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Risco de Geadas no Agro: o que 55 anos de dados climáticos revelam

By: Liderança Inovadora, Liderança Inovadora

Geada à Vista? O que os dados de 55 anos revelam sobre os riscos para o Agro

Eventos extremos como secas (meteorológicas, hidrológicas e por relâmpagos), ondas de calor ou frio, deslizamentos, enchentes, alagamentos e geadas têm causado impactos marcantes na produção agropecuária do Brasil. Esses eventos geram custos diretos e indiretos significativos, além de instabilidade nos mercados, refletindo-se nos preços dos produtos.

Entre esses fenômenos, as geadas se destacam pelo impacto imediato sobre o metabolismo das plantas, principalmente nas espécies tropicais cultivadas próximas ao limite de suas zonas climáticas ideais. A intensidade e a duração da geada influenciam diretamente a produtividade e o sistema produtivo como um todo. De acordo com as condições meteorológicas e os tipos de dano observados, o impacto sobre sistemas produtivos como cana-de-açúcar e café pode ser classificado conforme a tabela a seguir:

Tipos de geada, condições e danos nas culturas de café e cana-de-açúcar

*Parcialmente reversível: a planta pode se recuperar com redução moderada na produtividade. **Irreversível: danos permanentes nos tecidos ou estruturas, com impacto severo na produção

Neste boletim especial, abordamos o porquê as geadas afetam tanto as lavouras e quais são os prejuízos potenciais para duas culturas estratégicas do centro-sul do Brasil: café e cana-de-açúcar. Após essa análise inicial e diante da preocupação gerada por previsões de temperaturas mínimas abaixo de 5 °C — especialmente em função de eventos recentes —, passamos a examinar, com base em dados diários observados de alta resolução (1970 a 2024), os seguintes pontos:

  • Quais municípios produtores têm maior probabilidade de registrar ao menos um dia por ano com temperaturas mínimas abaixo de 5 °C;
  • A severidade térmica, em termos da fração de dias com temperatura abaixo de 5 °C em relação ao total de dias analisados.

Cana-de-Açúcar: Impactos na Produção e Pós-Colheita

A produção de cana-de-açúcar no Brasil está concentrada no Centro-Sul, que abriga cerca de 90% da área plantada nacional. O estado de São Paulo lidera com cerca de 70% da área dessa região, seguido por Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Paraná.

Historicamente, destaca-se a geada de 1975 na região de Piracicaba e, mais recentemente, os eventos de julho de 2021, que afetaram cerca de 1 milhão de hectares — sendo 500 mil apenas em São Paulo.

Como mostrado na tabela, temperaturas próximas a 0 °C provocam queima de folhas, morte de gemas apicais e laterais, interrupção do crescimento, redução da qualidade industrial (ATR) e perda de produtividade (TCH). Um dos impactos mais graves está na necessidade de colheita imediata: após a geada, é preciso colher rapidamente, mesmo que a cana ainda não esteja no ponto ideal, o que compromete fortemente o rendimento.

Temperaturas abaixo de 10 °C já representam estresse térmico, com risco elevado abaixo de 5 °C — mesmo sem geada visível. Em áreas de maior altitude, baixa umidade do solo e com variedades sensíveis, o impacto pode ser significativo.

Na safra 2021/22, a produtividade já vinha em queda devido à estiagem. Com as geadas e, posteriormente, incêndios em agosto, a quebra foi ainda maior. A moagem final ficou em 524,1 milhões de toneladas — cerca de 60 milhões abaixo da expectativa inicial de 580 milhões.

Impacto nos Preços

Em maio de 2021, estimava-se uma moagem de 568 milhões de toneladas e produção de 35,7 milhões de toneladas de açúcar. Ao fim da temporada, a perda foi de 44 milhões de toneladas de cana e 3,7 milhões de açúcar. Isso elevou os preços dos derivados: o etanol hidratado atingiu sua máxima nominal histórica em abril de 2022, acima de R$ 4,20/litro, frente aos R$ 3,50/litro em maio de 2023.

No mercado externo, o impacto foi semelhante: o episódio de 2021 causou aumento de R$ 400/tonelada nos preços médios de exportação (+27% em seis meses). A valorização compensou parte das perdas, com recuperação estimada entre R$ 0,5 e R$ 1,5 bilhão, em valores líquidos.

Medições históricas de frio extremo nas regiões produtoras de cana no Brasil: probabilidade de ocorrência (A) e proporção de dias frio intenso (B) ao longo de 55 anos

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Fonte: Brazilian Daily Weather Gridded Data (Xavier et al., 2022). Elaboração: StoneX

De modo geral, regiões canavieiras localizadas no noroeste do Paraná, sudeste de Mato Grosso do Sul e sul de São Paulo apresentam alto risco de frio intenso, com mais de 90% de chance (indicadas em azul na Figura A) de registrarem, pelo menos uma vez por ano, temperaturas abaixo de 5 °C.

Também há áreas com risco semelhante no extremo leste do Triângulo Mineiro, no centro de Minas Gerais e em partes do oeste de Goiás.

Já a Figura B mostra com que frequência esse frio acontece ao longo dos anos. Ela indica a proporção de dias com temperaturas abaixo de 5 °C entre 1970 e 2024. Nas áreas em tons esverdeados, essa frequência é baixa: mesmo com chance alta de geada em algum momento do ano, o número médio de dias frios por ano é de cerca de 7 dias. No entanto, o dado não mostra se esses dias ocorrem seguidos ou de forma espalhada ao longo do ano.

