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Panorama Semanal de Câmbio

By: StoneX Intelligence Brazil, StoneX Intelligence Brazil

Panorama de câmbio: principais eventos da semana

 
Leonel Oliveira Mattos
Vitor Andrioli
Dólar deve refletir repercussões do anúncio de tarifas americanas, CPI e ata do FOMC nos EUA e IPCA e IBC-Br no Brasil
  • Fatores baixistas
  • Movimento de diversificação e diluição de riscos por investidores pode estimular a demanda por ativos arriscados e favorecer um fortalecimento do real.
  • Alta do IPCA pode piorar as expectativas inflacionárias para o Brasil e reforçar a perspectiva de novas altas para a taxa básica de juros (Selic), o que contribui para atrair investimentos estrangeiros e tende a fortalecer o real.
  • Fatores altistas
  • Anúncio de tarifas de importação pelo governo Trump aprofundou receios de uma recessão econômica global, o que deve estimular a demanda por ativos “portos-seguros” e prejudicar o desempenho do real.
  • Desaceleração do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) de fevereiro pode reduzir apostas para altas na taxa básica de juros (Selic), o que pode prejudicar investimentos estrangeiros e enfraquecer o real.

 

Resumo da semana passada

A semana foi marcada pela expressiva volatilidade e profunda aversão a riscos após o anúncio de tarifas de importação pelos EUA aprofundou temores de uma recessão global e uma “guerra tarifária” entre os países, levando os mercados financeiros à pior semana desde a pandemia de Covid-19.

A taxa de câmbio do real terminou a sessão desta sexta-feira (04) cotada a 5,8382, variação de +1,3% na semana, 2,3% no mês e -5,5% no ano. Já o dollar index fechou o pregão desta sexta cotado a 103,0 pontos, recuo semanal de 1,0%, mensal de 1,2% e anual de 4,7%.

Dólar comercial (US$/R$) e Dollar Index (pontos)

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Fonte: StoneX cmdtyView. Elaboração: StoneX.

 

O MAIS IMPORTANTE: Repercussões das tarifas americanas – aversão ao risco

Impacto esperado no USDBRL: altista

Após semanas de incertezas sobre a condução das políticas comerciais dos Estados Unidos, o presidente do país, Donald Trump, surpreendeu investidores ao declarar Estado de Emergência Econômica e anunciar a aplicação de pesadas tarifas de importação para praticamente todos os países do mundo. Uma sobretaxa de importação mínima de 10% será aplicada para praticamente todas as economias mundiais a partir de sábado (05), porém terão valores mais elevados para uma lista de 57 países a partir do dia 09 de abril. 

Países afetados pelas tarifas de importação anunciadas em 02 de abril de 2025 pela Casa Branca.

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Fonte: Casa Branca. Elaboração: StoneX.

Há poucas exceções para essas tarifas, como importações do Canadá e do México, importações de produtos energéticos e minerais, importações de segmentos já afetados por outras tarifas, como aço, alumínio e produtos automotivos, e a importação de alguns países com sanções e embargos pelos EUA, como Rússia, Cuba, Coreia do Norte e Líbia. Fora estes casos, as sobretaxas se somam a quaisquer outras taxas e tarifas que já sejam cobradas nas importações do país. Como resultado, a tarifa média efetiva cobrada pelos EUA deve passar de 2,5% para cerca de 22,5%, o maior valor desde 1910.

Tarifa média efetiva de importação pelos EUA (%) 

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Fonte: Yale Data Lab. Elaboração: StoneX.

Uma elevação das tarifas dessa magnitude e em tão pouco tempo terá repercussões importantes para a economia global, reduzindo o volume de comércio global e prejudicando o ritmo de crescimento tanto dos EUA como de seus parceiros comerciais. Os países asiáticos devem ser mais penalizados, justamente por estarem mais inseridos em uma cadeia produtiva global, diversificada e interdependente, especializando-se em exportar mercadorias e insumos outras nações. Adicionalmente, as empresas multinacionais que se utilizam dessa cadeia produtiva globalizada, muitas delas americanas, também serão mais penalizadas.

