Sem grandes novidades em termos de fundamentos, a semana foi relativamente calma para as movimentações nas bolsas de Nova Iorque e Londres. O mercado de café segue pressionado devido aos impactos e as incertezas ligadas ao conflito armado que está acontecendo entre a Rússia e a Ucrânia, como já foi abordado em edições anteriores deste relatório. A possível queda no consumo global, puxada principalmente pelos países envolvidos, deve seguir como principal preocupação do mercado de café enquanto o confronto persistir.
Nas próximas duas semanas, as atenções estarão voltadas aos dados das exportações dos países, principalmente do Brasil, que poderá indicar os primeiros impactos da guerra nas exportações de café. A Rússia é o sexto maior destino das exportações brasileiras de café e contabilizou 233,6 mil sacas em janeiro e fevereiro 2022, postando um avanço de 14,4% se comparado com 2021, de acordo com o último relatório do Cecafé. A expectativa é que os dados de exportação de março já comecem a apresentar os impactos da guerra nas exportações brasileiras para o país.
Como já foi comentado em edições anteriores, apesar deste cenário ainda incerto, outros fatores altistas ainda estão presentes no atual contexto, com a menor produção no Brasil, a perspectiva de balanço de O&D mais apertado, o excesso de chuva na Colômbia e a possibilidade da manutenção do cenário de La Niña nos próximos meses.
Com relação às estimativas para a produção brasileira, recentemente o banco Holandês Rabobank atualizou suas estimativas para a produção brasileira de café em 2022/23. Em sua última publicação, o banco reduziu suas estimativas para a produção brasileira para 64,5 milhões de sacas, queda de 3% com relação a estimativa anterior, que era de 66,5 milhões de sacas – na última atualização a produção de café arábica foi estimada em 41,4 milhões de sacas e de robusta em 23,1 milhões.
Está é a terceira atualização para as estimativas do banco, que havia estimado a produção em 63,5 milhões de sacas no início de novembro do ano passado, depois, dentro do mesmo mês, alterou a estimativa para 66,5 milhões de sacas. Apesar do recuo, esta é a maior estimativa disponível no mercado, com a menor estimativa pertencendo à Conab, com 55,7 milhões de sacas. Portanto, a diferença entre a maior e a menor estimativa ainda é de 8,8 milhões de sacas, o que traz incertezas e contribui para uma maior volatilidade. A StoneX estima uma produção brasileira em 58,9 milhões de sacas, sendo 38,3 de café arábica e 20,6 de café robusta.
Estimativas para a produção brasileira de café (milhões de sacas)
Nas últimas semanas, o avanço nos estoques certificados tem sido um fator adicional que tem contribuído para pressionar os preços de café nos mercados futuros. Desde meados do ano passado até fevereiro deste ano, os estoques certificados de café arábica apresentaram uma forte queda, quando caiu de volumes próximos a 2,2 milhões de sacas, para menos de 1 milhão de sacas em fevereiro. Porém, nas últimas semanas os estoques certificados reverteram sua tendência e estão avançando – desde o início do mês de março, os estoques avançaram mais de 146 mil sacas (14,7%).
Estoques certificados de café arábica (mil sacas)
Fonte: ICE. Elaboração: StoneX.
A grande questão com este cenário, é que as condições mercadológicas ainda não são favoráveis para a certificação de café por parte dos países produtores, devido aos diferenciais não atrativos e aos elevados custos de frete, além da baixa disponibilidade de cafés com padrão de qualidade exigido pela bolsa, no caso do Brasil. Portanto, a grande pergunta é de onde está vindo este café que está sendo certificado. Muitos analistas e traders acreditam que os cafés que foram certificados recentemente são os mesmos cafés que foram retirados dos estoques certificados alguns meses atrás, caracterizando assim um processo de recertificação. Caso seja este o cenário, este processo deverá perder fôlego já que, como foi dito, as outras variáveis são desfavoráveis para incentivar o processo de certificação de novos cafés por parte dos países de origem.
Nas próximas semanas, como foi apresentado, o mercado de café estará de olho nas divulgações do Cecafé para as exportações brasileiras. Ainda para esta semana, serão divulgados os dados das exportações do Vietnã, que devem sair nos próximos dias e os dados de produção e exportação da Colômbia, que devem indicar a dimensão dos impactos do excesso de chuva causado pelo La Niña. Além disso, as cotações de café deverão reagir às movimentações macroeconômicas e do câmbio, além das notícias com relação a situação da guerra na Ucrânia. Ademais, os agentes ficarão de olho nas questões climáticas e na atualização das probabilidades de manutenção ou não do La Niña nos próximos meses. Nesta terça-feira (29), a agência Australiana BOM atualizará suas projeções para o fenômeno climático, com a agência americana NOAA programada para atualizar suas estimativas no dia 14 de abril.
Dólar segue forte queda no ano e dá suporte às cotações de café
A forte queda do dólar no mercado cambial brasileiro contribuiu como importante fator de suporte às cotações de café, principalmente em Nova Iorque, na última semana. A divisa americana engatou sua quarta semana consecutiva em retração, com o par real/dólar registrando uma variação semanal de -5,4%, terminando a última sexta-feira (25) cotado a R$ 4,747. No ano, a moeda já acumula uma queda de 14,8% frente ao real. Em contrapartida, o dollar index avançou 0,6% para terminar cotado a 98,8 pontos, refletindo a apreensão dos agentes com os efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia sobre as economias globais e busca por ativos considerados portos-seguros, o que, por sua vez, tende a afastar os especuladores das apostas em novas altas do café.