O Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities já está disponível gratuitamente.  Faça seu download.  →

Logotipo da StoneX

Especial | Tarifas dos EUA aos produtos brasileiros

By: StoneX Intelligence Brazil, StoneX Intelligence Brazil

 

Especial | Tarifas dos EUA aos produtos brasileiros

 

Ao final da tarde da última quarta-feira (9), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou tarifas de importação de 50% sobre todos os produtos brasileiros a partir de 1º de agosto.

Balança comercial EUA – Brasil

Exportações, importações e saldo comercial do Brasil com os Estados Unidos (US$ bi)

image 115643

Fonte: Comexstat. Elaboração: StoneX.

Os Estados Unidos representam o segundo maior destino das exportações brasileiras, atrás apenas da China. De acordo com os dados do MDIC, as exportações brasileiras aos EUA no primeiro semestre de 2025 totalizaram US$ 20,02 bilhões, 12% do total exportado. Adicionalmente, o Brasil apresenta déficit comercial frente aos Estados Unidos (isto é, mais importa que exporta) desde 2008.

 

Principais produtos exportados aos EUA

Principais produtos brasileiros exportados aos EUA no primeiro semestre de 2025 (US$ bi)

image 115631

Fonte: Comexstat. Elaboração: StoneX.

Divisão das receitas de exportações para os EUA no primeiro semestre de 2025 por produto (%)

image 115632

Fonte: Comexstat. Elaboração: StoneX.

Dentre os principais produtos brasileiros exportados aos EUA, destacam-se as chamadas “hard commodities”, principalmente petróleo, metais e derivados desses produtos, que representaram cerca de 30% (US$ 6,0 bi) da receita no primeiro semestre de 2025.

Em seguida, produtos dos setores agropecuário e florestal, como café, carne, sucos, celulose, madeira e óleos e gorduras animais também representam uma parcela importante das vendas brasileiras ao mercado norte-americano, próximo a 14,4% (US$ 5,1 bilhões).

Além disso, alguns produtos manufaturados, como aviões e equipamentos aeronáuticos, equipamentos de engenharia civil e máquinas para o setor de energia elétrica também apresentam uma participação importante, respondendo por 10% (US$ 2,0 bilhões) das receitas.

No geral, as exportações brasileiras aos EUA seguem bem concentradas nos setores extrativista e agropecuário, considerando não somente as matérias-primas, como também os produtos gerados na indústria por esses setores. Nesse sentido, a implementação das tarifas norte-americanas contra os produtos brasileiros acaba por elevar os temores de uma redução das receitas nessas frentes, com o mercado ainda incerto em relação aos impactos efetivos das medidas anunciadas.

 

Câmbio

Nas primeiras horas após o presidente americano anunciar que elevaria as tarifas de importação aos produtos brasileiros, o dólar passou a registrar forte movimento de alta frente ao real.

Em partes, esse movimento justifica-se pelo fato de que tarifas dessa magnitude podem prejudicar severamente as exportações brasileiras, visto que os EUA são, atualmente, o segundo maior destino das exportações nacionais. Isto representaria uma redução na entrada de moeda estrangeira, o que tende a desvalorizar o real.

Adicionalmente, a decisão eleva a imprevisibilidade e a percepção de riscos para investimentos em ativos brasileiros, o que afasta investimentos estrangeiros e, igualmente, tende a desvalorizar o real.

 

Petróleo e diesel

Os Estados Unidos representam 11,3% das exportações brasileiras de petróleo, o que representou uma média de 209 mil barris por dia (kbpd) no primeiro semestre de 2025, de acordo com dados do MDIC. Vale destacar que esse volume é 22,7% menor do que a média registrada no primeiro semestre do ano passado (271 kbpd), conforme o Brasil ampliou as exportações para o mercado asiático – região que respondeu por 57% (1.058 kbpd) das vendas do Brasil ao exterior. Vale destacar que a União Europeia também representa um volume importante das vendas brasileiras, sendo destino de um quarto (465 kbpd) das exportações.

O Brasil, por sua vez, não se configura entre os principais fornecedores de petróleo para os Estados Unidos. De acordo com a EIA, o país representou menos de 3% das importações americanas em 2025, reduzindo sua participação frente o ano anterior. Em geral, os Estados Unidos dependem mais de outros produtores, como Canadá (65%), México (7%) e Arábia Saudita (4%), além de registrar importações de petróleo de outros países da América Latina, como Venezuela e Guiana. Dessa maneira, caso o petróleo brasileiro não seja isento dessas novas tarifas, é provável que os importadores americanos procurem novos fornecedores.