O objetivo declarado dessa intensificação das barreiras comerciais é fazer com que essas empresas passem a produzir dentro dos Estados Unidos e passem a comprar insumos produzidos dentro dos Estados Unidos. De outra forma, a ideia é verticalizar a produção dentro do país e reduzir a interdependência com outras nações. Mesmo que se admita que esses objetivos serão atingidos no futuro, algo que é incerto no momento, fato é que nem todas as empresas têm capacidade atual de produzir nos EUA os produtos feitos em outras nações, a construção de novas fábricas costuma ser custosa e demorada, a busca por fornecedores locais de insumos dentro das especificações nem sempre é rápida e pode ter um custo mais elevado que o produto anteriormente importado. Como resultado, investidores aprofundaram os temores de uma “estagflação” nos EUA, ou seja, de um aumento da inflação simultâneo a uma estagnação econômica.

Em tese, os países afetados por estas tarifas tem três opções de reação às medidas americanas: retaliar com sobretaxas para produtos dos EUA, como fez a China na sexta passada (04), com potencial de gerar uma “guerra tarifária” global; negociar com o governo Trump para tentar reduzir ou cancelar essas tarifas através de concessões; ou se manter em compasso de espera para avaliar os impactos e aguardar a evolução do tema. Contudo, a forma com que o governo americano escolheu para anunciar essa intensificação das barreiras comerciais dificulta a possibilidade de negociações com esses países. Foi uma mudança brusca, planejada por semanas e repleta de insultos às outras nações, acusadas de “estuprar e saquear” os EUA propositalmente. Além disso, ao anunciar as tarifas, Donald Trump afirmou falsamente que elas foram calculadas para “reciprocidade”, levando em conta quanto os outros países cobravam encareciam a importação de produtos americanos por meio de “tarifas, barreiras não tarifárias e manipulação cambial”. Depois, descobriu-se que o cálculo para essas tarifas foi simplesmente a metade do superávit comercial de cada país frente aos EUA dividido pelo volume de exportações aos EUA, limitado a um mínimo de 10%. Ou seja, essa “reciprocidade” não levou em consideração nenhum imposto ou taxa cobrada pelos países para a importação de produtos americanos, e, sim, buscou punir os países que tinham maior superávit frente aos EUA. A imposição de barreiras significativas sobre quase todas as economias globais por meio de uma fórmula arbitrária mostra pouca seriedade do governo americano e dificulta uma negociação com esses países para tentar chegar a meios-termos e desescalar a situação.

Assim, o principal efeito do anúncio de tarifas pelos EUA é a elevação de temores de uma estagflação americana e recessão econômica mundial, provocando forte aversão ao risco e impulsionando o desempenho de ativos considerados “portos seguros” para momentos de estresse e incerteza, como o euro, o iene japonês e o franco suíço. Da mesma forma, esse cenário tende a prejudicar o desempenho de ativos arriscados, como ações, commodities e moedas de economias emergentes, como o real.

 

Repercussões das tarifas americanas – rotação para fora dos EUA

Impacto esperado no USDBRL: baixista

Um segundo efeito do anúncio de tarifas pelos EUA deve ser uma diminuição do fluxo global de investimentos nos mercados financeiros americanos. Em primeiro lugar, por um movimento de diversificação e diluição de riscos por investidores, que procuram reduzir a exposição de seus portfólios a ativos americanos. Além disso, se os EUA apresentam déficit comercial com a maior parte dos países, ele possui superávit nas balanças de serviços e, principalmente, financeira. Ou seja, boa parte do superávit comercial acumulado pelos países estrangeiros e suas empresas retornava aos EUA na forma de investimentos financeiros e contratação de serviços, como softwares e licenciamento de tecnologias. Por isso, uma diminuição dos superávits comerciais também diminui o potencial de fluxos de capitais para os Estados Unidos, especialmente em um ambiente de hostilidade pelo governo americano. Esses efeitos combinados – a diversificação de patrimônio e a restrição ao acúmulo de superávits pelos países – devem prejudicar o desempenho de ativos americanos e do dólar. Embora uma parcela relevante desses fluxos deva se direcionar aos ativos seguros mencionados anteriormente, parte deles pode se direcionar para ativos arriscados, como ações, commodities e moedas de economias emergentes, como o real, favorecendo seu desempenho.

Por fim, vale mencionar que este novo cenário global de negócios pode beneficiar ativos brasileiros e o real, não apenas pela tendência de enfraquecimento da moeda americana, mas, também, pela percepção de que o Brasil ficou sujeito a uma tarifa de importação (10%) inferior à aplicada aos países do leste asiático, gerando uma espécie de “vantagem comparativa” que pode favorecer suas exportações no futuro e elevar a entrada de divisas no país. Contudo, esse efeito depende de uma recuperação do apetite global por riscos, o que pode não ocorrer no curto prazo.

