Eletrificação da frota desacelera crescimento da demanda por combustíveis no Brasil, aponta StoneX
Avanço de híbridos e veículos elétricos já provoca desvio mensurável no consumo de gasolina e etanol, embora sem queda absoluta no curto e médio prazo.
O avanço da eletrificação da frota brasileira começa a produzir efeitos concretos sobre o mercado de combustíveis. Levantamento da StoneX, empresa global de serviços financeiros, mostra que, apesar de a demanda por gasolina e etanol ainda crescer em termos absolutos, a presença crescente de veículos eletrificados vem reduzindo o ritmo de expansão do consumo do Ciclo Otto[1] no país.
Segundo o estudo, a frota eletrificada brasileira deve atingir cerca de 1,7 milhão de veículos em circulação até 2030, o que representará aproximadamente 4% a 5% da frota total sem diesel. Esse movimento já se traduz em um desvio relevante de demanda: em 2026, cerca de 685 mil metros cúbicos de gasolina equivalente deixarão de ser consumidos, volume que pode chegar a 1,3 milhão de metros cúbicos em 2030.
“Não se trata de um colapso da demanda por combustíveis, mas de uma compressão gradual do consumo por veículo. O impacto da eletrificação, neste momento, aparece muito mais como desaceleração do crescimento do que como reversão da curva”, afirma Isabela Garcia, analista de Inteligência de Mercado da StoneX.
Fonte: StoneX.
Híbridos lideram efeito sobre o consumo
O estudo aponta que o principal vetor de impacto no curto e médio prazo não são os veículos 100% elétricos, mas os híbridos convencionais (HEVs) e os híbridos plug-in (PHEVs), que concentram a maior parte das vendas de eletrificados no Brasil.
Os HEVs apresentam, em média, eficiência energética cerca de 14% superior à dos veículos flex convencionais, reduzindo o consumo de gasolina ou etanol sem eliminá-lo totalmente. Já os PHEVs, embora projetados para operar majoritariamente em modo elétrico, tendem a consumir mais combustível do que o indicado nos dados homologados pelas montadoras.
“Os dados reais de uso mostram que os PHEVs rodam grande parte do tempo com o motor a combustão. Isso significa que o efeito de substituição do combustível é menor do que o esperado, e o impacto sobre a demanda é mais moderado”, explica Letícia Corrêa, analista de Inteligência de Mercado da StoneX.
Renovação lenta da frota limita impacto imediato
Mesmo com o crescimento acelerado dos emplacamentos de eletrificados, a renovação da frota brasileira segue lenta, com taxa anual de sucateamento entre 2% e 4%. Na prática, isso significa que veículos vendidos na última década ainda estarão em circulação ao longo dos próximos anos, sustentando a demanda por combustíveis líquidos.
Além disso, a eletrificação ocorre de forma desigual no território nacional, concentrando-se principalmente no Sudeste e no Sul, regiões que reúnem maior renda e infraestrutura de recarga. Em outras áreas do país, o Ciclo Otto segue praticamente como tecnologia exclusiva nos novos emplacamentos.
O que esperar para o mercado de combustíveis
As projeções indicam que, em 2030, o avanço da eletrificação deverá representar um desvio equivalente a aproximadamente 2,46% da frota em consumo de Ciclo Otto, o que corresponde a cerca de 902 mil veículos a menos demandando combustíveis líquidos, quando comparado a um cenário sem eletrificação.
Ainda assim, o estudo ressalta que não há previsão de queda absoluta da demanda por gasolina e etanol no médio prazo. O movimento observado é de desaceleração do crescimento, à medida que a eficiência energética dos veículos aumenta e a eletrificação avança de forma gradual.
“O mercado de combustíveis entra em uma nova fase, marcada menos por ruptura e mais por adaptação. A eletrificação impõe um novo patamar de crescimento, mais moderado, mas ainda positivo”, conclui Isabela Garcia.
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