
Impactos das geadas na produção de café do Cerrado Mineiro
Na última semana, algumas regiões, principalmente no Cerrado Mineiro, foram impactadas pela ocorrência de uma geada que não havia sido antecipada de forma adequada pelos modelos preditivos de clima, sejam eles americanos, europeus ou os utilizados no Brasil, como os do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e do INMET. Para a região de Patrocínio, que foi a mais atingida, as projeções indicavam temperaturas mínimas entre 7 e 8 graus Celsius no dia 11. No entanto, mesmo sem previsão, houve ocorrência de geada, afetando negativamente o desenvolvimento das lavouras de café e reduzindo o potencial produtivo da safra 2026/27. Refletindo esse cenário, além de outros fatores que influenciam o mercado, mas com grande peso da geada, os preços em Nova York avançaram 3.175 pontos na semana passada, encerrando a sexta-feira em US¢ 334,20 por libra-peso, uma alta superior a 10%. No mercado londrino também houve valorização, com incremento de 557 dólares por tonelada, fechando a semana em 4.067 dólares por tonelada, equivalente a quase 16% de alta no período.
No atual estágio das lavouras brasileiras, dados da StoneX apontam que até 18 de agosto a colheita já havia atingido 96,3% da safra. O café robusta teve a colheita finalizada, enquanto o arábica alcançou 93,8%. As áreas mais atrasadas estão no Sul de Minas e no Cerrado Mineiro, onde 91% da safra foi colhida. A partir deste momento, fatores climáticos se tornam decisivos para definir o potencial da safra, em especial a regularidade do retorno das chuvas. Em algumas áreas de café robusta, a florada já se iniciou, e no arábica está prestes a começar. Nesse contexto, a geada representou um evento inesperado, trazendo prejuízos consideráveis para algumas regiões do Cerrado Mineiro.
Ritmo de colheita no Brasil

Fonte: StoneX.
Eventos climáticos extremos podem ser definidos como valores meteorológicos que se desviam significativamente da média esperada. As mudanças climáticas têm intensificado a frequência e a imprevisibilidade desses fenômenos, além de concentrar seus efeitos em áreas específicas. Isso tem provocado perdas econômicas, ecológicas e produtivas expressivas, sobretudo nas regiões mais vulneráveis. Esse fenômeno pôde ser observado na mínima registrada nos dias 11 e 12 de agosto de 2025, que ficou aproximadamente 5 graus abaixo da climatologia esperada para o mês nas áreas cafeeiras do Cerrado. Os mapas meteorológicos mostram claramente a abrangência e os locais mais afetados.
No estado de Minas Gerais, diversos municípios do Cerrado registraram temperaturas mínimas abaixo de 4 °C. Entre os mais afetados destacam-se Patrocínio, Perdizes, Ibiá, Serra do Salitre, Araxá, Medeiros, Pratinha, Campos Altos e Córrego da Anta. Também foram observados registros em Bambuí, São Roque de Minas, Piumhi, Ilicínea, Nova Resende, Bom Jesus da Penha, além de localidades específicas de Passos e Fortaleza de Minas. No Sul do estado, as temperaturas mais baixas foram registradas em Poços de Caldas, Caldas, Ibitiúra de Minas e Andradas.
Temperaturas mínimas pela climatologia para agosto (A) e valores registrados nos dias 11 (B) e 12 (C

Fontes: INPE e StoneX. Elaboração: StoneX.
Após o evento, a StoneX realizou levantamento para avaliar os danos nas lavouras de café e estimar as perdas. Em 2021, uma forte geada atingiu amplas áreas produtoras no Sul de Minas, São Paulo, Paraná e Cerrado. Já em 2025, embora tenha ocorrido novamente, as perdas significativas ficaram restritas ao Cerrado Mineiro. A área afetada foi menor e os danos, em linhas gerais, menos severos do que os registrados quatro anos antes. Na maior parte das áreas atingidas, a geada causou danos moderados, afetando o terço superior das plantas, caracterizando a chamada geada de capote. Entretanto, em locais com topografia mais favorável à formação de geadas ou naturalmente mais frios, os danos foram severos.
Foram identificados pontos de geada em municípios como Patrocínio, Ibiá, Araxá, Serra do Salitre, Guimarânia, Perdizes, Campos Altos, Monte Carmelo, Romaria e Indianópolis. Entre eles, Patrocínio e Ibiá se destacaram como os mais impactados, apresentando maior número de pontos de geada e danos mais acentuados. Nessas localidades, alguns pontos voltaram a ser atingidos, lembrando parcialmente o cenário de 2021. Nos bairros rurais do Esmeril e do Abacaxi, por exemplo, a extensão das áreas afetadas foi semelhante à registrada naquele ano.
A StoneX estima que a perda causada pela geada no Cerrado Mineiro seja de 424 mil sacas, o que corresponde a 3,86% da área total da região. Esse número, contudo, pode aumentar caso haja abortamento dos botões florais expostos ao frio, mesmo em áreas sem danos físicos diretos. A experiência de 2022 mostrou que os efeitos da geada de 2021 não se limitaram ao momento imediato do evento. O frio intenso de 2021 causou forte abortamento da florada, inclusive em regiões que não haviam sido atingidas pela geada, reduzindo de forma significativa o potencial produtivo de 2022. Desta vez, o frio foi menos intenso e mais localizado, mas ainda assim há risco de recorrência do problema, já que os botões florais estão mais desenvolvidos e vulneráveis.
O acompanhamento da florada será fundamental nos próximos dias. Caso as chuvas ocorram, a tendência é que ela se adiante, tornando ainda mais necessário o monitoramento para avaliar possíveis impactos adicionais.

Temperatura mínima observada nos municípios produtores do Cerrado
*As isolinhas representam as temperaturas mínimas registradas em 11/08. Fonte: INPE e StoneX. Elaboração: StoneX.