Panorama de câmbio: principais eventos da semana
- Fatores baixistas
- Receios de aceleração do ritmo de endividamento americano pode contribuir para uma fuga de ativos denominados em dólar e, por contraste, favorecer o desempenho das demais moedas, como o real.
- Expectativa de leitura suave para o índice PCE de abril pode aumentar as apostas de cortes de juros pelo Federal Reserve, o que tende a enfraquecer o dólar globalmente.
- Fatores altistas
- Novas ameaças de tarifas de importação pelos EUA aumentam percepção de incerteza e imprevisibilidade da condução das políticas econômicas americanas, o que pode resultar em maior aversão global a riscos e prejudicar o desempenho do real.
- Preocupação com cenário fiscal brasileiro segue elevada após comunicação confusa a respeito do aumento do IOF, o que pode elevar percepção de riscos para ativos nacionais e prejudicar o desempenho do real.
- Leituras mais aquecidas para o PIB e inflação no Brasil podem reforçar expectativa de que o Banco Central manterá a taxa básica de juros (Selic) mais elevada por mais tempo, o que pode favorecer a atração de investimentos externos e fortalecer o real.
Resumo da semana passada
A semana foi marcada por preocupações com o cenário fiscal do Brasil e dos EUA, após a agência de risco Moody’s rebaixar a nota de crédito soberana americana e o governo brasileiro provocar estresse entre investidores ao aumentar inesperadamente as alíquotas de IOF.
A taxa de câmbio do real encerrou a sessão desta sexta-feira (23) cotada a R$ 5,6473, recuo semanal de 0,4%, mensal de 0,5% e anual de 8,6%. Já o Dollar Index (DXY) fechou a semana cotado a 99,1 pontos, variação de -1,9% na semana, 0,4% no mês e 8,3% no ano.
Dólar comercial (US$/R$) e Dollar Index (pontos)

Fonte: StoneX cmdtyView. Elaboração: StoneX.
O MAIS IMPORTANTE: Volatilidade e imprevisibilidade das políticas econômicas americanas
Impacto esperado no USDBRL: altista
Desde a posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, os mercados financeiros globais passam por expressiva volatilidade por conta do alto grau de incerteza, imprevisibilidade e inconsistência na condução das políticas econômicas americanas. O novo governo promove um ritmo intenso de mudanças em diversas áreas, como comércio exterior, imigração, política fiscal, política energética, regulamentação dos negócios, estrutura da administração federal e diplomacia. Este ritmo acelerado de mudanças, por si só, já resulta em elevada incerteza e imprevisibilidade sobre os rumos do cenário de negócios e é o suficiente para resultar uma postura cautelosa de empresários e investidores, desestimulando a tomada de decisões importantes.
Entretanto, a Casa Branca intensifica essa incerteza e imprevisibilidade ao promover estas alterações por meio de atos do poder Executivo, praticamente desacompanhadas de mudanças na legislação, utilizando-se de oito declarações de Estado de Emergência para amparar juridicamente estes atos. Isto, por sua vez, gera maior insegurança sobre a estabilidade dessas mudanças, visto que abre a possibilidade de contestação judicial das medidas, ou que a Casa Branca simplesmente mude de opinião e cancele ou modifique seus atos. Nenhuma área exemplifica melhor essa insegurança do que a postura inconsistente do governo na aplicação de tarifas de importação sobre outras economias, com sucessivos anúncios, adiamentos, cancelamentos, modificações e ameaças não cumpridas neste tópico.
Número de ordens executivas, memorandos e proclamações substantivas nos primeiros 100 dias de governo

Fonte: The American Presidency Project / University of California, Santa Barbara
Essa conduta contraditória na aplicação de tarifas de importação provocou oscilações abruptas nos mercados financeiros, primeiramente com uma profunda aversão global a riscos na imposição do “choque tarifário” na primeira quinzena de abril, seguido por uma recuperação intensa do apetite por riscos ao buscar reverter ou amenizar várias dessas medidas. Com isso, o Dollar Index recuou 4,8% nas primeiras três semanas de abril, seguido de uma valorização de 2,2% nas quatro semanas seguintes.
