Já o café robusta seguiu sua segunda semana consecutiva em queda, com os preços sendo pressionados pelos sinais de maior disponibilidade do café no Vietnã, com a colheita perto do seu encerramento e com a aproximação do ano novo lunar no país, e por sinais técnicos de liquidação de posições compradas por fundos, após terem atingido máxima histórica na semana encerrada em 4 de janeiro. O contrato mais ativo do robusta (março/22), recuou USD -88 (-3,8%) para encerrar a semana cotado a USD 2228/ton, menor valor desde o final de novembro. Já o indicador CEPEA para o café robusta terminou a semana cotado a R$ 827,92/saca, praticamente estável.
Os indicativos de uma colheita considerada bem-sucedida no Vietnã, apesar das dificuldades com as chuvas e falta de trabalhadores em determinados momentos, e o aumento da oferta do grão nas últimas duas semanas, tem contribuído para pressionar os preços do robusta. No primeiro mês do ano, as exportações no Vietnã tendem a se intensificar, com os produtores e o comércio vietnamita de maneira geral tentando aumentar seus ganhos para o ano novo lunar (Tet), feriado mais importante do ano para o país, que ocorrerá no início de fevereiro. Desta maneira, o aumento da oferta, sem a contrapartida de um aumento em intensidade semelhante da demanda pelo café robusta dos principais parceiro comerciais do país, têm sido um dos fatores de pressão sobre os preços nas últimas semanas.
O mercado de arábica continua aguardando por novas informações acerca da produção brasileira e acompanhando o clima nas regiões produtoras do país. Apesar do consenso de que a temporada 2022/23 não apresentará o potencial produtivo esperado devido aos diversos eventos climáticos que prejudicaram as lavouras no último ano, o clima no início de 2022 continua fator fundamental para amenizar as perdas da safra. Volumes de precipitação adequados nos primeiros meses do ano, onde as plantas se encontram em período de granação dos frutos, garantiria uma boa produtividade das lavouras pouco danificadas pelo clima seco e geadas, reduzindo o potencial de queda da produção.
O modelo de previsões climáticas da StoneX aponta para volumes de cerca de 50mm a 90 mm nos próximos 7 dias nas regiões do sul de Minas, Cerrado e Mogiana, com projeções de chuvas mais intensas no final da semana. A perspectiva é de que os volumes se intensifiquem na última semana do mês em todas as regiões produtoras de café arábica.
histórico e previsão de precipitação (mm) nas regiões produtoras de café
Fonte: StoneX, com dados de NOAA/NCEP/EMC (GFS: Global Forecast System), 2021.
A expectativa do mercado é pela divulgação de novas estimativas nos primeiros meses de 2022 que tragam novas informações sobre as condições da safra, o que deve ajudar os agentes a “recalibrarem” suas expectativas. No atual momento, já é possível averiguar as lavouras que obtiveram sucesso nas etapas de pegamento e expansão dos frutos, o que ajuda auxiliar no grau de precisão das estimativas. Nesta terça-feira (18), a Conab divulgará a primeira versão de suas estimativas para a temporada brasileira de 2022/23. A equipe de café do Brasil da StoneX encontra-se atualmente realizando o estudo a campo, onde passará por todas as principais regiões produtoras de café do país. Na primeira quinzena de fevereiro será divulgado o relatório especial do giro de safra, junto das estimativas oficiais da StoneX para a próxima safra.
Nesta segunda-feira (17), serão divulgados os dados das exportações brasileiras de dezembro pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Os números preliminares de exportação já apontaram para um recuo em dezembro – de acordo com a Secex, as exportações de café em dezembro totalizaram 3,4 milhões de sacas e foram 18,4% inferiores ao observado em dezembro do ano anterior. Além dos números oficiais do Cecafé, será importante acompanhar no relatório como o Conselho tem observado a evolução dos problemas logísticos que tem prejudicado os embarques nos últimos meses, e é possível esperar por alguma melhoria nos próximos meses.
