Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
Na terça-feira (15), os futuros do trigo seguiram tendência de alta, com ganhos sobre o contrato de março/22 na CBOT (US¢ 1.154,2/bu) em relação a sessão principal anterior. O movimento de alta foi sustentado tanto pela continuidade do conflito entre Rússia e Ucrânia, quanto por problemas climáticos nas planícies do sul dos EUA, uma vez que o trigo de inverno está hibernando e a seca se aprofunda, o que pode atingir o tamanho da safra.
Na quarta-feira (16), os mercados futuros de trigo nos EUA abriram em forte queda, com a Bolsa de Chicago, contrato de maio/22 encerrando a sessão principal cotado a -7,6% que em relação a sessão anterior, com fechamento de US¢ 1.069,25/bu. Este movimento refletiu o otimismo com o possível progresso nas negociações de cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia. Apesar da variação negativa nos preços, é necessário ponderar que esta variação não atingiu patamares maiores pois existe a possibilidade de redução da oferta russa com destino a ex-países soviéticos, segundo anúncio do próprio país.
Sob a ótica da demanda, a China chamou atenção ao decidir comprar arroz como substituto para a ração animal, tendo em vista que os preços seguem em níveis elevados.
Na sessão seguinte, de quinta-feira (17), o trigo foi impulsionado pelo pronunciamento do presidente da França, Macron, que recebeu foco ao pontuar sua preocupação com a escassez de alimentos na União Europeia por causa das perspectivas de redução de exportações da Rússia e Ucrânia. Além disso, o Conselho Internacional de Grãos (IGC, na sigla em inglês) reduziu drasticamente os números de exportação da Ucrânia em meio ao fechamento de portos do Mar Negro, o que levaria a uma queda de 24% no comércio internacional para a safra 2021/22, uma vez que a Rússia continua a destruir a infraestrutura da Ucrânia e sitiar suas cidades. O contrato de maio/22 fechou a US¢ 1.098/bu (+ US¢ 28,75/bu), na CBOT.
Outro fator que contribuiu para a tendência foram as previsões meteorológicas de curto prazo para a região sul das Grandes Planícies em um cenário de melhora do solo, mas que, no longo prazo, indica uma expectativa de padrão de La Niña que implica em 50% da produção de trigo de inverno sob condição de seca.
Vale ressaltar o resultado mais uma vez abaixo das expectativas para a vendas semanais de trigo dos EUA (ano comercial atual, 2021/22). De acordo com o USDA, 145,930 mil toneladas foram vendidas, na semana encerrada no dia 10 de março. No comparativo semanal, a variação foi de uma redução de 47,5%.
Vendas de Exportação Semanais - EUA (mil toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Na última semana, os futuros do trigo na bolsa de Paris alternaram ganhos e perdas, reagindo ao noticiário da guerra na Ucrânia: quando avanços diplomáticos aconteciam, os contratos se desvalorizavam; em momentos de recrudescimento do conflito, as cotações subiam. No encerramento da semana, o contrato para maio/22 ficou cotado a EUR 361,75/t.
Além da questão dos preços, algumas perspectivas importantes foram atualizadas. A importante consultoria Strategie Grains estimou que a guerra diminuirá as exportações da região do mar Negro em 11 milhões de toneladas. Frente a isso, a aposta é que as vendas da União Europeia para fora do bloco alcançarão 32,5 milhões de toneladas, um acréscimo de 6,6%. Em sua última divulgação, a Comissão Europeia revelou que 20,3 milhões de toneladas já foram exportadas no ano safra atual. Os principais destinos são Argélia (14,2%), China (9,7%) e Egito (9,1%).
Outra atualização importante foi feita pelo FranceAgriMer, ministério francês de agricultura. Ele divulgou que 92% da safra de inverno do país está em condições ótimas ou boas, porcentagem bastante expressiva. No mesmo período, no ano passado, esse valor era de 87%. Portanto, continuam as perspectivas de alta qualidade para o trigo europeu.
Por fim, as cooperativas agrícolas alemãs divulgaram sua primeira estimativa para a safra 2022/23. Elas esperam que sejam produzidas 22,6 milhões de toneladas na Alemanha, volume 6% maior que o da safra anterior.
