Panorama de câmbio: principais eventos da semana
- Fatores baixistas
- Expectativa de amenização das tensões comerciais entre Estados Unidos e China após encontro em Genebra pode estimular a demanda por ativos arriscados e favorecer um fortalecimento do real.
- Ata do Copom deve reforçar postura mais conservadora do Comitê e reforçar a percepção de que os juros brasileiros permanecerão mais elevados por mais tempo, contribuindo para o fortalecimento do real.
- Fatores altistas
- Expectativa de números mais fortes para inflação e mais fracos para vendas do varejo nos EUA pode elevar temores de uma “estagflação” no país, resultando em maior aversão ao risco e prejudicando o desempenho de ativos arriscados, como o real.
Resumo da semana passada
A semana foi marcada pelas decisões de juros dos bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos, bem como pelo maior alívio nas tensões comerciais globais após os EUA chegarem a um acordo com o Reino Unido e agendarem uma primeira reunião com autoridades econômicas da China.
A taxa de câmbio do real encerrou a sessão desta sexta-feira (09) cotada a R$ 5,6544, variação de 0,0% na semana, de -0,4% no mês e de -8,5% no ano. Já o Dollar Index (DXY) fechou a semana cotado a 100,4 pontos, ganho semanal de 0,4% e mensal de 0,9%, porém recuo anual de 7,1%.
Dólar comercial (US$/R$) e Dollar Index (pontos)

Fonte: StoneX cmdtyView. Elaboração: StoneX.
O MAIS IMPORTANTE: Tendência de amenização das tensões tarifárias entre EUA e China
Impacto esperado no USDBRL: baixista
Na quinta-feira passada (08), o anúncio de um “acordo comercial” entre Estados Unidos e Reino Unido gerou forte otimismo entre agentes do mercado financeiro, o primeiro após o “choque tarifário” da Casa Branca de 02 de abril. Na realidade, apenas foi feito um anúncio conjunto de concordâncias quanto a “termos gerais” que embasarão um futuro acordo entre os países, com mudanças de escopo bastante restrito, a saber, o Reino Unido se comprometeu a reduzir tarifas sobre 2.500 produtos americanos e facilitar o acesso de produtos agropecuários ao seu mercado enquanto os EUA se comprometeram a reduzir a tarifa sobre automóveis britânicos de 27,5% para 10% para as primeiras 100 mil unidades (após essa cota, o valor será de 25%) e zerar as tarifas sobre aço e alumínio do país. Esse otimismo, entretanto, é difícil de ser justificado.
Primeiramente, porque nenhum documento foi assinado até o momento, nem mesmo um “memorando de entendimento” comuns nas primeiras fases de negociações diplomáticas, o que fragiliza os comprometimentos anunciados. Mais importante, o imposto de importação sobre os demais produtos britânicos continuará a ser de 10%, contra uma média de 1,3% em 2022. Observe-se que a Grã-Bretanha se encontra em termos bastante favoráveis para negociar com os Estados Unidos, visto que é um aliado histórico, importante e com boas relações diplomáticas com a Casa Branca, apresenta déficit comercial em relação aos EUA (razão de ter sido atribuída a menor tarifa, de 10%) e não retaliaram a nenhuma medida anunciada pelo governo americano. Além disso, hoje os EUA é destino de menos de 20% dos automóveis exportados e menos de 10% do aço exportado pela Grã-Bretanha. Se os Estados Unidos não reduziram o imposto generalizado de 10% nem mesmo para o Reino Unido (que o presidente do país, Donald Trump, se referiu como “a faixa mais baixa” possível para o imposto), parece mais improvável que outra nação em termos menos favoráveis consiga obter essa concessão. Por isso, a conclusão de muitos analistas após o anúncio é de que as tarifas americanas irão permanecer substancialmente elevadas mesmo se os EUA fecharem mais acordos comerciais, o que deve trazer prejuízos significativos para a economia americana nos próximos meses.
Ainda assim, o anúncio bilateral gerou elevado otimismo entre investidores de que as tensões comerciais podem ser reduzidas antes de 09 de julho, prazo em que se encerra a “pausa” de 90 dias anunciadas pela Casa Branca (nesses 90 dias, todas as tarifas de importação ficarão em 10%). Particularmente, cresceram as expectativas para o primeiro encontro entre autoridades econômicas dos Estados Unidos e China, agendada para este sábado (10) na Suíça. As tarifas impostas entre si (125% pela China e 145% pelos EUA) praticamente inviabilizam o comércio entre elas e estimula estratégias de utilizar outras nações para reexportar seus produtos por tarifas mais baixas. Neste momento, é impossível antecipar quais serão os resultados desta primeira conversa, pois, embora ela demonstre que ambos os países estejam dispostos a se aproximar e negociar, nenhum dos dois tem apresentado publicamente uma postura conciliatória e, habitualmente, negociações comerciais costumam ser complexas e demoradas. Apesar destas ressalvas, o movimento da semana passada sugere que investidores estão esperançosos de que o encontro ajude a reduzir as tensões comerciais entre os dois países e, por isso, antecipa-se que qualquer avanço reduzirá as preocupações de investidores quanto a prejuízos para as economias desses países, o que deve favorecer o desempenho de ativos arriscados, como ações, commodities e moedas de países emergentes, como o real.
