Panorama de câmbio: principais eventos da semana
- Fatores baixistas
- Ata do Copom e Relatório de Política Monetária devem reforçar tom firme do Banco Central e favorecer a atração de investimentos estrangeiros pelo país, contribuindo para um fortalecimento do real.
- Fatores altistas
- Incerteza ampliada e prolongada quanto às tensões geopolíticas no Oriente Médio, à política tarifária americana e ao equilíbrio fiscal nos EUA podem ampliar aversão global a riscos e estimular demanda por ativos “portos seguros”, o que tende a prejudicar o real.
- Incerteza sobre cenário inflacionário americano e resiliência dos dados de atividade econômica do país podem diminuir apostas de cortes de juros pelo Federal Reserve este ano, o que favorece a atração de investimentos financeiros aos EUA e contribui para o fortalecimento globalmente o dólar.
- Depoimentos de Powell ao Congresso americano pode reforçar postura cautelosa do Federal Reserve e diminuir apostas de cortes de juros este ano, favorecendo a atração de investimentos financeiros aos EUA e fortalecendo globalmente o dólar.
- Moderação do IPCA-15 pode melhorar expectativas inflacionárias para o Brasil e sugerir que o Copom pode ter espaço para cortes de juros mais cedo que o antecipado, prejudicando a atração de investimentos estrangeiros pelo país e enfraquecendo o real.
Resumo da semana passada
A semana foi marcada pelas decisões de política monetária dos bancos centrais do Brasil e dos EUA, em que ambos adotaram uma postura mais cautelosa e sinalizaram que seus juros permanecerão estáveis no curto prazo. Adicionalmente, o aumento das tensões geopolíticas em meio ao conflito entre Israel e Irã impulsionou a demanda por ativos considerados “portos seguros”.
A taxa de câmbio do real encerrou a sessão desta sexta-feira (20) cotada a R$ 5,5265, recuo semanal de 0,3%, mensal de 3,4% e anual de 10,5%. Já o Dollar Index (DXY) fechou a semana cotado a 98,8 pontos, variação de +0,7% na semana, -0,6% no mês e -8,6% no ano.
Dólar comercial (US$/R$) e Dollar Index (pontos)

Fonte: StoneX cmdtyView. Elaboração: StoneX.
O MAIS IMPORTANTE: Incerteza ampliada e prolongada
Impacto esperado no USDBRL: altista
Profundidade alcançada aproximada de bombas destruidoras de bunkers em concreto reforçado (metros)

Fonte: The Royal United Services Institute for Defence and Security Studies. Elaboração: StoneX.
Nas últimas semanas, com exceção dos preços de petróleo, os mercados financeiros em geral, e de moedas em particular, apresentaram uma volatilidade mais baixa e uma flutuação mais contida mesmo com o rompimento de um novo conflito no Oriente Médio. Embora seja provável que essa estabilidade continue ao longo desta semana, é importante destacar que não há fundamentos aparentes para essa estabilidade e que importantes fatores de risco continuam presentes, com potencial de rápida reversão do cenário de negócios.
Primeiramente, reportagens de imprensa especulam a possibilidade de envolvimento direto dos Estados Unidos nos ataques realizados no Irã, e o próprio presidente Donald Trump disse que deve tomar uma decisão “nas próximas duas semanas”. Esse envolvimento seria importante para o objetivo israelense de prejudicar o programa nuclear do Irã, visto que somente os EUA possuem o armamento (GBU-57) capaz de atingir rapidamente o complexo de enriquecimento de urânio subterrâneo de Fordow, com profundidade estimada de aproximadamente 90 metros. Sem nenhum indício de que o conflito possa terminar em um curto prazo, os riscos de prejuízos a estruturas petrolíferas da região e de bloqueios a rotas logísticas estratégicas na região são elevados e possuem o potencial de aumentar a percepção de riscos geopolíticos entre investidores.
Adicionalmente, a incerteza relacionada à política tarifária americana também tem potencial de aumentar a aversão de riscos de investidores. A redução temporária das tarifas de importação para todos os países, com exceção da China, se encerra em 09 de julho, daqui a três semanas. Além disso, no dia 11 de junho, Donald Trump já havia ameaçado aumentar unilateralmente as tarifas de importação para a maioria dos parceiros comerciais americanos “em duas a três semanas” (faltam duas semanas, portanto), uma ameaça que ele já havia feito, mas não se concretizou, em 16 de maio.
Por fim, a Casa Branca reiterou esta semana que deseja ratificar uma nova lei orçamentária até quatro de julho, daqui a duas semanas. Uma proposta para essa lei já foi aprovada pela Câmara dos Deputados do país, mas segue sofrendo bastante resistência entre os senadores republicanos, que possuem apenas três votos a mais que os democratas. Quando o projeto era debatido na Câmara, há algumas semanas, ele aumentou a percepção de riscos fiscais nos EUA, visto que a maioria das análises concluem que o déficit público e o endividamento se acelerarão sob os termos do projeto.
Embora a tendência das últimas semanas tenha sido de enfraquecimento global do dólar em meio a uma redução do peso de ativos americanos nos portfólios de investidores, o que beneficiou o real, parece mais provável que os riscos mencionados acima impulsionem a demanda de ativos considerados “portos seguros” para momento de estresse e imprevisibilidade, como o franco suíço, o iene japonês, o euro e o dólar americano, prejudicando o desempenho do real.
