Os contratos futuros de ações sofreram pressão durante o pregão noturno, após o presidente Trump anunciar novas tarifas abrangentes sobre países com os quais os EUA ainda não firmaram acordos comerciais. O relatório mensal de emprego divulgado nesta manhã adicionou um elemento de incerteza: a criação de vagas ficou abaixo do esperado, aumentando as expectativas dos investidores por cortes adicionais nas taxas de juros mais cedo do que o previsto. O índice de volatilidade VIX voltou a operar próximo de 19 pontos, enquanto o dollar index gira em torno de 98,8 pontos, após ter renovado máximas de dois meses antes da divulgação dos dados. Os juros dos Treasuries de 10 anos estão em torno de 4,25%, após caírem para mínimas de quatro semanas com os dados de emprego. Já os Treasuries de 2 anos estão sendo negociados a 3,75%. Os preços do petróleo recuam levemente, assim como o setor de grãos e oleaginosas, que também apresentou fraqueza no pregão noturno.
A economia norte-americana criou apenas 73 mil vagas líquidas em julho, abaixo da expectativa de 110 mil. Além disso, o número de junho foi revisado fortemente para baixo, de 147 mil para apenas 14 mil empregos. Maio também foi revisado de 144 mil para 19 mil. No total, as revisões de maio e junho retiraram 258 mil vagas do saldo acumulado, dado que não passou despercebido pelos investidores. A taxa de participação na força de trabalho recuou novamente, chegando a 62,2% em julho. Em termos anuais, a participação no mercado de trabalhou caiu 0,5%, enquanto a relação emprego/população está em 59,6%, recuando 0,4 p.p. no mesmo período. O setor de saúde foi o destaque positivo, com 55 mil novas vagas, enquanto a indústria perdeu 13 mil postos, e o governo federal cortou mais 12 mil. No total, o setor privado criou 83 mil vagas no mês.
Os salários médios por hora subiram 0,3% no mês (ante uma alta de 0,2% em junho) e acumulam alta de 3,9% em 12 meses (ante 3,8% em junho). A jornada média de trabalho aumentou para 34,3 horas semanais. As empresas continuam evitando demissões em massa, mas estão recorrendo à não reposição de vagas para reduzir quadro, mesmo com resultados ainda saudáveis. Apesar disso, esses dados podem ser exatamente o argumento que o presidente do Fed, Jerome Powell, buscava para justificar um corte nos juros – pelo menos essa é a esperança dos investidores em Wall Street. Os rendimentos dos Treasuries caíram de forma notável após a divulgação dos dados, e a probabilidade de corte na taxa em setembro saltou quase 30 pontos percentuais. O mercado agora precifica dois cortes até o fim do ano.
O presidente Trump anunciou tarifas de 10% sobre uma ampla gama de países que mantêm relações comerciais com os EUA, e tarifas de 15% para aqueles que têm superávit comercial significativo com os americanos. Cerca de 15 países enfrentarão tarifas ainda maiores. As novas tarifas entram em vigor em 7 de agosto, e diversos países já sinalizaram que usarão esse período para intensificar negociações e tentar melhores condições. O destaque ficou com o Canadá, cuja tarifa subiu para 35%. Para o México, o Presidente Trump ofereceu prazo adicional de 90 dias para chegar a um acordo. Produtos cobertos pelo acordo USMCA continuam isentos. O Brasil verá sua tarifa subir para 50%, conforme já havia sido anunciado anteriormente. A Índia enfrentará tarifa de 25%, Taiwan de 20%, e a Suíça de 39%. O grande destaque segue sendo a China. Há um acordo negociado na mesa de Trump que prorrogaria as tarifas por mais 90 dias, mas ainda não foi assinado. A realidade, ao que tudo indica, é que o acordo apenas estende o status quo. As divergências entre os dois países continuam profundas. Ainda assim, como o resto do mundo, os EUA precisam dos ímãs e minerais raros processados da China, e a China, dos chips avançados produzidos pelos EUA.
Apesar das quedas nas bolsas, não vemos o mesmo grau de pânico observado há quatro meses, quando o mercado precificava o pior dos cenários. Os traders de commodities seguem focados nos fundamentos de oferta e demanda, aguardando definições mais claras nas frentes comerciais. Espera-se que novos acordos comerciais sejam firmados. Exportações de commodities dos EUA tendem a ser prejudicadas principalmente caso haja retaliações específicas com tarifas sobre esses produtos. Uma commodity particularmente interessante de acompanhar neste cenário é a carne bovina exportada pelo Brasil. A oferta de proteína nos EUA está apertada, e a demanda do consumidor por proteínas tem se mostrado cada vez mais inelástica, em grande parte impulsionada por dietas populares e tratamentos para a perda de peso voltados à ingestão proteica. Atualmente, os EUA não conseguem atender à demanda interna apenas com produção doméstica, e o Brasil é o principal fornecedor externo. Assim, o mercado americano terá que se ajustar a outras fontes de proteína – o que certamente acontecerá, mas levará tempo.
Os preços da soja tentam uma recuperação neste início de mês, após renovarem mínimas durante a madrugada. O milho busca se consolidar acima das mínimas recentes, com o trigo em movimento semelhante. A ausência de demanda chinesa por soja, somada a grandes safras sul-americanas e altas expectativas para a produção norte-americana de milho, soja e trigo, são os principais fatores moldando o sentimento atual do mercado. A StoneX divulgará na tarde de segunda-feira os resultados de sua pesquisa com clientes dos Estados Unidos, trazendo as primeiras estimativas oficiais de produtividade para o ano. Outras fontes privadas devem apresentar seus números na sequência.