A depender da sustentação da medida anunciada, o Brasil pode registrar uma mudança do perfil dos compradores de petróleo, com uma possível participação maior de países asiáticos em detrimento do share norte-americano, causado pela perda de competitividade do petróleo brasileiro nos EUA. Ademais, impactos de curto prazo podem envolver um recuo das exportações brasileiras de petróleo enquanto essas alterações se concretizam, a depender da capacidade do país de escoar seus produtos para outros consumidores.

Considerando os derivados de petróleo, o Brasil é dependente de importações dos Estados Unidos, representando 24% do volume internalizado de diesel no primeiro semestre de 2025 (5,4 milhões de m³), enquanto para a gasolina, essa participação esteve em 34% (410 mil m³). Dessa maneira, caso se tenha alguma retaliação pelo governo brasileiro, o país poderá se voltar para novos fornecedores, ampliando as importações de produtos russos e de países da Ásia e Oriente Médio com riscos de custos mais elevados para importações.

 

Carne

Os Estados Unidos são um destino estratégico para as exportações de carne do Brasil, ocupando a segunda posição e respondendo por 12% dos embarques de carne bovina brasileira. Em 2025 (janeiro a junho), as exportações para os EUA cresceram 33% em comparação com o mesmo período de 2024, refletindo laços comerciais mais fortes e uma demanda qualificada.

Por outro lado, o Brasil foi o terceiro maior fornecedor de carne para os EUA em 2024, mas assumiu a liderança em 2025, superando a Austrália e o Canadá, que normalmente obtêm preços mais elevados.

Embora ainda exista a possibilidade de que o Brasil e os Estados Unidos cheguem a um acordo antes dessa data para reduzir a alíquota, os impactos já estão gerando preocupação. Uma vez que os embarques brasileiros previamente contratados cheguem e sejam submetidos à nova tarifa, o aumento de preço resultante comprometerá severamente a competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano.

Se a tarifa de 50% for mantida, e considerando que o Brasil já paga uma alíquota de 26,4% sobre as importações fora da cota classificada na categoria “outros”, o encargo tarifário total subiria para 76,4% a partir de 1º de agosto.

Uma tarifa tão elevada poderia alterar significativamente a dinâmica das importações norte-americanas, potencialmente aumentando a demanda por carne bovina australiana (supondo que a Austrália mantenha sua alíquota atual de 10%). Por isso, torna-se essencial acompanhar de perto a evolução dessa situação. Vale lembrar que a Austrália é a segunda maior exportadora global de carne bovina, embora seus volumes não representem sequer metade do que é exportado pelo Brasil. Assim, será igualmente importante observar como esse competidor brasileiro conseguirá responder a uma possível nova demanda, caso as tarifas se mantenham efetivamente.

 

Óleos vegetais e gorduras

No caso dos óleos vegetais e gorduras, embora os óleos não tenham participação expressiva nas exportações para os EUA, o sebo bovino pode ser significativamente impactado. Desde 2023, o Brasil ampliou de forma expressiva suas exportações de sebo bovino, tendo os Estados Unidos como principal destino. Em 2024, das 319 mil toneladas exportadas, 303 mil foram destinadas aos EUA — uma participação de 94% — consolidando o Brasil como o maior fornecedor de sebo bovino ao país, respondendo por cerca de 38% das importações americanas. Em 2025, essa participação segue elevada, em torno de 90%. Um destaque importante foi o mês de junho, que registrou o maior volume histórico de exportações mensais de sebo, com 72,8 mil toneladas, das quais 71,6 mil foram adquiridas pelos EUA.

As novas políticas de biocombustíveis dos Estados Unidos já vinham sinalizando um cenário mais desafiador para os fornecedores brasileiros. Com o avanço do crédito fiscal 45Z — que não bonificará combustíveis produzidos com insumos importados — e a possível aprovação das novas metas de combustíveis renováveis, conhecidas como RVOs (Renewable Fuel Obligations), segundo as quais combustíveis com insumos importados gerarão apenas 50% de um RIN, já se esperava uma perda de competitividade do sebo brasileiro no mercado americano a partir de 2026. Isso refletiria em uma queda nas exportações.

Até então, no entanto, estimava-se que os embarques seguiriam firmes até dezembro desse ano, com os consumidores americanos aproveitando os últimos meses de condições favoráveis de compra. Com a possível imposição da tarifa de 50%, contudo, as exportações brasileiras de sebo tendem a ser impactadas de forma significativa ainda este ano.

