Crise de combustíveis na Rússia pode elevar custos de importação e aumentar pressão sobre mercado brasileiro de diesel
Crise energética na Rússia e impactos globais
A crise energética enfrentada pela Rússia, intensificada por sucessivos ataques ucranianos à infraestrutura de refino e armazenamento de combustíveis, pode trazer reflexos relevantes para o mercado brasileiro nos próximos meses. Embora o risco de desabastecimento seja considerado baixo, o cenário aponta para custos mais elevados de importação, maior competição global por diesel e gasolina e possíveis desafios geopolíticos para países que mantêm relações comerciais com o setor energético russo.
O contexto remonta à guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em 2022, que remodelou profundamente os fluxos globais de petróleo e derivados. As sanções impostas por Estados Unidos, União Europeia e aliados levaram Moscou a redirecionar suas exportações para mercados como Índia, China, Turquia e Brasil, frequentemente com preços mais competitivos que os praticados internacionalmente. Esse movimento transformou a Rússia em um dos principais fornecedores de combustíveis para o mercado brasileiro nos últimos anos.
Ataques à infraestrutura e queda da capacidade de refino
Nos últimos meses, entretanto, a situação se agravou. Segundo análise da StoneX, empresa global de serviços financeiros, mais de 50 ataques ucranianos atingiram refinarias, terminais e depósitos russos desde março de 2026. O impacto foi suficiente para comprometer parte relevante da capacidade de refino do país, levando à queda da produção de petróleo e a uma escassez regional de combustíveis dentro da própria Rússia.
Em paralelo ao aperto da oferta, o ambiente regulatório internacional voltou a endurecer. De acordo com Letícia Corrêa, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, após flexibilizar temporariamente algumas restrições ao petróleo russo durante a crise provocada pelo fechamento do Estreito de Ormuz, os Estados Unidos encerraram as autorizações excepcionais que permitiam parte da comercialização de petróleo e derivados do país. A medida marcou o retorno de uma postura mais rígida de Washington em relação ao setor energético russo, aumentando a incerteza para importadores e operadores globais do mercado de combustíveis.
Pressão comercial dos Estados Unidos sobre parceiros da Rússia
A preocupação vai além da oferta física. Em 2025, os Estados Unidos ampliaram tarifas sobre produtos indianos como forma de penalizar as compras de energia russa realizadas pelo país asiático. O movimento, conforme explica a analista, foi acompanhado de discussões sobre a utilização de instrumentos comerciais para pressionar parceiros que mantêm relações energéticas relevantes com Moscou, ampliando os riscos para empresas e países expostos à cadeia de suprimentos russa.
Para o Brasil, a situação merece atenção devido ao crescente grau de dependência dos combustíveis russos. Dados compilados pela StoneX mostram que a Rússia responde atualmente por 64,4% das importações brasileiras de diesel e por 46,5% das compras externas de gasolina no acumulado de 2026, consolidando-se como principal fornecedor desses produtos ao país.
“A relevância da Rússia para o abastecimento brasileiro cresceu significativamente desde 2023. Qualquer redução estrutural na capacidade exportadora do país tende a aumentar a concorrência internacional por combustíveis alternativos e elevar os custos de aquisição para os importadores brasileiros. Além disso, o mercado também acompanha com atenção o avanço das sanções e pressões comerciais dos Estados Unidos, que podem trazer desafios adicionais para países que mantêm forte dependência dos produtos energéticos russos”, afirma Letícia.
Impactos nos custos e competição por fornecedores alternativos
Segundo a analista, o principal desafio não está na disponibilidade imediata de combustíveis para o mercado doméstico, mas na substituição dos volumes atualmente fornecidos pelos russos. “Os Estados Unidos aparecem como uma das alternativas mais naturais para suprir parte dessa demanda, mas o mercado internacional continua bastante pressionado. Ao mesmo tempo, outros potenciais fornecedores também enfrentam uma disputa crescente por volumes, especialmente no diesel”, destaca.
A análise da StoneX mostra que os primeiros sinais dessa mudança já começaram a surgir. Em junho, as importações brasileiras de diesel de origem russa recuaram 65% em relação a maio, sem que houvesse compensação equivalente por parte de outros fornecedores. O resultado foi uma queda expressiva do volume total importado no mês.
Perspectivas para o abastecimento e custos no Brasil
Apesar do quadro desafiador, a avaliação é que o Brasil está mais protegido do que em períodos anteriores devido ao avanço da produção nacional de combustíveis. Ainda assim, a combinação entre menor disponibilidade de produto russo, concorrência global por fornecedores alternativos e possíveis desdobramentos das sanções norte-americanas deve manter os custos de importação sob pressão nos próximos meses.
“O cenário mais provável para o Brasil não é de escassez, mas de aumento nos custos de importação. Isso pode exigir uma reorganização das cadeias de suprimento, uma maior diversificação de fornecedores e um acompanhamento atento da evolução das tensões geopolíticas envolvendo Rússia e Estados Unidos”, conclui Letícia.
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