Panorama de câmbio: principais eventos da semana
- Fatores baixistas
- Expansão das vendas do varejo americano de março pode amenizar preocupações de uma desaceleração da atividade econômica, aumentando o apetite por riscos e fortalecendo o real.
- Fatores altistas
- Elevada incerteza e imprevisibilidade da condução das políticas econômicas americanas aprofunda receios de uma recessão econômica global, o que deve estimular a demanda por ativos “portos-seguros” e prejudicar o desempenho do real.
- Escalada das tensões comerciais entre Estados Unidos e China eleva temores de uma recessão econômica global, o que deve estimular a demanda por ativos “portos-seguros” e prejudicar o desempenho do real.
- Envio do Orçamento de 2026 do governo federal pode reforçar preocupações entre investidores com o cenário fiscal brasileiro, aumentando a percepção de riscos de ativos nacionais e enfraquecendo o real.
- Expectativa de corte de juros pelo Banco Central Europeu pode reduzir a perspectiva de rentabilidade do euro e enfraquecer a moeda do bloco, contribuindo indiretamente para um fortalecimento do dólar.
Resumo da semana passada
A semana foi marcada pelos receios de que a imprevisibilidade das políticas econômicas americanas e a “guerra tarifária” entre EUA e China provoquem uma recessão econômica global, resultando em ampla volatilidade e pessimismo nos mercados financeiros globais. Isto, por sua vez, alavancou o desempenho de ativos considerados “portos seguros”, como o ouro, franco suíço e o iene, e enfraqueceu o dólar globalmente.
A taxa de câmbio do real terminou a sessão desta sexta-feira (11) cotada a 5,8703, variação de +0,5% na semana, +2,9% no mês e -5,0% no ano. Já o dollar index fechou o pregão desta sexta cotado a 99,9 pontos, recuo semanal de 3,0%, mensal de 4,1% e anual de 7,6%.
Dólar comercial (US$/R$) e Dollar Index (pontos)

Fonte: StoneX cmdtyView. Elaboração: StoneX.
O MAIS IMPORTANTE: Volatilidade e pessimismo global
Impacto esperado no USDBRL: altista
Desde a posse de Donal Trump como presidente dos Estados Unidos, os mercados financeiros globais passam por expressiva volatilidade por conta do alto grau de incerteza, imprevisibilidade e inconsistência na condução das políticas monetárias americanas. O governo do país promove um ritmo acelerado de mudanças em diversas áreas, incluindo comércio exterior, imigração, política fiscal, política energética, regulamentação dos negócios, diplomacia e estrutura da administração federal. Essas mudanças são feitas por meio de atos do poder Executivo, praticamente desacompanhadas de mudanças na legislação, muitas vezes com a declaração de poderes emergenciais para amparo jurídico, como estado de emergência de segurança nacional e estado de emergência econômica, no maior número de atos executivos em um começo de governo desde 1933.
Número de ordens executivas, memorandos e proclamações substantivas nos primeiros 100 dias de governo

Fonte: The American Presidency Project / University of California, Santa Barbara.
Este ritmo acelerado de mudanças resulta em elevada incerteza e imprevisibilidade sobre os rumos do cenário de negócios e, por si só, é o suficiente para resultar uma postura cautelosa de empresários e investidores, desestimulando a tomada de decisões importantes. Entretanto, essa incerteza e imprevisibilidade são agravadas pela postura inconsistente na aplicação de algumas estratégias. O melhor exemplo vem da aplicação de tarifas de importações sobre outras economias, com sucessivos anúncios, adiamentos, cancelamentos e ameaças não cumpridas neste tópico.
Acompanhamento das tarifas de importação anunciadas pela Casa Branca.

Fonte: Casa Branca. Elaboração: StoneX.