 

Café

Dois grupos seriam fortemente afetados pela medida: as exportações brasileiras de café e, por outro lado, a própria indústria americana do café e os consumidores nos Estados Unidos. O país é o maior consumidor mundial da bebida e figura como o principal comprador do café brasileiro. Em 2024, o Brasil exportou 8,13 milhões de sacas de café para os Estados Unidos, o que representa mais de 16% do total exportado pelo Brasil no ano, segundo dados do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil).

Além dos Estados Unidos, outros destinos relevantes das exportações brasileiras incluem a Alemanha (7,6 milhões de sacas), Bélgica, Itália, Japão, Espanha, entre outros países, também de acordo com o Cecafé. Do ponto de vista americano, os dados do USDA revelam que, em 2024, o Brasil foi responsável por quase 34% de todas as importações de café realizadas pelos Estados Unidos, o que evidencia a forte dependência e a ligação estratégica entre os dois mercados.

A imposição das tarifas reduziria significativamente a competitividade do café brasileiro no mercado americano, dificultando o acesso do produto ao país e pressionando as margens da cadeia exportadora.

Por outro lado, a medida também deve gerar impactos negativos expressivos nos Estados Unidos. A indústria americana de café e os consumidores devem ser diretamente afetados. Desde 2024, os preços globais do café vêm registrando avanços expressivos, impulsionados principalmente por questões climáticas que afetaram a produção. Isso resultou em um aumento dos preços ao consumidor também nos Estados Unidos.

Dados da agência americana BLS mostram que a inflação acumulada nos últimos 12 meses para o café torrado e moído atingiu 32,4% até maio de 2025, o que já vinha pressionando o consumo no país. A adoção dessas tarifas tende a intensificar ainda mais essa inflação ao consumidor final.

De acordo com a Associação Nacional do Café dos Estados Unidos (NCA, na sigla em inglês), o impacto econômico da indústria do café no país alcançou US$ 343,2 bilhões em 2022, sendo responsável por aproximadamente 2,2 milhões de empregos. Ainda segundo a entidade, cada dólar gasto com café importado gera um valor de US$ 43 dentro da economia americana, evidenciando a relevância estratégica do setor nos Estados Unidos.

Outro ponto relevante é a relação comercial entre Estados Unidos e Canadá. O Canadá é um dos principais destinos das exportações de café torrado e moído e das reexportações de café cru realizadas pelos americanos. No entanto, essa relação também enfrenta desafios, já que o Canadá recentemente impôs tarifas sobre produtos oriundos dos Estados Unidos, o que pode afetar ainda mais a competitividade da indústria americana de café.

Adicionalmente, os Estados Unidos também impuseram tarifas sobre outros importantes fornecedores de café ao seu mercado: 10% para a Colômbia, 20% para o Vietnã e 32% para a Indonésia. Isso indica que os principais exportadores de café para os Estados Unidos estão sendo atingidos por barreiras tarifárias, o que reforça a perspectiva de que o setor cafeeiro americano será um dos mais impactados por essa política comercial.

 

Etanol

Os Estados Unidos são parceiros importantes no comércio de etanol (sendo entre 90% e 95% do total de anidro nos últimos 5 anos), seja via exportações ou importações. Na média entre 2020 e 2024, o Brasil exportou ao redor de 480 mil m³ ao ano de anidro aos EUA, partindo totalmente das usinas do Centro-Sul. Já o Nordeste, região deficitária no biocombustível, conta com importações pontuais do produto ao longo do ano, registrando uma média anual (2020-2024) de cerca de 400 mil m³ de compras, sendo 40% delas dos Estados Unidos.

A demanda norte-americana por etanol brasileiro se encontra, centralmente, nos programas de incentivo a biocombustíveis, tanto o Renewable Fuels Standard (RFS), nacional, quanto o LCFS (Low Carbon Fuel Standard), na Califórnia. Em síntese, mesmo que os EUA possuam um superávit na produção doméstica de etanol, gerando excedentes exportáveis, o país chega a importar volumes de etanol de cana anualmente (majoritariamente do Brasil) para cumprir com mandatos de biocombustíveis.

Isso porque o biocombustível de cana possui uma intensidade de carbono (CI, da sigla em inglês) capaz de reduzir mais de 50% as emissões de seu substituto fóssil, a gasolina, mitigação maior no comparativo com o álcool de milho americano.