Indicadores econômicos americanos
Impacto esperado no USDBRL: altista
Apesar do “choque tarifário” imposto pela Casa Branca a partir de 02 de abril ter resultado em intensa volatilidade nos mercados financeiros, seus impactos prováveis sobre a economia do país ainda não devem se refletir nos indicadores desse mês. Embora indicadores de tendência, como índices de confiança de consumidores e empresários, tenham piorado drasticamente no mês de abril e sugiram que os indicadores econômicos revelarão um enfraquecimento da economia americana nos próximos meses, não se antecipa esse efeito para os números do mês passado. Pelo contrário, qualquer sinal de que os dados de abril contenham distorções ou efeitos da elevação das barreiras comerciais, o que parece improvável, deve elevar consideravelmente as preocupações entre investidores de uma “estagflação” da economia americana.
Após o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) surpreender em março com leituras mais fracas que o esperado, com queda de 0,1% do indicador cheio e alta de 0,1% em seu núcleo, que exclui os voláteis componentes de alimentação e energia, a inflação deve acelerar em abril, com estimativa mediana de 0,3% tanto para o índice cheio quanto para seu núcleo. Adicionalmente, as vendas do varejo de abril devem desacelerar significativamente, passando de uma alta de 1,4% em março para um crescimento discreto de 0,1%. Enquanto o forte desempenho de março foi impulsionado pela antecipação de compras pelos americanos para escapar dos efeitos potenciais de tarifas de importação, essa tendência não deve se repetir em abril e prejudicar o desempenho do indicador. A divulgação de números mais fortes para a inflação americana e mais fracos para a demanda do consumidor, que foi um dos principais pilares do crescimento econômico no ano passado, deve aumentar os temores entre investidores de uma “estagflação” do país e resultar em maior aversão a riscos, prejudicando o desempenho de ativos arriscados como ações, commodities e moedas de países emergentes, como o real.
Ata do Copom
Impacto esperado no USDBRL: baixista
No Brasil, os investidores devem repercutir a divulgação, na terça-feira (13), da ata da última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), em que o Comitê optou por elevar a taxa básica de juros (Selic) de 14,25% para 14,75% ao ano. Tendo em vista que o patamar do ajuste já era amplamente esperado pelos agentes do mercado, o foco recaiu sobre o comunicado que acompanhou a decisão. Embora o Comitê não tenha adotado uma orientação futura explícita (“forward guidance”), o texto destacou a necessidade de “cautela adicional na atuação da política monetária e flexibilidade para incorporar os dados que impactem a dinâmica da inflação”. Além disso, o Copom sinalizou que “a calibragem do aperto monetário apropriado seguirá guiada pelo objetivo de trazer a inflação à meta no horizonte relevante”. Mesmo sem explicitar a possibilidade de novas altas, esses trechos foram interpretados pelos agentes econômicos como uma indicação de postura mais conservadora por parte do BC com relação à necessidade de permanência da Selic em patamar mais elevado, o que reduz as apostas de uma eventual redução da taxa básica no curto prazo. Caso reforce a postura de cautela do Comitê, a ata deve contribuir com a perspectiva de rendimentos mais altos dos títulos denominados em real, o que tende a favorecer a moeda brasileira.
Cabe destacar, por outro lado, que investidores também devem buscar na ata da decisão por sinais a respeito de como o colegiado observa o seu balanço de riscos, especialmente considerando como pretende atuar diante de um cenário com "incipiente moderação no crescimento" da economia. A crescente preocupação com a resiliência da economia em um cenário de juros mais altos tem sido reiterada nas últimas comunicações do Comitê, o que pode atrair atenção adicional. Nesse contexto, a divulgação da Pesquisa Mensal de Serviços e da Pesquisa Mensal do Comércio ao longo da semana serão importantes para que os agentes calibrem suas expectativas para a trajetória da Selic no Brasil.
TABELA DE INDICADORES ECONÔMICOS