Porém, essa tendência de amenização das tensões comerciais se encerrou abruptamente na sexta-feira passada (23), quando Trump inesperadamente afirmou que elevaria as tarifas de importação sobre a União Europeia a 50% a partir de 01 de junho por estar frustrado com o progresso das negociações de um acordo com o bloco, além de ameaçar uma tarifa de 25% sobre produtos da Apple se a empresa não nacionalizar a produção dessas mercadorias. As mensagens diferem drasticamente da comunicação da Casa Branca nas últimas semanas, quando parou de exaltar os benefícios pretendidos com as barreiras comerciais e se esforçou para mudar o foco para a possibilidade de novos acordos comerciais e para a intenção de reduzir impostos através de um novo projeto orçamentário. Como resultado, Trump reativou uma sensação de insegurança e imprevisibilidade entre investidores ao mostrar que a incerteza continua elevada para a condução da política comercial americana, visto que os recuos recentes da Casa Branca foram anunciados como temporários, ainda não houve nenhuma formalização de acordos comerciais e, principalmente, não há clareza sobre os objetivos buscados pelo governo nem como as tarifas vão evoluir com o tempo.
Assim, embora o cenário continue incerto e volátil, parece mais provável que as ameaças recentes do governo americano elevem as preocupações entre investidores sobre a possibilidade de uma estagflação nos EUA, provocando aversão ao risco e impulsionando o desempenho de ativos considerados “portos seguros” para momentos de estresse e incerteza, como o euro, o iene japonês e o franco suíço. Da mesma forma, esse cenário tende a prejudicar o desempenho de ativos arriscados, como ações, commodities e moedas de economias emergentes, como o real.
Temores fiscais nos EUA
Impacto esperado no USDBRL: baixista
Na semana passada, um aumento rápido da preocupação com o cenário fiscal americano contribuiu para um recuo generalizado do dólar e para uma fuga dos títulos de dívida pública do país, elevando suas taxas de juros tanto em vencimentos próximos como distantes. O movimento teve início após a agência de classificação de riscos Moody’s rebaixar a nota soberana de crédito dos Estados Unidos, demonstrando apreensão com o aumento da dívida pública americana e com um desequilíbrio fiscal crescente, projetando um déficit de quase 9% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2035, ante estimativa anterior de 6,4%, em 2024. Esses temores fiscais se intensificaram após a aprovação pela Câmara dos Deputados dos EUA do projeto orçamentário do governo Trump. A proposta, que agora segue para apreciação no Senado, propõe, entre outros tópicos, estender cortes de impostos aplicados durante o primeiro termo de Donald Trump, isentar alguns rendimentos de imposto de renda (como gorjetas e horas extras) e ampliar o limite de deduções de impostos estaduais. Embora o governo defenda que tais medidas estimularão o crescimento econômico e, consequentemente, a arrecadação, o que compensaria a diminuição de receita, estimativas independentes indicam que o déficit fiscal deve se agravar, resultando em uma aceleração do endividamento público. Além disso, persiste o temor de que, para mitigar o desequilíbrio fiscal projetado, o governo recorra à redução de gastos sociais, o que poderia gerar efeitos adversos sobre parcelas mais vulneráveis da população. Cabe ressaltar, ainda, que o projeto enfrenta resistências consideráveis, tendo sido aprovado com a diferença de apenas um voto na Câmara e podendo ser modificado pelo Senado. Este contexto de incerteza fiscal e política, dessa forma, pode seguir contribuindo para elevar a percepção de risco associada à economia norte-americana, o que pode resultar em maior enfraquecimento do dólar e, por sua vez, tende a favorecer o real.
Curva de rendimentos dos títulos do Tesouro americano (% a.a.)

