Sem grandes novidades no campo dos fundamentos, o mercado foi suportado pelo balanço de oferta e demanda negativo neste ano-safra associado a expectativa de uma produção menor no próximo ano, o que vem sendo o principal fundamento de longo-prazo de suporte aos preços de café. Além disso, o mercado continua refletindo os problemas logísticos globais, que tem limitado a oferta no curto-prazo, e as questões climática ligadas a ocorrência do La Niña, que gera o risco de agravamento do cenário de déficit global.
No Brasil, todo o cinturão cafeeiro recebeu volumes importantes de chuva, sendo que alguns receberam volumes acima da média para o período. De forma geral, com exceção do estado de São Paulo, cerrado mineiro e Sul da Bahia, todo o cinturão recebeu volumes acima da média, com acumulado entre 350 e 550 mm nos últimos 60 dias. Para os próximos 14 dias, o cenário segue deve seguir favorável, com os modelos de previsão indicando acumulados em torno de 100 para a maior parte das regiões produtoras.
Fonte: StoneX, com dados de NOAA/NCEP/EMC (GFS: Global Forecast System), 2021.
Ao longo das próximas semanas, vários relatórios com as exportações dos países em novembro serão divulgados, com desta para as exportações do Brasil, Vietnã e Colômbia. Os relatórios fornecerão informações importantes com relação ao ritmo de exportação e a condição da crise logística global. Além disso, o mercado continuará de olho na colheita no Vietnã, no clima no Brasil e nos países produtores, além de refletir fatores técnicos, enquanto não surgir fundamentos novos.
Pelo lado da demanda, os avanços das infecções por Covid-19 principalmente na Europa, merece alguma atenção. Nas últimas semanas, alguns dos principais consumidores globais de café tem registrado elevação no número de casos, com a Alemanha, maior consumidor da bebida no continente, registrando recordes de novas infecções diária desde o início da pandemia. A situação tem levado tanto a Alemanha como os países da região a readotarem algumas medidas restritivas. Nos próximos dias, pode inspirar alguma cautela e limitar os avanços de preços a notícia do final da última semana a respeito de uma nova mutação da Covid-19 descoberta na África do Sul, chamada variante ômicron. Apesar de ainda não haver informações conclusivas sobre o dano potencial da nova variante, países como Itália, Alemanha, Reino Unido, Bélgica e República Tcheca confirmaram casos com a variante, o que eleva o risco de uma eventual readoção de medidas restritivas mais rígidas e redução da circulação de pessoas em restaurantes, bares e cafés.
Cotações de café robusta avançam
O contrato de janeiro/22 do café Robusta registrou alta de 2,8% no comparativo semanal na última sexta-feira em meio à força no complexo de Arábica após os estoques certificados de café Arábica registrarem uma queda total de 174.324 sacas. Os estoques de robusta também continuam diminuindo, com aproximadamente 1,82 milhão de sacas relatadas na sexta-feira, em meio aos níveis mais baixos desde outubro de 2020. A queda refletiu a dificuldade contínua em adquirir Arábica da origem em meio a uma mistura de fundamentos de alta em torno do mercado de arábica. Isso inclui relatos de inadimplência nas vendas futuras no Brasil, bem como em outros grandes exportadores, como a Colômbia. Além disso, o mercado continua a contornar os problemas de obtenção de contêineres e navios para embarcar café ao redor do mundo e, embora as taxas de embarque tenham apresentado uma tendência de queda nas últimas sessões, as tarifas de frete continuam muito altas. Apesar disso, o Baltic Dry Index caiu para seus níveis mais baixos desde meados de junho deste ano.
Do ponto de vista técnico, o contrato de janeiro registrou uma tendência constante de alta ao longo do mês passado, reverberando entre a banda de Bollinger superior e sua média móvel de 20 dias. Desde o fechamento da semana passada, o contrato de janeiro permaneceu marginalmente abaixo da faixa superior, permanecendo abaixo deste indicador no início desta manhã. O RSI de 14 dias continua cerca de 8 pontos abaixo de condições de sobrecompra, sugerindo espaço para uma maior alta técnica. A forte queda do dólar americano junto com o sentimento de alta no mercado de café pode sugerir a manutenção de fatores altistas esta semana, contrastando com a liquidação ampla ocorrida na sexta-feira da semana passada, impulsionada por preocupações com a descoberta de uma nova variante da Covid-19. A Organização Mundial da Saúde afirmou no domingo que os primeiros casos da nova variante resultaram apenas em sintomas “leves”. O contrato de janeiro começou o dia em alta de 0,9% cotado a USD 2.328/t.
Contrato de novembro/21 do café robusta com bandas de bollinger
Fonte: Bloomberg. Elaboração: StoneX.
O Escritório Geral de Estatísticas do Vietnã estimou as exportações de café em novembro em 78 mil toneladas (1,3 milhão de sacas), queda de 6,9% no comparativo anual. Os dados da alfândega mostraram as exportações de outubro em 99.249 toneladas (1,65 milhão de sacas). Isso indicaria um aumento de 1,2% no ritmo dos embarques acumulados para 2021/22, embora os dados alfandegários finais para novembro ainda não tenham sido divulgados e possam mostrar números diferentes dos do GSO. A colheita continua a progredir, embora as chuvas continuem a causar problemas de atrasos, com modelos meteorológicos mostrando chuvas acima da média esperadas para novembro e dezembro no final tardio da estação chuvosa. Embora os atrasos forneçam suporte aos preços, não devem ser descartados os maiores volumes de café disponíveis no Vietnã nesse período do ano, devido à redução nas exportações e problemas logísticos que resultaram em estoques maiores.
segunda tela do café robusta
Fonte: Bloomberg. Elaboração: StoneX.
Apesar dos fundamentos de forma geral mais altistas para o dólar no mercado internacional, a moeda americana recuou 0,3% na última semana frente ao real, com o par real/dólar encerrando cotado a R$ 5,596. Em função da falta de grandes novidades no campo dos fundamentos para o mercado de café, o recuo da taxa de câmbio contribuiu para suportar a continuidade da trajetória altista da commodity por mais uma semana.
Já o dollar index marcou leve avanço semanal de 0,1%, permanecendo acima dos 96 pontos, maior patamar desde julho de 2020. Entre os principais fatores que tem levado ao avanço do indicador nas últimas semanas, os números de desempenho setorial e do mercado de trabalho melhores que o esperado nos Estados Unidos tem indicado que a maior economia do mundo pode estar se aproximando do “progresso substantivo” almejado pelo Federal Reserve. Na última quarta-feira (24), o Departamento de Estatísticas do Trabalho (BLS) revelou que foram realizadas 199 mil novas solicitações de auxílio-desemprego no país, o menor número desde 1969, quando foram feitos 197 mil pedidos. O resultado significativamente menor que as expectativas reforça um cenário de demanda aquecida e recuperação econômica a pleno vapor, no entanto, também da indícios de que a inflação pode continuar em níveis elevados.