Nesse contexto, as novas tarifas geram obstáculos para internalização do etanol brasileiro nos EUA. Entretanto, no curto prazo, os impactos tendem a ser pequenos, uma vez que em agosto o Brasil contará com a mistura de 30% do anidro da gasolina – ou seja, o mercado doméstico tende a absorver maiores volumes do biocombustível e gerar menos excedente exportável. Pensando em médio/longo prazo, o Brasil pode buscar outros mercados no comércio global, ao passo que outros países aprofundam seus programas de incentivo ao setor, e que podem não possuir capacidade doméstica de produção, como o caso do Japão e de países do Sudeste Asiático (com destaque para o Vietnã).

Por outro lado, caso haja reciprocidade por parte do governo do Brasil, o aumento da atual taxa de importação de etanol de 18% para 50% poderia afetar o mercado brasileiro, pois, em 2025, o balanço entre oferta e demanda nacional do biocombustível está mais apertado, e é possível que haja a necessidade de busca por importações em alguns momentos do ano dado o cenário de aumento de mistura. Nesse sentido, uma “retaliação” pode ser altista para os preços do etanol.

 

Grãos e Algodão

O Brasil e os Estados Unidos estão entre os maiores produtores de soja, milho e algodão. Além de garantir a autossuficiência desses produtos, ambos os países assumem posição protagonista nas exportações. No caso da soja e do algodão, Brasil é o principal exportador, seguido pelos EUA. Para o milho, vemos o contrário, com Estados Unidos sendo o maior exportador global, seguido pelo Brasil.

Uma vez que os dois países não são importadores líquidos desses produtos, o efeito das tarifas americanas contra o Brasil – bem como uma possível retaliação – é limitado.

A maior consequência associada às tarifas que deve impactar esses produtos é a dinâmica cambial. Com a moeda brasileira sendo depreciada pelo anúncio das tarifas pela Casa Branca, podemos ver commodities brasileiras mais competitivas no mercado global.

 

Fertilizantes

O Brasil é um grande importador de fertilizantes, uma vez que a produção nacional não supre integralmente a demanda dos agricultores. Por esse motivo, o recente aumento das tarifas de importação anunciadas pelos Estados Unidos não deve, a princípio, afetar diretamente o mercado brasileiro de fertilizantes, já que esse fluxo comercial não será afetado por essas medidas.

Ainda assim, dois fatores merecem atenção. O primeiro diz respeito à possibilidade de uma desvalorização cambial como reflexo das tensões comerciais. Caso isso ocorra, o câmbio desvalorizado tende a encarecer os insumos importados. Vale destacar que os preços dos fertilizantes nitrogenados e fosfatados já se encontram em níveis elevados e, considerando a aproximação da safra 2025/26, a valorização do dólar frente ao real pode pressionar ainda mais os custos de produção.

O segundo ponto envolve o papel dos Estados Unidos como fornecedor relevante para determinados fertilizantes importados pelo Brasil, como o NP (à base de nitrogênio e fósforo), ou o enxofre. Nesse sentido, eventuais medidas de retaliação ou reciprocidade por parte do governo brasileiro — caso interfiram nesse comércio — podem gerar efeitos colaterais, os quais merecem acompanhamento.

 

  • Moedas

Este documento contém opiniões do autor e não necessariamente reflete as estratégias da StoneX. As previsões de mercado são especulativas e podem variar. O investidor é responsável por qualquer decisão baseada neste material. A StoneX só negocia com clientes que atendem aos critérios legais. O aviso legal completo está em https://www.stonex.com/pt-br/termos-e-condicoes/.

É proibida a cópia ou redistribuição deste material sem permissão da StoneX.

© 2026 StoneX Group, Inc.

Vista por satélite da Terra à noite mostrando cidades iluminadas na Ásia e no Oriente Médio

Descubra mais insights

Nossos assinantes têm acesso às análises de mercado da StoneX, abrangendo commodities, ações, moedas e muito mais.

Abrimos mercados

Utilizamos nosso capital, conhecimento e profunda experiência para proteger as margens de nossos clientes, reduzir custos e fornecer soluções personalizadas para obter sucesso nos mercados globais competitivos de hoje.

Confiança

Valorizamos relacionamentos próximos e de longo prazo com nossos clientes. Ao oferecer o melhor serviço e suporte tecnológico, nossos clientes confiam em nós para entrar nos mercados mais desafiadores e atender aos seus pedidos mais difíceis.

Transparência

Oferecemos preços competitivos e transparentes, além de entrega garantida e segura em mais de 140 moedas em mais de 185 países.

Especialização

Com insights e informações de todo o mundo, fornecemos aos nossos clientes notícias, dados e comentários agregados de todas as vertentes de nossos mercados, desde interconexões de complexos de commodities até fluxos globais de capital.