Perspectivas de aumento na produção da safra 2022/23 podem inverter cenário de queda observado em 2021/22
A venda de açúcar para o mercado externo no acumulado da safra 2021/22 alcançou cerca de 25,9 milhões de tonelada, sendo 22,9 milhões de açúcar bruto e 2,9 milhões de açúcar branco, que corresponde a uma redução de 19% na comparação com o ciclo anterior. O açúcar branco apresentou uma queda de 30%, enquanto o açúcar bruto uma diminuição de 17%.
Os impactos climáticos, como a falta de chuvas e fortes geadas, prejudicaram o andamento da safra de cana-de-açúcar em todo o Centro-Sul, que apresentou a menor moagem dos últimos 10 anos, de aproximadamente 525 milhões de toneladas, registrando redução de 13% em relação à safra passada.
Assim como a moagem, o ATR – Açúcar Total Recuperável e o TCH – Tonelada de Cana por Hectare, também registraram queda. O ATR médio, quando comparado com a safra 2020/21, apresentou baixa de aproximadamente 1,5% e o TCH de cerca de 14%.
Quando observado os resultados da safra 2020/21 em relação à safra 2019/20, nota-se aumentos expressivos nas exportações de açúcar e etanol, com ganhos na ordem de 70% e 53%, respectivamente. Contudo, esse cenário se inverteu na safra 2021/22, influenciado principalmente pela queda da produtividade na safra, redução da oferta interna e a antecipação da entressafra em algumas usinas da região Centro-Sul, que colaboraram para o aumento do preço do açúcar no mercado doméstico.
EXPORTAÇÕES DE AÇÚCAR BRUTO E BRANCO (MILHÕES DE TONELADAS)
Fonte: ComexStat. Elaboração: StoneX.
Em relação ao mercado de etanol, o Brasil exportou na safra 2021/22 cerca de 1,77 bilhão de litros, o que corresponde a uma redução de 39% em relação à safra passada. Assim como o açúcar, a queda é influenciada pela limitação da produção na temporada e pela restrição da oferta doméstica.
Além da baixa produção que influenciou a redução nas exportações, a queda do volume de compras estrangeiras também gerou impacto na oferta nacional, visto que diante da taxa de câmbio elevada as importações vindas dos EUA apresentaram uma queda de 46% em relação ao ciclo anterior, acumulando um volume de 229 milhões de litros. Já o Paraguai, a segunda maior origem de importação, apresentou uma queda mais sutil, de apenas 2%, mantendo os patamares de 150 milhões de litros comercializados do biocombustível.
Importações de etanol (milhões de m3)
Fonte: ComexStat. Elaboração: StoneX.
Como trazido em análise recente, o mix açucareiro no Centro-Sul ainda carrega uma série de incertezas para esta safra 2022/23 e, consequentemente, pode afetar diretamente as perspectivas de produção e exportação de açúcar. Os preços dos combustíveis se encontram em forte escalada e podem incentivar a oferta de etanol por parte das usinas daqui para frente, cenário corroborado principalmente pela valorização do petróleo no mercado internacional, desde o ano passado.
Para a produção da cana em si, o ritmo de chuvas acima da média ao longo do último trimestre no Centro-Sul brasileiro aponta para boas condições de umidade de solo, na média, para a região, sendo assim um fator positivo para este início de ciclo. Essa regularidade, observada também no final de 2021, contribuiu para o desenvolvimento dos canaviais, os quais serão colhidos a partir de meados de abril. Na última Estimativa de Safra da Equipe de Açúcar e Etanol da StoneX, divulgada em março/22, o ATR médio ficou estipulado em 140,7 kg/t e o mix açucareiro, em 45,5% - 0,5 pontos percentuais à frente do número estimado para a safra 2021/22.
Seguindo essas variáveis e estimando um TCH médio em 73,4 toneladas/hectare, o relatório trouxe a expectativa de que se produzam 34,5 milhões de toneladas de açúcar no Centro-Sul na temporada 2022/23, alta anual de 7,5%. Nesse aspecto, os preços da commodity no mercado internacional e o avanço esperado de 7,6% na moagem da cana favorecem o adoçante. Em março, as fixações de açúcar para exportação referente ao ciclo 2022/23 estavam bastante avançadas, registrando 76% da produção fixada na ICE/NY, contra 70% no mesmo período do ano anterior.
Nesse sentido, as exportações de açúcar até o final da nova safra podem, certamente, ser beneficiadas por uma maior perspectiva produtiva, citada anteriormente, e pelo grande comprometimento de vendedores com o fornecimento futuro do produto. No entanto, é importante ressaltar que a moeda brasileira valorizou mais de 15% frente ao dólar no primeiro trimestre de 2022, fato que tende a tornar as mercadorias do Brasil mais caras no comércio global, assim desincentivando nossas exportações. Outros pontos ficarão no radar do mercado, especialmente no que diz respeito à incerteza que ainda existe no quanto da cana será destinada, de fato, à fabricação do adoçante e do biocombustível.
Nos últimos meses, a dinâmica do mercado de combustíveis pode ser importante para potenciais revisões nos números do mix açucareiro. O petróleo continua sustentado e nos maiores patamares desde 2014com o Brent operando próximo a US$ 100/barril. Os conflitos entre Rússia e Ucrânia e déficits produtivos em outras regiões do mundo trouxeram importantes fatores altistas ao setor, que deve continuar monitorando esses pontos daqui para frente. Contudo, a pandemia da Covid-19 avança na China, podendo desacelerar sua recuperação no consumo de combustíveis, no geral, e existem rearranjos do lado da oferta acontecendo em outras praças, como a liberação de barris das Reservas Estratégicas nos Estados Unidos – dois agentes baixistas para o mercado do óleo bruto.
No geral, o setor sucroenergético se depara, desde fevereiro, com um aumento significativo das cotações do etanol hidratado. Quando observamos a paridade entre o #11 em NY e o hidratado com base em Ribeirão Preto, a partir do último terço de março, existe um favorecimento do combustível em relação ao adoçante. Quando olhamos a trajetória, é clara a tendência acelerada de alta no etanol, e isso pode fazer com que o mercado revise o mix produtivo nas usinas nos próximos meses captando um possível maior direcionamento da cana para a fabricação do biocombustível – assim, podendo diminuir, mesmo que marginalmente, a produção de açúcar e, consequentemente, menos dessa commodity estará disponível para embarques no ciclo 2022/23.