Ontem (25), o contrato mais ativo do Brent fechou em forte queda, a USD 96,30/bbl (–6,97%), após tocar mínimas diárias ao redor de USD 95/bbl. O WTI acompanhou o movimento, encerrando a USD 90,88/bbl (–6,5%), com volumes reduzidos pelo feriado do Memorial Day nos EUA.
O principal driver da sessão foi a percepção de que EUA e Irã se aproximavam de um memorando de entendimento capaz de encerrar a guerra e reabrir o Estreito de Ormuz, reduzindo o prêmio de risco embutido na curva e levando fundos a liquidar posições compradas com rapidez.
Nesta manhã (26), o Brent opera a USD 98,3/bbl (+2,3%), recompondo parte das perdas registradas ontem. A confirmação feita por Marco Rubio sobre a possibilidade da negociação “levar dias” para acontecer e os ataques norte-americanos sobre território iraniano contribuem para a reincorporação dos prêmios de risco às cotações nesse início de sessão.
EUA ataca lançadores de mísseis do Irã
Enquanto negociadores iranianos estavam em Doha discutindo um cessar-fogo, o CENTCOM realizou novos ataques a embarcações e instalações de lançamento de mísseis no sul do Irã, justificados como "medidas de defesa". O Secretário de Estado Marco Rubio afirmou que o acordo "pode levar alguns dias", derrubando expectativas de resolução imediata.
Por que isso importa: O movimento de ontem já precificava uma alta possibilidade de reabertura do estreito, eliminando parte do prêmio de risco construído nos últimos três meses. Com os ataques e a retórica dura do Supremo Líder iraniano, o mercado reassume incerteza sobre o timing do acordo, recolocando viés altista de curto prazo. A variável-chave passa a ser o intervalo entre um eventual MOU e a reabertura física do estreito.
Panorama: O Estreito de Ormuz permanece bloqueado para a navegação geral: dos 125 a 140 navios que passavam diariamente antes da guerra, apenas algumas dezenas transitam hoje — majoritariamente ligados a países com acordos bilaterais com Teerã, utilizando o sistema de pedágios.
- Três navios de GNL cruzaram o estreito em dias recentes, com destino para Paquistão, China e Índia, além de um VLCC com petróleo iraquiano para a China que estava parado há quase três meses.
- O MOU em discussão prevê um prazo de 30 dias para remoção de minas e normalização do tráfego, com 60 dias adicionais para negociação das questões nucleares — estrutura que sugere que qualquer alívio de oferta relevante está a pelo menos dois meses de distância.
- Esta seria a sexta tentativa de acordo desde o início do conflito em 28 de fevereiro; nas cinco anteriores, as negociações colapsaram nos detalhes de implementação.
O que esperar: Caso o MOU seja formalizado nos próximos dias, o Brent deve seguir recuando, com o mercado antecipando reabertura gradual — mas sem eliminar o prêmio enquanto fluxos físicos não forem confirmados.
- Inversamente, se os ataques americanos ou a retaliação iraniana anunciada levarem a uma ruptura das negociações, o movimento de reprecificação pode levar o Brent de volta à valores acima dos USD 100 bbl.
Índia reduz processamento em abril
O processamento das refinarias indianas em abril caiu 8,9% em relação a março, para 5,23 mbpd em abril. A principal explicação é a disrupção nos fluxos do Oriente Médio, que forçou refinarias a buscar alternativas na América Latina e África, com custos logísticos e prazos maiores.
Por que isso importa: A Índia é o terceiro maior importador e consumidor de petróleo do mundo. Uma contração no processamento indica que o choque de Ormuz já está afetando a demanda efetiva por óleo bruto — não apenas preços. Vale levar que cerca de 80% do petróleo produzido pelo Golfo Pérsico tinha como destino a Ásia, com o conflito afetando de maneira mais severa esse continente, principalmente grandes consumidores como China e Índia.
Panorama: A refinaria Nayara Energy (Vadinar), parcialmente controlada pela Rosneft, reduziu o processamento em 70% em abril, sendo a queda justificada por manutenção e dificuldades na reposição de petróleo russo.
- A Reliance Jamnagar, maior refinaria privada do mundo, apresentou uma retração de 14%, indicando dificuldade na recomposição de carga mesmo para refinadores com maior flexibilidade de originação.
- Refinadores indianos passaram a importar majoritariamente de América Latina e África, rotas com tempo de entrega de 15–25 dias superior ao do Golfo Pérsico — o que comprime a eficiência operacional e eleva o custo efetivo do barril.
- Com Ormuz parcialmente bloqueado, a Índia perde acesso preferencial a produtos de baixo custo do Golfo, forçando ajustes de configuração de refino para acomodar petróleos mais pesados ou de maior teor de enxofre.
O que esperar: Se o MOU for concluído e o estreito reabrir gradualmente, a demanda indiana reprimida deve se traduzir em recomposição expressiva de refino no segundo semestre — cenário que reforça suporte à curva de Brent mesmo com mais barris voltando ao mercado. Se o bloqueio se estender por mais dois ou três meses, novas quedas no processamento são prováveis, com pressão adicional sobre as margens de refino globais.