Fonte: U.S. Department of the Treasury. Elaboração: StoneX.
Temores fiscais no Brasil
Impacto esperado no USDBRL: altista
No Brasil, investidores devem continuar monitorando notícias sobre o equilíbrio das contas públicas do Brasil, após a taxa de câmbio do real oscilar bruscamente na semana passada por conta de informações incompletas e desencontradas sobre medidas para a área fiscal do governo. Inicialmente, a notícia de que o Palácio do Planalto faria um congelamento de despesas maior que o inicialmente estimado gerou otimismo e impulsionou uma queda da taxa de câmbio. Porém, o vazamento da informação de que o governo aumentaria o Imposto sobre Operação Financeiras (IOF), sem maiores detalhes, gerou forte estresse entre os operadores do mercado financeiro. Esse estresse se intensificou após a equipe econômica organizar uma coletiva de imprensa de forma apressada e sem alinhar as mudanças com outras pastas do governo, gerando repercussões negativas e forçando o governo a desistir da mudança para aplicações de investimentos de brasileiros no exterior. Dessa forma, investidores permanecem cautelosos quanto à possibilidade de novas notícias que reforcem o pessimismo de âmbito fiscal no Brasil, o que resultaria em maior exigência de prêmios de risco e tenderia a enfraquecer o real perante o dólar.
Atividade econômica e inflação no Brasil
Impacto esperado no USDBRL: baixista
Merece destaque, ainda, a série de indicadores econômicos brasileiros a serem divulgados ao longo da semana, com potencial para influenciar as expectativas de investidores sobre a trajetória dos juros no Brasil. O foco deve recair sobre o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2025, cuja estimativa mediana aponta alta de 1,5% frente ao trimestre anterior. Caso confirmada, essa variação indicaria um crescimento da atividade econômica, impulsionado sobretudo pelo bom desempenho do setor agropecuário, principal motor do investimento no trimestre, e pelo consumo das famílias ainda aquecido. Além do PIB, a divulgação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) de maio também será relevante, com expectativa de alta de 0,45% na comparação mensal e de 5,50% na anual, patamar ainda superior ao teto da meta de inflação do Banco Central, de 4,50%, reforçando a visão de inflação resiliente. Se confirmadas as projeções, os indicadores devem corroborar as declarações recentes do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que defendeu a manutenção da taxa Selic em nível restritivo por um período mais prolongado do que o observado em ciclos anteriores. Esse contexto amplia a perspectiva de um diferencial de juros favorável ao Brasil frente a outras economias, o que tende a atrair investimentos estrangeiros e a valorizar o real.
Ata do FOMC e PCE nos EUA
Impacto esperado no USDBRL: baixista
Por fim, os investidores devem manter atenção às divulgações da ata da última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) e do Índice de Preços de Despesas de Consumo Pessoal (PCE) de abril. Considerando que a ata se refere à decisão tomada há três semanas e que os principais componentes que compõem o PCE já foram antecipados pelos índices de preços ao consumidor (CPI) e ao produtor (PPI) de abril, é provável que o impacto dessas divulgações sobre o mercado de moedas seja limitado. No entanto, eventuais surpresas ou informações adicionais relevantes podem alterar as expectativas em relação às próximas decisões.
Em relação à ata, a expectativa predominante é de que o conteúdo reitere o tom do comunicado divulgado após a decisão, reforçando a visão de que o Fed manterá uma postura cautelosa, optando por "esperar para ver" como evoluirão os próximos dados econômicos, bem como as medidas da equipe econômica do governo Trump. Quanto ao PCE, a expectativa é de que o indicador mostre moderação da inflação em abril. Dada sua relevância como a principal métrica monitorada pelo Fed, sua divulgação deve exercer impacto mais significativo do que a ata, podendo, em caso de desaceleração, reforçar apostas em futuros cortes de juros, o que tende a enfraquecer o dólar globalmente e favorecer o real.
TABELA DE INDICADORES ECONÔMICOS