Na semana passada, o governo americano elevou, brevemente, as barreiras tarifárias do país ao maior valor desde 1910, depois, inesperadamente, reduziu todas as tarifas para o patamar mínimo de 10% por 90 dias, com exceção da China, que teve suas sobretaxas elevadas a 145%. Pequim, por sua vez, retaliou com a cobrança de 125% sobre a importação de todos os produtos dos Estados Unidos. Como mencionado no Panorama da semana anterior, uma mudança de tamanha magnitude e em tão pouco tempo deve resultar em um desarranjo da ordem econômica montada nas últimas quatro décadas, com cadeias produtivas globais, especializadas e interdependentes. Não há a capacidade produtiva imediatamente disponível para produção dos bens e insumos importados pelos EUA, investimentos para gerar essa capacidade são custosos e demorados (especialmente para segmentos de alta tecnologia e de produção sob encomenda), a substituição de importações por mercadorias locais pode resultar em custos mais elevados e a perspectiva de demanda está substancialmente mais incerta. É irrealista imaginar que isso pode trazer resultados sem desorganizar as cadeias logísticas globais e resultar em profundos efeitos negativos para a economia mundial. Nesse sentido, um dos argumentos de quem não espera o pior é que os efeitos dessas tarifas seriam tão catastróficos que os Estados Unidos serão forçados a recuar.
Logicamente, a confiança de investidores pode se elevar caso os Estados Unidos estabeleçam novos acordos comerciais com outros países, porém essa possibilidade é prejudicada pela própria imprevisibilidade e inconsistência da conduta do governo americano. A intensificação das barreiras comerciais foi planejada por semanas pela Casa Branca, com uso de uma fórmula arbitrária para penalizar seus parceiros comerciais, detratando-os durante o anúncio. Além disso, as mudanças bruscas de postura da atual administração reduzem a confiança de outros líderes de que os EUA respeitarão qualquer acordo no futuro. Veja-se, por exemplo, que o Brasil já havia chegado a um acordo durante o primeiro mandato de Trump para limitar exportações de aços e alumínio ao país em troca da isenção de tarifas, porém voltou a ser taxado neste segundo mandato.
Como resultado deste ambiente caótico, é provável que o crescimento econômico global será prejudicado, em especial nos Estados Unidos e na China. Adicionalmente, a inflação americana também deve se elevar por conta dos custos mais caros de importação, pelo menos no curto prazo. Por isso, investidores devem manter uma postura de elevada aversão ao risco e busca por ativos considerados “portos seguros”, como o ouro, franco suíço, o iene e o euro, o que tende a enfraquecer moedas de economias emergentes, como o real.
Por fim, vale mencionar que as turbulências provocadas nas últimas semanas pelo governo americano parecem ter provocado uma “crise de confiança” nos ativos americanos e prejudicado sua posição como “portos seguros”, com expressivo enfraquecimento do dólar e rápida elevação das taxas de rendimento dos títulos do Tesouro (Treasuries) mesmo diante de rápida valorização dos demais “portos seguros”.
Variação semanal de moedas selecionadas frente ao dólar (%)

Fonte: StoneX cmdtyView. Elaboração: StoneX.
Vendas do varejo americano
Impacto esperado no USDBRL: baixista
Os indicadores econômicos de março têm trazido boas surpresas sobre a economia americana. Tanto a geração de empregos foi bastante superior ao estimado, como os Índices de Preços ao Consumidor (CPI) e ao Produtor (PPI) registraram uma inesperada deflação e uma alta suave em seus núcleos, que excluem os voláteis componentes de alimentação e energia. Nesse mesmo sentido, espera-se uma recuperação das vendas do varejo no país, passando de um crescimento de 0,2% em fevereiro para 1,3% em março, provavelmente impulsionada por uma antecipação de compras antes do efeito das tarifas de importação sobre os preços. Em outros tempos, dados como esses, de expansão da demanda, resiliência do mercado de trabalho e estabilização inflacionária resultariam em melhora das expectativas de investidores para o dinamismo da economia e impulsionariam ativos arriscados, como o real. Esse efeito, entretanto, tem sido expressivamente atenuado pelo contexto de incerteza e pessimismo elevado, interpretando-se que esses resultados passados não informam adequadamente como a atividade econômica deve se comportar no futuro por antecederem a aplicação de tarifas elevadas e abrangentes pelo governo, no começo de abril.
