Virada do ciclo pecuário deve reduzir oferta e sustentar preços da arroba no fim de 2026, aponta StoneX
O mercado pecuário brasileiro entra em uma nova fase do ciclo no quarto trimestre de 2026, marcada pela redução gradual da oferta de animais terminados e pela manutenção de uma demanda doméstica e internacional resiliente. O cenário foi detalhado pela StoneX na análise de pecuária da 37ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities, lançada em 8 de outubro.
Embora o Brasil deva seguir consolidando sua posição como maior exportador de carne bovina do mundo, o ritmo de crescimento dos embarques tende a perder intensidade nos próximos meses à medida que a retenção de fêmeas ganha força e reduz a disponibilidade de animais para abate.
Segundo a StoneX, o quarto trimestre será menos marcado pela disputa por mercados e mais pela adaptação da cadeia produtiva a um novo contexto de oferta mais curta e demanda ainda robusta.
“A principal tendência para os próximos meses é a consolidação da virada do ciclo pecuário. A retenção de matrizes vem se intensificando e isso reduz gradualmente a disponibilidade de animais terminados, ao mesmo tempo em que a demanda continua demonstrando capacidade de absorver volumes elevados de carne bovina brasileira”, afirma Larissa Barboza Alvarez, analista de Inteligência de Mercado da StoneX.
Virada do ciclo pecuário reduz oferta de animais
Do lado da oferta, os sinais de mudança se tornam cada vez mais evidentes. Após registrar o maior volume de abates da história para um primeiro semestre, com mais de 21 milhões de cabeças processadas, o mercado passou a apresentar indícios consistentes de desaceleração.
Dados recentes mostram que a participação de fêmeas nos abates recuou por cinco meses consecutivos. Em agosto, o volume abatido foi o menor desde o fim de 2024, reforçando a percepção de que os pecuaristas estão intensificando a retenção de matrizes para recomposição do rebanho.
A chegada da primavera e o avanço da estação de monta tendem a ampliar esse movimento, reduzindo ainda mais a disponibilidade futura de animais para abate e contribuindo para a sustentação dos preços ao longo dos próximos meses.
Retenção de matrizes sinaliza menor oferta para 2027
“O mercado já começa a precificar um ambiente de menor oferta para 2027. A retenção de fêmeas é um dos principais indicadores da virada do ciclo e os números observados ao longo dos últimos meses apontam para um estágio avançado dessa transição”, destaca Larissa.
El Niño influencia as condições das pastagens
Além das questões ligadas ao ciclo pecuário, as condições climáticas continuam sendo determinantes para a disponibilidade de oferta.
As projeções da StoneX indicam que as regiões Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste deverão apresentar condições favoráveis para o desenvolvimento das pastagens durante o quarto trimestre. Em contrapartida, áreas do Norte do país podem enfrentar um cenário mais restritivo, justamente em uma região que concentrou parcela importante da expansão recente do rebanho brasileiro.
A distribuição das chuvas ganha importância adicional em um contexto de El Niño, que substitui as preocupações observadas nos últimos anos com os impactos da La Niña sobre a disponibilidade de pastagens e os índices reprodutivos.
Cotas chinesas mudam dinâmica das exportações de carne bovina
No mercado internacional, a principal transformação de 2026 foi a adoção das cotas chinesas para importação de carne bovina.
Segundo a análise da StoneX, a medida alterou profundamente a distribuição dos embarques ao longo do ano. Pela primeira vez em quase uma década, o primeiro semestre concentrou os maiores volumes exportados, invertendo o padrão histórico de embarques mais fortes na segunda metade do ano.
Essa nova dinâmica começou a influenciar toda a cadeia produtiva. A antecipação das janelas de exportação também tende a acelerar decisões relacionadas à reposição do rebanho, aos confinamentos e à compra de insumos utilizados nas dietas animais, como milho, DDG, sorgo, polpa cítrica e caroço de algodão.
Diversificação de mercados sustenta os embarques brasileiros
Apesar das restrições impostas pela China, a StoneX ressalta que o mercado internacional demonstrou forte capacidade de absorção dos volumes excedentes.
Em 2025, os chineses compraram aproximadamente 1,6 milhão de toneladas de carne bovina brasileira. Com a cota de 2026 estabelecida em 1,1 milhão de toneladas, cerca de 500 mil toneladas precisaram encontrar novos destinos comerciais ao longo do ano.
“A redistribuição dos volumes que deixaram de ser enviados para a China mostrou que a competitividade da carne bovina brasileira vai muito além de um único mercado. Os embarques continuaram encontrando demanda em diversos destinos, reforçando a relevância global do produto brasileiro”, afirma Larissa.
Estados Unidos e Europa adotam estratégias distintas
Enquanto a China buscou sustentar preços domésticos por meio de restrições às importações, os Estados Unidos adotaram medidas na direção oposta.
Após anos convivendo com o menor rebanho bovino em décadas e preços elevados da carne, o governo norte-americano implementou uma isenção temporária para carne moída produzida com cortes magros, sinalizando preocupação com o poder de compra dos consumidores.
Na Europa, os debates se concentraram na ampliação das exigências relacionadas à rastreabilidade e ao uso de antimicrobianos, aumentando a relevância de sistemas robustos de monitoramento e controle para fornecedores que desejam atuar em mercados de maior valor agregado.
Segundo a StoneX, essas mudanças reforçam uma tendência crescente de valorização da rastreabilidade e da conformidade sanitária como diferenciais competitivos no comércio internacional de proteínas.
Demanda global por proteínas cria novas oportunidades
Além das transformações no comércio global, a consultoria destaca uma tendência estrutural que pode beneficiar o setor nos próximos anos: a crescente busca por alimentos ricos em proteína.
O avanço dos medicamentos à base de GLP-1 tem estimulado mudanças nos hábitos alimentares e aumentado o interesse por produtos com melhor perfil nutricional. Nesse cenário, carnes e lácteos aparecem entre os segmentos potencialmente favorecidos.
Mercado interno reforça perspectivas positivas para a pecuária
No Brasil, o consumo doméstico continua desempenhando papel fundamental para o equilíbrio do mercado. Mesmo com o crescimento das exportações, cerca de dois terços da produção nacional de carne bovina permanecem destinados ao mercado interno, proporcionando uma base importante de sustentação da demanda.
Na avaliação da analista da StoneX, os fundamentos para o quarto trimestre permanecem positivos. A combinação entre retenção de matrizes, menor disponibilidade de animais, diversificação dos mercados compradores e crescimento da demanda global por proteínas deve manter o ambiente favorável para a pecuária brasileira.
“Estamos diante de um mercado que passa por uma transição importante. A oferta começa a ficar mais enxuta ao mesmo tempo em que a demanda segue resiliente, tanto no Brasil quanto no exterior. Esse equilíbrio ajuda a explicar a firmeza observada no mercado físico e nos contratos futuros e sustenta uma perspectiva positiva para a pecuária brasileira nos próximos meses”, conclui Larissa.
SERVIÇO:
A análise completa está disponível na 37ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX, elaborado pela equipe de Inteligência de Mercado da empresa.
Lançado em 8 de outubro, o material conta com avaliações detalhadas para mercados agrícolas, energéticos, macroeconômicos e financeiros.
Link para download: https://stonex.link/perspectivas4tri26pecuaria
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