Café: Impactos Históricos e Recentes

A cultura do café já foi severamente afetada por geadas ao longo da história, especialmente o café arábica. A geada negra de 1975 marcou a produção nacional, reduzindo drasticamente a produção no Paraná — então maior produtor do país. Hoje, Minas Gerais ocupa essa posição, com condições geográficas que oferecem maior proteção, mas não eliminam o risco.

Eventos marcantes:

1975: queda de 22,8 para 9 milhões de sacas em 1976 (−60%);

1985: de 30,6 para 10,4 milhões em 1986 (−66%);

1994: de 24,5 para 14 milhões em 1995 (−42%);

2013: perdas superiores a 10%;

2021: geada mais severa desde 1994.

Em 2022, o potencial de produção era de 50 milhões de sacas, mas foram colhidas apenas 39,8 milhões, cerca de 20% abaixo do esperado. Isso teve impacto direto nos preços internacionais.

Por outro lado, é importante ressaltar que plantas de café arábica expostas a temperaturas abaixo de 10 °C, especialmente por períodos prolongados, sofrem estresse por frio (ou estresse térmico), o que compromete a produção, a qualidade e o vigor da planta — mesmo sem a ocorrência de geada visível.

Entre os efeitos mais relevantes, destaca-se a redução da fotossíntese, pois a planta entra em um estado de “hibernação metabólica”, limitando o crescimento vegetativo, a formação das gemas florais e, em casos de frio durante a florada, favorecendo o abortamento floral. No entanto, esse tipo de dano é bastante difícil de quantificar.

Impacto nos Preços

A relação entre geadas e preços é clara:

1977: após a geada de 1975, o preço saltou de 80 para 308 centavos de dólar/libra-peso (+280%);

1985: de 140 para mais de 250 centavos/libra;

1994: de 90 para mais de 200 centavos/libra;

2021: de 160 para 230 centavos/libra entre junho de 2021 e início de 2022.

Medições históricas de frio extremo nas regiões produtoras de café no Brasil: probabilidade de ocorrência e proporção de dias frios (<5 °C) ao longo de 55 anos

Fonte: Brazilian Daily Weather Gridded Data (Xavier et al., 2022). Elaboração: StoneX

Uma parte importante da produção de café arábica no Brasil está localizada em áreas de maior altitude, onde o frio é mais frequente. Nessas regiões, o risco de ocorrência de temperaturas mínimas abaixo de 5 °C é alto, chegando a mais de 95% em algumas localidades. Os dados mostram que as maiores probabilidades estão concentradas no sul de Minas Gerais, especialmente nos municípios de Piranguinho, Brazópolis, Bueno Brandão, Poços de Caldas, Carmo de Minas, Conceição da Pedra, Pedralva, Cristina, Baependi, Caldas, Natércia e Espírito Santo do Dourado. Todos esses municípios apresentam, em média, 98% de chance de registrar ao menos um dia por ano com temperatura abaixo desse limite.

Na região da Zona da Mata mineira, os municípios de Alto do Caparaó e Espera Feliz também apresentam alta probabilidade, enquanto Araponga e Sericita têm risco mais localizado, geralmente em áreas mais elevadas. Fora de Minas Gerais, o frio também representa um fator de atenção em partes do Paraná, com destaque para os municípios de Cianorte, Ivaiporã, Jardim Alegre e Apucarana. Em São Paulo, os municípios de Águas da Prata, Divinolândia, São Sebastião da Grama, São Antônio do Jardim e Caconde também apresentam risco elevado de frio anual.

Além da chance de ocorrência, os dados analisados indicam quantos dias com esse tipo de frio costumam acontecer por ano. Em municípios como Cristina, Poços de Caldas e Caldas, a média é de 18 a 25 dias por ano com temperaturas mínimas abaixo de 5 °C. Em outras regiões, a média é mais baixa, com cerca de 7 dias por ano. No entanto, os dados não indicam se esses dias frios ocorrem de forma contínua ou se estão espalhados ao longo do ano.

Considerações finais

Temperaturas mínimas abaixo de 5 °C ocorrem ao menos uma vez por ano em grande parte do centro-sul do Brasil. No caso da cana-de-açúcar, as áreas produtoras de Mato Grosso apresentam maior chance de registrar temperaturas próximas de 5 °C, ainda que com frequência ocasional, estimada em cerca de 7 dias por ano.

Por outro lado, nas áreas produtoras de café em regiões de altitude no extremo sul de Minas Gerais, o risco de frio intenso (temperaturas abaixo de 5 °C) é mais elevado. Em termos de frequência, estima-se que possa haver até 18 dias por ano com temperaturas mínimas abaixo desse limite, embora isso ocorra apenas em locais específicos. Em outros municípios com alta probabilidade, a ocorrência tende a ser mais pontual, com médias de aproximadamente 7 dias por ano.

Por fim, é importante destacar que os danos causados pelas temperaturas mínimas e a intensidade dos eventos de frio dependem fortemente de fatores microclimáticos, como a topografia do terreno e a posição da lavoura (baixadas, encostas, etc.), além de condições locais como a umidade da superfície (vegetação e solo). Também influenciam fatores climáticos de grande escala, como os fenômenos El Niño/La Niña e a Oscilação Antártica, que interferem de forma significativa nas condições do tempo no Brasil.

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