7), impuseram sanções econômicas que removeram o acesso de instituições financeiras do Irã (2012), Coreia do Norte (2017) e Rússia e Belarus (2022) ao sistema internacional de pagamentos SWIFT, além de congelar reservas internacionais de pessoas e organizações dessas nações. Como resultado, as autoridades chinesas desenvolveram seu próprio sistema de pagamentos internacionais, o Cross-Border Interbank Payment System, CIPS, que permite a liquidação (clearence) de transações econômicas entre países através do yuan, além de firmar acordos na sua moeda com outros países a fim de mitigar os impactos potenciais de sanções econômicas em um caso de atrito diplomático com algum membro do G7.
A China tem buscado ativamente estes acordos de cooperação com outros países, como Rússia, França, Arábia Saudita, Argentina, Chile e Brasil. Já são mais de 25 países que fazem parte deste arranjo para compensação de pagamentos em yuan através do CIPS. Isto não significa, evidentemente, que qualquer agente que realize negócios com empresas chinesas seja obrigado a aceitar a sua moeda como pagamento, nem qualquer outra moeda. Porém, o acordo torna esta possibilidade mais fácil e menos custosa. No Brasil, em abril deste ano foi reportado que a Vale e a Suzano Papel e Celulose já realizaram exportações para a China com pagamento na moeda chinesa.
Um dos principais atrativos oferecidos pela China é o seu volume no comércio global, visto que, em 2023, o país foi o maior exportador (US$ 3,380 trilhões, ou 18,5% das exportações globais) e o segundo maior importador (US$ 2,557 trilhões, ou 13,3% das importações globais) mundial. Além disso, ao usar a própria moeda, a China tem mais facilidade para ofertar linhas de crédito para promover o comércio exterior e investimentos bilaterais, aprofundando o uso do yuan em fluxos comerciais e financeiros. O resultado dessa estratégia ao longo dos anos começa a se tornar evidente, visto que o yuan é a principal moeda para liquidação das transações externas da China com outros países desde março de 2023.
Liquidação das transações econômicas chinesas com o exterior, por moeda (%)

Fonte: Bloomberg. Elaboração: StoneX.
Esse resultado também pode ser verificado no crescimento da utilização global da moeda chinesa, embora a a divisa americana mantenha uma posição hegemônica no sistema financeiro mundial. Em junho de 2024, o dólar foi responsável por 47,1% das transações nos sistemas de pagamentos internacionais, enquanto o yuan foi a quarta moeda mais utilizada, responsável por 4,6% desses pagamentos.
Participação do yuan (CNY) nas transações bancárias internacionais (%)

Fonte: Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (SWIFT). Elaboração: StoneX.
Distribuição das transações bancárias internacionais por moedas em junho de 2024 (%)
Fonte: Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (SWIFT). Elaboração: StoneX.
O maior obstáculo para a estratégia de internacionalizar o yuan continua sendo sua liquidez reduzida, visto que seu uso ainda está fundamentalmente limitado a transações entre a China com outros países. Adicionalmente, o governo chinês implanta controle de capitais e outras medidas para afetar o valor externo de sua moeda de acordo com suas prioridades econômicas, o que traz alguns riscos para as nações que acumularem reservas internacionais em yuan.
Distribuição das reservas internacionais globais por moedas em dezembro de 2023 (%)
Fonte: Fundo Monetário Internacional (FMI). Elaboração: StoneX. Nota: informação de 149 países.
USD = dólar americano; EUR = euro europeu; JPY = iene japonês; GBP = libra esterlina; CAD = dólar canadense; CNY = yuan chinês; e AUD = dólar australiano.
No Brasil, segundo dados do Banco Central, o uso da moeda chinesa em operações de câmbio vem aumentando, passando de US$ 271 milhões em 2017, a décima moeda mais utilizada, para US$ 4,481 bilhões em 2023, a quinta moeda mais utilizada. Por outro lado, esses valores ainda representam uma parcela muito pequena dos contratos de câmbio, passando de 0,02% em 2017 para 0,26% em 2023.
O crescimento do uso do yuan no Brasil tem sido impulsionado pelo comércio exterior, visto que a China foi a maior parceira comercial do Brasil em 2023, destino de 30,7% das exportações e origem de 22,1% das importações nacionais. Nesse ano, as exportações somaram US$ 104,3 bilhões e as importações, US$ 53,2 bilhões, um superávit de US$ 51,1 bilhões. Os principais produtos exportados para o país asiático foram soja em grão, óleos brutos de petróleo, minério de ferro, carne bovina, milho celulose e açúcar , enquanto os principais produtos importados são insumos industriais básicos e elaborados, como baterias e microprocessadores (chips).
Participação da China nas exportações brasileiras (%)
Fonte: Comex Stat. Elaboração: StoneX.
Participação da China nas importações brasileiras (%)
Fonte: Comex Stat. Elaboração: StoneX.
Adicionalmente, em uma política de diversificação de riscos pelo Banco Central do Brasil, o yuan representa a terceira moeda com maior participação nas reservas internacionais da autoridade monetária em 2023, com 4,8% do total, atrás do euro (5,2% de participação) e do dólar (80,0%).


Fonte: Banco Central do Brasil. Elaboração: StoneX. Eventuais proporções negativas refletem posições vendidas em moeda.