Intraday | Preço contínuo – Paris (EUR/tonelada)
No dia 13 de março, domingo, autoridades russas e ucranianas fizeram as avaliações mais positivas até então sobre o progresso nas negociações diplomáticas entre as duas nações. Pelo lado da Ucrânia, o negociador Mykhailo Podoliyak, assessor da presidência, afirmou em um vídeo que “a Rússia já está começando a falar de maneira construturiva”. Pelo lado russo, o negociador Leonid Slutsky, presidente do Comitê de Assuntos Internacionais da Duma, declarou que “esse progresso pode evoluir nos próximos dias para uma posição conjunta de ambas as delegações, para documentos a serem assinados”.
Depois dessas declarações, existiam fortes expectativas para a quarta rodada de negociações entre os países, marcada para segunda-feira (15). Entretanto, de maneira anticlimática, a reunião foi pausada logo depois de se iniciar, não tendo sido explicado o motivo do adiamento. As conversas foram reiniciadas na terça, mas mais uma vez foram adiadas. Depois disso, representantes ucranianos afirmaram que as negociações eram muito complicadas e que haviam contradições fundamentais nas posições dos países, o que jogou um banho de água fria nos analistas que previam o início das negociações pela paz.
De modo geral, essa foi a dinâmica ao longo de toda semana. Alguns dias, parecia que um acordo de paz poderia estar no horizonte, com russos e ucranianos afirmando que as tratativas haviam avançado. Quando isso acontecia, os futuros do trigo caíam nas bolsas de Chicago e Paris. De um instante para o outro, entretanto, os diplomatas davam um passo atrás, declarando má vontade e exigências absurdas vindas do outro lado. Nesses dias, a cotação do trigo saltava.
Assim, depois dos adiamentos da rodada de negociações na segunda e na terça-feira, os ânimos voltaram a ficar positivos na quarta. Como mencionado, o movimento decorreu de declarações de autoridades russas e ucranianas que apontavam para um possível cessar-fogo e uma solução diplomática do conflito. Pelo lado da Ucrânia, destaque para a fala do presidente Volodymyr Zelenski, que disse que seu país tinha que aceitar que não se tornaria membro da Otan, um aceno para o objetivo russo de impedir a entrada de um aliado histórico nessa organização. Pelo lado da Rússia, chamou a atenção os comentários do ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov. Ele afirmou que haviam acontecido avanços nas negociações, existindo algumas sobreposições de interesses e com ambos lados dispostos a abrir mão de algumas exigências. Ademais, ele comentou que o estabelecimento de uma Ucrânia neutra poderia ser uma solução, aos moldes do que aconteceu com a Áustria depois da Segunda Guerra Mundial.
Na quinta, entretanto, o mercado voltou a precificar altas nos grãos. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou que Vladimir Putin era um criminoso de guerra, declaração que foi muito mal recebida pelo alto escalão do governo russo. O Kremlin divulgou uma nota afirmando que tal afirmação era inaceitável e imperdoável e logo depois anunciou que os relatos de avanços nas tratativas com a Ucrânia eram falsos. Assim, mais uma vez a paz voltou a ficar distante.
Na sexta, o dia foi mais morno, não acontecendo grandes divulgações acerca das relações diplomáticas entre os dois países eslavos. O mercado acabou interpretando de maneira positiva esse silêncio, voltando a precificar nos futuros do trigo um possível descalonamento do conflito. Assim, essa semana de altos a baixos se encerrou com mais uma inversão no sentido dos preços. De modo geral, a guerra segue cercada de incertezas, o que mantém o mercado de trigo atuando de maneira bastante volátil.
Nos campos de batalha, a guerra seguiu a todo vapor, com os soldados atuando de maneira alheia aos avanços e recuos nas tratativas diplomáticas. Os russos apertaram o cerco sobre três importantes cidades: Kiev, a capital; Kharkiv, segunda maior da Ucrânia; e Mariupol, importante região portuária. Os bombardeios sobre a terceira, especialmente, vem comovendo a comunidade internacional.
Especificamente sobre o mercado de trigo da Rússia e Ucrânia, existem fortes incertezas e desinformação desde o início da guerra. Os países pararam de divulgar dados de exportação, até porque praticamente nenhuma mercadoria deixa os portos da região. Sobre as perspectivas para a colheita da safra de inverno e plantio da de primavera, as condições climáticas estão adequadas, mas não se sabe ainda como a escassez de mão de obra e insumos afetará a produção.