Alta do leite ao produtor reflete “virada em cadeia” e chega ao campo com defasagem, aponta StoneX
Repasses acumulados ao longo da cadeia se materializam em março, impulsionando preços em meio à entressafra.
O forte avanço do preço do leite ao produtor no pagamento de março, que alcançou cerca de R$ 2,40, alta superior a 11% sobre fevereiro (variação nominal), segundo o CEPEA, reflete a materialização de uma “virada em cadeia” que vinha sendo construída nos elos anteriores do mercado e que chegou ao campo com atraso.
Segundo informações da StoneX, empresa global de serviços financeiros, ao longo do primeiro trimestre, os sinais de ajuste já eram visíveis fora da porteira. O mercado de leite spot apresentou valorizações expressivas, enquanto os preços dos principais derivados lácteos ganharam tração na virada do ano, impulsionados pela melhora no escoamento e pela redução dos estoques industriais. Esse movimento, no entanto, não se transmite de forma imediata ao produtor.
“Os repasses começam nos derivados e no leite spot, avançam pela indústria e só depois chegam ao campo. Essa defasagem é típica da cadeia láctea, e é justamente ela que explica a alta mais intensa observada agora no preço ao produtor”, afirma Juliana Torres, analista de Inteligência de Mercado da StoneX.
O encadeamento desse movimento remete ao segundo semestre de 2025, quando a combinação de oferta elevada pressionou os preços ao menor nível recente, levando o leite a cerca de R$ 1,99 por litro em dezembro. Diante desse cenário adverso, produtores reduziram gradualmente a intensidade da produção nos meses seguintes, seja por menor uso de insumos, seja por ajustes diretos na atividade.
Essa retração da oferta ganhou relevância adicional por ocorrer durante a entressafra, período em que a disponibilidade de leite já tende a ser menor. O resultado foi um aperto progressivo no balanço entre oferta e demanda, inicialmente absorvido pelos elos industriais e, agora, refletido de forma mais contundente no campo.
“A leitura dos fundamentos mostrava que o mercado vinha se ajustando desde o fim de 2025. Quando a oferta começa a recuar e os derivados reagem, o produtor sente esse movimento mais à frente, de forma acumulada”, explica Juliana. Segundo a analista, esse avanço já era antecipado pelas projeções da StoneX, que indicavam recuperação dos preços para patamares próximos aos observados neste início de ano.
Apesar da alta expressiva em março, os sinais mais recentes apontam para uma dinâmica mais equilibrada nos elos industriais. Nas últimas semanas, os preços do leite spot passaram a recuar, acompanhados por ajustes em derivados importantes, como leite UHT e muçarela, após um período de elevação mais acelerada.
Ao mesmo tempo, a recomposição de preços começa a aparecer para o consumidor final, com dados recentes indicando inflação nos lácteos. Esse repasse tende a moderar o ritmo de consumo na ponta, reduzindo o espaço para novos aumentos ao longo da cadeia.
“Com o preço chegando ao consumidor, a sensibilidade aumenta. Isso impõe limites naturais às oscilações futuras e contribui para um ambiente de maior equilíbrio”, avalia Torres.
Para o produtor, no entanto, o cenário ainda é de sustentação no curto prazo. A entressafra e a própria defasagem na transmissão dos preços seguem oferecendo suporte às cotações, embora a expectativa não seja de novas altas na mesma intensidade observada agora.
O movimento atual também marca uma recomposição mais equilibrada das margens ao longo da cadeia. Após um período desafiador em 2025, tanto para produtores quanto para a indústria, a recente alta melhora a remuneração no campo, ao mesmo tempo em que exige maior cautela da indústria diante de um consumo mais sensível a preços.
“O que se desenha é um processo de reequilíbrio. A virada já aconteceu, mas a dinâmica daqui para frente tende a ser de ajustes mais moderados, com atenção redobrada aos sinais do mercado em todos os elos”, conclui Juliana Torres.
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