 

CPI e ata do FOMC

Impacto esperado no USDBRL: baixista

Nesta semana, investidores devem observar a divulgação do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) de março, cuja estimativa mediana aponta para uma alta de 0,1% em março. Contudo, o núcleo do indicador, que exclui os voláteis componentes de alimentação e energia, deve subir 0,3% no mês por conta de indícios de uma demanda mais elevada por bens industriais em antecipação aos impactos de tarifas de importação. Adicionalmente, investidores também devem analisar a divulgação da ata da decisão do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) do Federal Reserve (Fed) de 17 de março, buscando indícios sobre como o banco central americano pode agir após o anúncio das tarifas de importação por Trump. Em comentários na sexta passada (04), o presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou que a imprevisibilidade do ambiente econômico se elevou e alertou para riscos maiores tanto de uma inflação mais persistente quanto de um crescimento mais fraco nos EUA. Esses riscos desafiam a condução da política monetária americana, visto que exigem medidas opostas para seu enfrentamento, ou seja, um banco central costuma aumentar seus juros para conter pressões inflacionárias enquanto costuma reduzir seus juros para estimular uma economia em desaceleração. Na prática, em suas próximas decisões, o Federal Reserve precisará avaliar qual dos riscos é maior ou mais urgente para decidir como proceder. Por um lado, o mercado de trabalho americano continua apresentando resiliência e dinamismo, com taxa de desemprego baixa para os padrões históricos, enquanto o país vem de um histórico recente de inflação persistente e generalizada, sem recuperar totalmente a estabilidade de preços. Por outro, investidores mostram-se bastante pessimistas e preocupados com a possibilidade de uma recessão econômica no país, aumentando suas apostas para quatro cortes de juros em 2025 após o anúncio de tarifas por Trump. Isto, por sua vez, reduz a rentabilidade esperada dos títulos americanos e tende a enfraquecer o dólar globalmente frente a outras moedas, como o real.

EUA: Histórico e expectativa para a taxa de juros – atualizado em 04 de abril de 2025

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Fonte: CME FedWatch Tool. Elaboração: StoneX.   Refere-se à aposta com maior probabilidade no mercado futuro de juros na data indicada.

 

Inflação no Brasil

Impacto esperado no USDBRL: baixista

No cenário doméstico, o foco recai na divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março, cuja mediana das projeções aponta para alta de 0,56%. Se confirmada, essa variação representará desaceleração em relação ao avanço de 1,31% observado em fevereiro, quando o índice atingiu a maior taxa desde maio de 2022 (1,62%), porém resultaria em um acumulado de 12 meses superior a 5%, portanto acima do teto da meta de inflação de 4,5% definido pelo Banco Central. Esse cenário tende a agravar as perspectivas inflacionárias ao longo do ano, reforçando a probabilidade de novas elevações na taxa básica de juros (Selic), o que, por sua vez, tende a tornar os títulos brasileiros mais atraentes, estimulando a entrada de recursos estrangeiros e fortalecendo o real.

 

Atividade econômica no Brasil

Impacto esperado no USDBRL: altista

Ainda no Brasil, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) de fevereiro deve desacelerar seu crescimento mensal de 0,9% em fevereiro para cerca de 0,4% em março. Considerado uma prévia mensal do Produto Interno Bruto (PIB), o IBC-Br de março deve fornecer indicativo relevante sobre o nível de atividade econômica ao longo do primeiro trimestre do ano. Tal avaliação adquire importância destacada após o comunicado da última decisão de política monetária do Banco Central, em que se incluiu novamente a observação de “sinais incipientes” de desaceleração econômica no país. Nesse contexto, o IBC-Br pode influenciar as próximas decisões do BC, visto que a tendência de arrefecimento apontada pelos indicadores recentes pode reforçar a percepção de que a autoridade monetária pode ser mais cautelos em seu ciclo de alta da Selic, o que enfraqueceria o real.

 

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TABELA DE INDICADORES ECONÔMICOS

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Fontes: Banco Central do Brasil; B3; IBGE; Fipe; FGV; MDIC; IPEA e StoneX cmdtyView.
  • Moedas

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