Comentários de Abertura
Um sentimento de aversão ao risco prevaleceu durante a noite em vários mercados, à medida que os traders digerem as mais recentes ações tarifárias implementadas pelo governo Trump. Tanto os futuros de ações quanto grande parte do setor de commodities sofreram pressão vendedora, embora as vendas tenham sido limitadas, em parte, pelas perdas já observadas, além da esperança de que possam surgir medidas positivas nos planos a serem anunciados no discurso do Estado da União, que será proferido pelo presidente Trump nesta noite. O VIX está sendo negociado no nível mais alto das últimas 10 semanas, próximo de 24, refletindo a ansiedade de Wall Street, enquanto o índice do dólar opera em torno de 106,1. Os títulos de 10 anos do Tesouro estão em 4,15%, enquanto os títulos de 2 anos caíram para 3,90%, o menor nível desde outubro. Os preços do petróleo bruto recuaram mais 1%, sendo negociados próximos de US$ 67 por barril, nível de suporte de longo prazo, enquanto os mercados de grãos e oleaginosas continuaram sua forte queda durante a noite.
As temidas tarifas de 25% sobre produtos importados do Canadá e do México entraram em vigor à meia-noite de ontem, enquanto as tarifas de 10% sobre produtos chineses foram dobradas para 20%. Medidas retaliatórias já começaram a surgir por parte desses parceiros comerciais, aumentando os temores de uma guerra comercial cada vez mais intensa, que poderia levar a economia dos EUA – e a economia global – a uma recessão, reduzindo assim a demanda por commodities. As tarifas impostas hoje se somam a uma investigação de segurança nacional sobre os produtos madeireiros canadenses que entram nos Estados Unidos, o que pode resultar em tarifas adicionais, além de uma investigação sobre países que aplicam taxas sobre serviços digitais a exportações americanas, propostas de taxas sobre navios chineses que chegam aos portos dos EUA e tarifas recíprocas, que deverão ser implementadas a partir de abril.
A retaliação da China inclui uma tarifa adicional de 15% sobre frango, trigo, milho e algodão importados dos Estados Unidos. Além disso, será adicionada uma tarifa de 10% sobre importações americanas de sorgo, soja, carne suína, carne bovina, produtos aquáticos, frutas, vegetais e laticínios a partir de 10 de março. Essas tarifas são inferiores aos 25% impostos pela China durante a guerra comercial do primeiro governo Trump, mas abrangem um número maior de produtos. Além disso, a alfândega chinesa suspendeu as qualificações de exportação de soja de três grandes tradings internacionais, acusando-as de conter materiais estrangeiros em seus embarques, o que violaria a legislação chinesa. Esse tipo de medida não é incomum por parte da China – em alguns casos, serve como interrupção temporária dos serviços, enquanto, em outros, pode se prolongar enquanto for politicamente conveniente. Vale destacar que a China importou pouco milho americano no último ano, pois preferiu comprar milho mais barato da Ucrânia e da América do Sul. Além disso, esta é a época do ano em que a China normalmente migra para a nova safra de soja sul-americana, que chega ao mercado com preços mais competitivos. As importações de sorgo chinês também foram escassas nos últimos seis meses. No entanto, essas novas tarifas terão um impacto significativo em vários dos outros produtos listados.
Mais detalhes sobre as medidas retaliatórias do Canadá e do México devem ser divulgados nesta manhã, e seu impacto sobre o comércio dos EUA pode ser substancial. O etanol não estava originalmente na lista canadense de produtos sujeitos a tarifas retaliatórias, mas isso não significa que não possa ser incluído. O fator-chave no México será se o país decidir aplicar tarifas retaliatórias sobre o milho e a carne suína americanos. Se isso acontecer, poderia aumentar a inflação dos alimentos no México. Até agora, Canadá, China e México aplicaram tarifas menores do que as impostas pelos EUA. Esses países justificam essa abordagem como uma resposta moderada, tentando criar uma oportunidade de desescalada que possa levar a um acordo – e provavelmente é esse o caso. Mas também é verdade que as economias desses países não podem suportar uma guerra comercial prolongada. Sim, os EUA também seriam prejudicados, mas essas nações enfrentam desafios econômicos ainda maiores. A questão central é: qual é o objetivo final do presidente Trump, se ele continua mudando as regras do jogo? Ele utiliza essa estratégia como tática de negociação, mas também cria um nível extremo de incerteza, que afeta negativamente os mercados, a confiança das empresas e dos consumidores, aumentando assim os riscos de recessão.
O presidente Trump discursará para a nação nesta noite, durante o Estado da União. No primeiro mandato, quando os preços agrícolas caíram devido à guerra comercial, Trump respondeu oferecendo assistência aos agricultores. Ontem, ele sugeriu que pode haver novas oportunidades para os produtores americanos venderem mais produtos no mercado interno. Isso significa que sua administração pode dar mais incentivos ao uso de commodities agrícolas na produção de biocombustíveis? Ele poderia mencionar algo sobre isso em seu discurso? É difícil prever Trump, mas essa possibilidade não pode ser descartada. As ações de hoje, na verdade, deveriam ser positivas para alguns setores de commodities, embora o mercado possa levar algum tempo para perceber isso em meio aos impactos negativos. Por exemplo, a medida pode ser positiva para a carne bovina, já que os EUA importam mais do que exportam. Também pode ser positiva para o trigo de primavera, pois reduzirá o fluxo de trigo canadense entrando nos EUA. No entanto, ainda enfrentamos condições de seca severa nas regiões central e sul das Plains americanas, no momento em que a cultura do trigo sai da dormência – um cenário semelhante ao que ocorre no Mar Negro. Além disso, a seca também avança no leste do Brasil, afetando um terço da área plantada com milho safrinha até agora. Entretanto, por enquanto, o mercado continua reagindo às manchetes, que ainda dominam a movimentação dos preços.



