Impasse entre EUA e China desafia abastecimento de commodities agrícolas no gigante asiáticos
O quarto trimestre de 2025 se apresenta como um período crítico para o comércio agrícola global, com expectativas voltadas para um possível acordo entre Estados Unidos e China. De acordo com Ivy Li, analista de mercado de commodities da StoneX, após meses de negociações, um entendimento tático pode reduzir as tensões comerciais e reabrir o fluxo de exportações norte-americanas para o mercado chinês.
A relação comercial entre as duas maiores economias do mundo permanece como um dos principais fatores de incerteza e volatilidade para o setor de oleaginosas e grãos. “A última rodada de negociações, realizada em Madri em setembro, não resultou em avanços imediatos, mas trouxe sinais positivos, como o consenso preliminar sobre a questão do TikTok, um indicativo de que temas mais amplos podem ser abordados futuramente”, disse a analista no Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX.
Embora não tenha havido anúncio de retirada de tarifas, as medidas unilaterais dos EUA foram colocadas no centro das discussões. Um eventual acordo pode incluir compras significativas de soja, milho, sorgo e carnes por parte da China. No entanto, a lentidão nas negociações pode atrasar a recuperação da demanda chinesa por commodities.
A economia chinesa segue em desaceleração, com os três pilares, investimento, exportações e consumo, perdendo força no terceiro trimestre. A meta de crescimento de 5% está ameaçada, e a persistência da deflação prolonga o ciclo de desestocagem de commodities. Apesar de subsídios impulsionarem o consumo, os gastos com alimentação cresceram apenas 3,6%, sinalizando baixa expectativa de demanda por grãos e óleos vegetais.
“A incerteza sobre o acordo comercial afeta diretamente o abastecimento de soja na China. Ainda assim, o país conta com reservas estratégicas robustas, acumuladas desde a primeira guerra comercial com os EUA. Estimativas do USDA indicam aumento de 18 milhões de toneladas nos estoques finais após o acordo da Fase Um”, pontuou Ivy Li.
Durante a temporada crítica de exportação dos EUA (novembro a janeiro), a China deve liberar menos de 12 milhões de toneladas de soja. Ao mesmo tempo, o Brasil ainda tem 16 milhões de toneladas da safra antiga para exportar até dezembro, com 80% destinadas à China. A Argentina também ampliou suas exportações após corte temporário de impostos. Esses fatores garantem o abastecimento chinês mesmo sem a soja norte-americana.
A expectativa de uma safra recorde no Brasil em 2026, com 10 milhões de toneladas adicionais, está incentivando vendas antecipadas. Segundo a analista, os embarques brasileiros de fevereiro-março estão quase 1 dólar por bushel mais baratos que os do quarto trimestre, favorecendo a soja brasileira frente à americana.
No mercado de canola, a guerra comercial entre China e Canadá paralisou o comércio de sementes e farinha de colza, levando a uma substituição pela farinha de soja. Essa mudança pode gerar até 2 milhões de toneladas adicionais de demanda por soja até o fim do ano.
Já o milho enfrenta desafios maiores. “As importações chinesas seguem fracas, com consumo reduzido e desestocagem prolongada. O USDA projeta recuperação para 10 milhões de toneladas em 2025/26, mas estimativas locais apontam para apenas 7 milhões. A substituição do milho por trigo na produção de ração também contribui para a queda na demanda”, afirmou.
A suinocultura e a avicultura chinesas enfrentam margens negativas, levando à redução de plantéis e menor demanda por ração. A produção de amido, outro importante destino do milho, opera com capacidade reduzida.
“Apesar do cenário desafiador, um eventual acordo comercial entre EUA e China pode ser o gatilho necessário para iniciar um novo ciclo de reabastecimento, diante dos estoques historicamente baixos em toda a cadeia de suprimentos chinesa”, finalizou Ivy Li.
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