No dia 17 de maio, o trigo encerrou o dia com a cotação mais alta da sua história na bolsa de Paris: EUR 438,25/t. Desde então, entretanto, essa commodity vinha se desvalorizando, primeiro pressionada pela possibilidade do estabelecimento de um corredor de exportações no mar Negro e depois pela perspectiva de uma recessão global. Na semana passada, que compreendeu os dias entre 4 e 8 de julho, tal tendência seguiu sendo dominante nos primeiros dias de negociação.
A partir de quinta-feira, entretanto, ocorreu uma brusca reversão no sentido dos preços. Frente à queda de mais de 25% em menos de dois meses, se tornou dominante a interpretação de que a recente desvalorização havia sido excessiva. Com os investidores voltando a focar nos fundamentos, os contratos foram impulsionados pelos problemas nas safras norte-americanas, europeias, argentinas e indianas, assim como pela firme demanda. Assim, o contrato com vencimento em setembro/22 encerrou a semana cotado a EUR 357,00/t, uma valorização de 6,7%.
Voltando as atenções especificamente para a safra da União Europeia, recentemente uma notícia da Reuters ganhou bastante repercussão. Nela, a agência de notícias revelou que uma pesquisa junto a treze diferentes instituições resultou em uma estimativa média de produção para o bloco econômico de 125,7 milhões de toneladas de trigo soft. O resultado está de acordo com os valores levantados pela Comissão Europeia (125,0 milhões) e pela consultoria Strategie Grains (124,4 milhões) e abaixo das 130 milhões esperadas inicialmente.
Essa redução nas expectativas de produção se relaciona com os problemas climáticos enfrentados por países como França, Espanha e Itália. Nesta última semana, o ministério da Agricultura francês revelou mais um corte no percentual de trigo do país em condições ótimas/boas. Agora, 63% das lavouras do país se encontram sob essa condição; no início de abril, eram 92%.
Além das condições de safra, o ministério da Agricultura francês também divulgou que já foram colhidos 14% dos hectares plantados com trigo no país. Esse percentual representa um adiantamento significativo na comparação com o ano passado. No mesmo período, em 2021, apenas 1% da área de produção havia sido colhida.
Sobre as exportações, vale dizer que estão encerradas as do ciclo 2021/22. No total, 27,47 milhões de toneladas deixaram os portos da União Europeia, volume superior ao registrado em 2020/21 (25,71 milhões), mas significativamente inferior ao registrado em 2019/20 (34,76 milhões). Fazendo uma retrospectiva, as vendas começaram o ano-safra bastante aceleradas, registrando volumes próximos de 3,0 milhões de toneladas em agosto e próximos de impressionantes 4,0 milhões em setembro. A partir daí, entretanto, as exportações perderam ritmo, registrando volumes menores que o dos últimos anos no restante do ciclo. A perspectiva de aceleração a partir do início da guerra na Ucrânia não se concretizou. Vale dizer que nas próximas semanas devem ocorrer correções no número final de exportações, mas que o total não deve ir muito além das 28,0 milhões de toneladas.
Para 2022/23, o mercado está otimista. Neste mês de julho, geralmente um período de baixo volume de embarques, os exportadores contam com alguns fatores que podem impulsionar as vendas. Em primeiro lugar, a desvalorização do euro, que se encontra no nível mais baixo dos últimos vinte anos na comparação com o dólar. Em segundo, a recente queda nos preços do trigo, detalhada nos primeiros parágrafos desta sessão. E, por fim, o adiantamento da colheita na França.
Essas boas perspectivas foram amparadas pelo fato de que o Egito agendou a aquisição de 63 mil toneladas a partir da Alemanha. Negociações no mercado de trigo entre esses dois países são bastante incomuns. Ademais, há relatos de que o Marrocos deve adquirir grandes volumes a partir da França, já que sua safra doméstica sofreu com problemas climáticos.
No agregado de 2022/23, a Comissão Europeia estima exportações recordes de 38,0 milhões de toneladas. Entretanto, já em 2021/22 esse órgão superestimou as vendas da UE, levando alguns analistas a duvidar dessa projeção. Entre outros, são apontados os problemas nas lavouras e a competição da maciça safra russa como fatores que podem resultar em vendas menos significativas.