Dados econômicos e conflito comercial na China
Impacto esperado no USDBRL: altista
Na China, os investidores devem acompanhar a divulgação de uma série de indicadores econômicos ao longo da semana, em meio ao aumento das incertezas quanto à resiliência da economia do país diante da escalada do conflito comercial com os Estados Unidos. O principal destaque será a divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) referente ao primeiro trimestre de 2025, cuja projeção antecipa uma expansão anualizada de 5,2%. Caso confirmado, esse resultado representaria uma leve desaceleração em relação ao crescimento de 5,3% registrado no mesmo período do ano anterior, mas ainda superaria a meta oficial de crescimento estabelecida pelo governo chinês para o ano, de 5,0%. Adicionalmente, investidores se manterão atentos a novas medidas adotadas por Pequim como reação às tensões comerciais contra os EUA, sejam elas retaliatórias ou voltadas à sustentação da atividade econômica, como estímulos fiscais ou monetários. Nesta sexta-feira, o governo chinês sinalizou que, apesar das recentes tensões, não pretende elevar novamente as tarifas sobre produtos norte-americanos, mesmo diante da possibilidade de novas ações unilaterais por parte da Casa Branca, porém reiterou que poderá recorrer a outras formas de retaliação e reafirmou sua disposição de manter o embate comercial “até o fim”. Esse quadro de incertezas pode contribuir para o aumento da aversão global ao risco, o que tende a exercer pressão negativa sobre ativos arriscados, como ações, commodities e moedas de economias emergentes, incluindo o real.
LDO de 2026
Impacto esperado no USDBRL: altista
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou na quinta-feira passada (10) a Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2025, com apenas dois vetos ao texto aprovado pelo Congresso Nacional. O prazo final para a sanção era 15 de abril, mesma data em que deve ser encaminhado ao Legislativo o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026. O cenário fiscal consolida-se como um dos principais pontos de atenção dos investidores no ambiente doméstico, em meio a certo ceticismo dos investidores quanto à real disposição do governo federal em implementar um ajuste fiscal crível e sustentável das contas públicas. Entre investidores, persistem dúvidas quanto à vontade política de reduzir os gastos públicos e elevar o superávit primário, sobretudo diante do atual quadro de desaceleração da atividade e da proximidade do ciclo eleitoral de 2026. Nesse contexto, qualquer sinal de fragilidade na condução da política fiscal tende a ser interpretado de forma negativa pelos agentes econômicos, com possíveis impactos adversos sobre o desempenho do real e sobre a percepção da robustez do ambiente macroeconômico brasileiro.
Decisão de juros do Banco Central Europeu (BCE)
Impacto esperado no USDBRL: altista
Há consenso entre analistas de que o Banco Central Europeu (BCE) deverá reduzir sua taxa básica de juros pela sétima reunião consecutiva na próxima quinta-feira (17), passando de 2,50% a.a. para 2,25% a.a. A decisão deve se fundamentar na melhora nas projeções de inflação para a União Europeia, a desaceleração da atividade econômica e a recente intensificação dos riscos associados à escalada das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos. Na última semana, os riscos associados a uma possível escalada bilateral das tarifas de importação entre os EUA e o bloco europeu foram parcialmente mitigados após a suspensão por de 90 dias da tarifação sobre € 21 bilhões em produtos dos Estados Unidos, como resposta à sinalização de “trégua” parcial emitida pela Casa Branca na quarta-feira (09). Ainda assim, as tensões comerciais entre Estados Unidos e China permanecem elevadas, e a incerteza quanto aos impactos da política comercial americana sobre o crescimento econômico global continua a preocupar os participantes do mercado, que apostam em novos cortes de juros por parte do BCE, o que, por sua vez, tende a enfraquecer o euro e fortalecer o dólar indiretamente.
TABELA DE INDICADORES ECONÔMICOS