A Colômbia também passa por preocupações de um rendimento aquém do esperado em 2021/22. Os impactos do La Niña por dois anos consecutivos em período fundamental da colheita principal do país têm causado impactos negativos na produção. De acordo com a Federação Nacional dos Cefeteros (FNC), no ano fiscal de 2021, o país produziu 12,6 milhões de sacas, queda de 9,3% frente às 13,89 milhões produzidas em 2020 e menor valor desde 2014, quando a Federação estimou uma produção de 12,14 milhões de sacas. As 12,6 milhões ficaram abaixo das projeções da própria FNC, que esperava entre 13 e 13,5 milhões de sacas.
produção de café na coLômbia por ano fiscal (milhões de sacas)
Fonte: FNC. Elaboração: StoneX.
Uma manutenção das preocupações com os dois principais produtores globais de café arábica tende a continuar dando suporte para que os preços de maneira geral continuem mantendo os patamares mais elevados observados no último ano.
Estoques certificados seguem em queda
A queda dos estoques certificados também continua sendo fator de preocupação para o mercado de café de maneira geral, e contribuiu para favorecer as cotações nos últimos pregões. Na semana passada, a ICE NY registrou em seus estoques certificados uma redução de 97.466 sacas, cerca de -6,5%. Desde o início do ano, as perdas acumulam mais de 132 mil sacas, ou variação de -8,6%. Com a variação, as cerca de 1,409 milhões de sacas chegaram aos seus menores volumes em pouco mais de um ano, já ficando abaixo dos mínimas registradas em 2021.
Evolução dos estoques certificados de café arábica na ICE NY
Fonte: ICE/NY. Elaboração: StoneX.
O atual problema que o mundo enfrenta com os gargalos logísticos afetando grande parte do comércio global, com estoques baixos, falta de navios e contêineres prejudicando o fluxo de diversas mercadorias, parece estar longe de ser completamente resolvido. No caso do café, a falta de navios e contêineres e o congestionamento nos portos continua sendo um grande problema tanto para os exportadores como para os principais consumidores. O tempo de percurso desde o embarque até o desembarque para os Estados Unidos, por exemplo, passou de semanas para meses, o que tem comprometido a disponibilidade de café no curto-prazo para a indústria no principal consumidor global, assim como em outras regiões produtoras.
Desta maneira, parte dos agentes continuam optando pelo recebimento dos estoques certificados pela ICE como alternativa para suprir os problemas de oferta do café no curto-prazo. Dos estoques que tem sido retirado, nota-se também que o recuo de café com origem em Honduras tem ocorrido de maneira mais lenta, enquanto a retirada de cafés brasileiros vem ocorrendo de maneira mais intensa.
Conforme comentamos no último relatório semanal de café, o crescimento da certificação de estoques brasileiro ocorreu devido a uma retração dos diferenciais, o que durante um período, tornou muito rentável para os produtores entregarem seu café na bolsa.
Se os diferenciais se enfraquecem em comparação com o preço da bolsa de Nova York, ou seja, se houver desvalorização do café numa determinada região, faz sentido que o exportador compre o produto e o entregue à bolsa para certificar. Entretanto, quando os diferenciais são mais fortes, o produtor ganha mais vendendo café FOB em vez de entregá-lo na bolsa.
Atualmente, os diferenciais nas principais praças brasileiras seguem em patamares relativamente atrativos, variando entre US₵-30/lb e US₵-40/lb, níveis significativamente baixos se comparados com a média dos últimos 3 anos. Todavia, a menor disponibilidade de cafés nos padrões de qualidade exigidos pela bolsa, a forte elevação dos curtos dos fretes e os transtornos para conseguir entregar o café nos armazéns da bolsa no prazo necessário, tem atuado nos últimos meses para desincentivar a certificação de novos cafés brasileiros pela bolsa.
evolução da Composição dos estoques certificados da ICE NY por país
Fonte: ICE/NY. Elaboração: StoneX.
Desde meados de dezembro, Honduras ultrapassou o Brasil e seus cafés voltaram a ter a maior participação nos armazéns da ICE. O atual cenário de elevados preços FOB e problemas logísticos indica uma tendência de que o café com origem brasileira continue recuando nas próximas semanas e que haja poucas entregas de café oriundo do Brasil, com perspectiva de que os grãos vindos de Honduras voltem a predominar como participação majoritária na composição dos armazéns.