Ata do Copom e Relatório de Política Monetária
Impacto esperado no USDBRL: baixista
No Brasil, cabe destaque à divulgação da ata da decisão da quarta-feira passada (18) do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), em que o Comitê optou unanimemente por aumentar a taxa básica de juros (Selic) de 14,75% a.a. para 15,00% a.a. e simultaneamente sinalizar uma “interrupção” no ciclo de altas. Essa última elevação não era totalmente antecipada pelos investidores, e o Comitê se esforçou para comunicar que os juros deverão ficar estáveis “por período bastante prolongado” enquanto o Copom avalia se “os impactos acumulados do ajuste já realizado, ainda por serem observados, (...) [são] suficiente[s] para assegurar a convergência da inflação à meta”.
Adicionalmente, o Banco Central publicaráo Relatório de Política Monetária do segundo trimestre, o documento mais completo da instituição de análise do ambiente macroeconômico nacional e externo e com projeções para os principais indicadores para os próximos anos. A publicação é seguida de entrevista coletiva do presidente da autarquia, Gabriel Galípolo, e do diretor de política econômica, Diogo Guillen.
Tanto o tom da ata do Copom quanto as falas dos dirigentes do BC devem se mostrar mais firmes em relação ao compromisso da autoridade monetária com o objetivo de estabilização de preços, o que deve consolidar a perspectiva de amplo diferencial de juros do Brasil frente a outras economias e contribuir para a atração de investimentos externos,fortalecendo o real.
Dados econômicos nos EUA
Impacto esperado no USDBRL: altista
Apesar do “choque tarifário” imposto pela Casa Branca em 2 de abril ter elevado as preocupações dos investidores sobre a possibilidade de elevação das pressões inflacionárias e uma desaceleração mais intensa da economia norte-americana, os indicadores divulgados desde então não evidenciam impactos imediatos claros como resposta à mudança na política comercial dos Estados Unidos. Além disso, na decisão de política monetária da última quarta-feira (18), o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, reforçou uma abordagem prudente da instituição, indicando que o momento é de cautela e que será necessário aguardar novos sinais sobre a atividade produtiva e os níveis de preços antes de promover alterações na taxa básica de juros do país. Powell também afirmou que, embora o grau de incerteza sobre o cenário atual ainda seja significativo, ele vem diminuindo gradualmente. Nesse cenário, dados econômicos a serem divulgados nesta semana serão acompanhados atentamente pelos agentes de mercado, especialmente em busca de pistas que possam antecipar os próximos passos da autoridade monetária americana.
No campo inflacionário, o principal destaque da semana será a divulgação do Índice de Preços de Despesas de Consumo Pessoal (PCE) de maio, indicador utilizado pelo Federal Reserve para monitorar a inflação. As estimativas medianas apontam para uma leve aceleração em seu núcleo, que exclui os itens mais voláteis, como alimentos e energia. Além disso, a inflação média anualizada também deve continuar acima da meta de 3,0% definida pelo Fed. Já em relação aos dados de atividade, os investidores estarão especialmente atentos à leitura final do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2025, além dos índices de confiança do consumidor divulgados pela Universidade de Michigan e pelo Conference Board, relativos ao mês de junho. Esses indicadores de confiança são importantes por captarem a percepção da população sobre as condições atuais e as expectativas futuras sobre a economia, por isso, são considerados bons termômetros da atividade. Apesar da forte queda em ambos observada em março e abril, as leituras de maio superaram as projeções de analistas, o que eleva a expectativa pelas divulgações dessa semana. Dessa forma, diante do cenário incerto para a atividade e a inflação ainda elevada no país, é provável que se reforce ao longo da semana a visão de que cortes nos juros podem demorar mais do que o esperado, o que tende a fortalecer o dólar frente a outras moedas, prejudicando o real.
Depoimentos de Powell ao Congresso americano
Impacto esperado no USDBRL: altista
Investidores devem observar, adicionalmente, o depoimento semestral do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, ao Congresso dos Estados Unidos. Em partes, a audiência deve ser palco de críticas por parte de parlamentares, especialmente de aliados do presidente Donald Trump, que devem expressar insatisfação com a manutenção dos juros nos patamares atuais. Desde o início do mandato do presidente republicano, a pressão política por cortes de juros se intensificou, enquanto Trump expressou diversas vezes que defende juros mais favoráveis ao crescimento econômico. Diante desse cenário, espera-se que Powell mantenha a postura cautelosa que tem caracterizado suas últimas comunicações. O dirigente deve reforçar a importância da independência institucional do Federal Reserve, reiterando que as decisões sobre política monetária continuarão a ser guiadas por dados concretos sobre a atividade econômica e a trajetória dos preços. Isto é, Powell deverá sublinhar que qualquer ajuste nas taxas de juros dependerá da evolução dos indicadores, e não de pressões externas ou conjunturais. Nesse sentido, espera-se que seja reforçada perspectiva de manutenção dos juros americanos, o que favorece o rendimento de título do Tesouro americano, favorecendo o dólar globalmente.
Dados econômicos no Brasil
Impacto esperado no USDBRL: altista
Nesta semana, também, serão divulgados indicadores que podem testar as perspectivas para a política monetária do Banco Central. Por um lado, antecipa-se que os dados para o mercado de trabalho no mês de maio continuem vigorosos mesmo diante de um ciclo vigoroso de altas de juros pelo Banco Central. Por outro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de junho se mantenha em patamares moderados e contribuam para uma melhora das expectativas inflacionárias. É provável que a moderação da inflação tenha influência maior que a resiliência do mercado de trabalho, e, dessa forma, investidores possam aumentar suas apostas de que o Copom poderá reduzir juros antes que o antecipado, prejudicando a perspectiva de amplo diferencial de juros brasileiro e enfraquecendo o real.
TABELA DE INDICADORES ECONÔMICOS






