• Cotações globais de café recuam com temor de recessão
• Nova York tem queda semanal de 3,8%, para US¢ 365,07/lb
• Londres recua 4,2%, a USD 5.112/ton
• Dólar sobe 1,4% na semana, cotado a R$ 5,84
• Robusta cai mais de 13% no mercado físico brasileiro
• StoneX reduz projeção da safra brasileira 25/26 para 64,5 milhões de sacas
• Colheita da safra 25/26 começa de forma pontual e deve ganhar ritmo em abril
• Exportações brasileiras crescem 5,2% em março, segundo a Secex
Os preços do café terminaram a semana em queda, em meio à mudança no cenário macroeconômico após o anúncio de novas tarifas pelos Estados Unidos. Além disso, a aproximação da colheita no Brasil também atuou de forma baixista para as cotações. Um dos principais fatores foi o sentimento de aversão ao risco que tomou conta do mercado após o presidente americano Donald Trump anunciar tarifas sobre produtos de vários países. O Brasil, por exemplo, foi taxado em 10%, mesmo percentual aplicado à Colômbia. A Indonésia foi taxada em 32% e o Vietnã em 46%. Economistas temem que a imposição dessas tarifas leve a uma recessão econômica global, e esse sentimento resultou em uma liquidação generalizada nas bolsas.
Ainda no contexto dessa mudança macroeconômica, um dos destaques foi a movimentação dos preços na sexta-feira. Em Nova York, por exemplo, o mercado de café caiu mais de 5% no dia, o que corresponde a uma perda de 1.955 pontos. Essa queda também esteve associada à forte valorização do dólar na mesma sessão. Na sexta-feira, 4 de abril, o dólar encerrou o dia com alta de 3,78%, cotado a USDBRL 5,84. Vale lembrar que a cotação do dólar em relação ao real possui correlação inversa com os preços futuros do café no exterior.
Em Nova York, o contrato mais ativo terminou a semana com queda de 3,8%, cotado a US¢ 365,70/lb. Em Londres, o contrato mais ativo também caiu, com recuo de 4,2%, fechando a USD 5112/ton. Já o dólar encerrou a semana com valorização de 1,4%, cotado a USDBRL 5,84.
Intraday semanal (contrato mais ativo) – 31/03 a 04/04

No mercado doméstico brasileiro, o cenário foi um pouco diferente. O indicador Cepea para o café arábica permaneceu praticamente estável, com leve variação negativa de 0,1%, cotado a pouco mais de R$2.508 por saca. Esse movimento indica que, apesar da queda nas bolsas internacionais, a alta do dólar contribuiu para sustentar os preços internos do arábica. Além disso, a redução esperada na produção da safra 2025/26 continua dando suporte às cotações.
Por outro lado, o café robusta apresentou um recuo expressivo. O indicador Cepea para o robusta registrou queda de mais de 13% na semana, encerrando a R$1.718 por saca. Essa queda está associada ao forte aumento da produção brasileira de robusta, conforme já apontado pelas estimativas da StoneX, além do início pontual da colheita, que também exerce pressão sobre os preços no mercado interno.
Na última semana, em 2 de abril, a StoneX divulgou sua atualização para a estimativa da safra brasileira de café 2025/26. Após visitas às principais regiões produtoras entre janeiro e março de 2025, a consultoria reduziu em 3,3% sua projeção para a produção de arábica, passando de 40 para 38,7 milhões de sacas — uma queda de 13,5% em relação à safra 2024/25. Já para o café robusta, a estimativa foi elevada em 0,8%, chegando a 25,8 milhões de sacas, o que representa um crescimento de quase 22% em comparação com o ciclo anterior. Com isso, a produção total de café no Brasil foi ajustada para 64,5 milhões de sacas em 2025/26, redução de 1,7% frente à estimativa anterior e queda de 2,1% em relação à safra passada.
Um dos destaques no caso do arábica foi a expressiva redução da produção no estado de São Paulo, que teve sua estimativa revisada para baixo em 7,3%, totalizando 4,6 milhões de sacas. As demais regiões produtoras de arábica também apresentaram retração, como o Sul de Minas, Matas de Minas e o Sul do Espírito Santo. No caso das Matas e do Espírito Santo, os fatores predominantes foram a bienalidade negativa e os impactos do clima.
Já para o robusta, o destaque foi o aumento da produção no Espírito Santo e na Bahia, favorecido pelas boas condições climáticas e pelo uso da irrigação. Rondônia, por outro lado, sofreu uma queda de quase 26% na produção devido às adversidades climáticas. Caso esse estado não tivesse enfrentado tais problemas, a produção nacional de robusta poderia ser ainda maior. O relatório completo está disponível no Portal de Inteligência de Mercado: Pesquisa de Safra de Café no Brasil 2025/26.
Estimativas StoneX para a produção de café (milhões de sacas)

Fonte: StoneX.
Outro ponto de grande repercussão na semana foi a imposição de tarifas pelos Estados Unidos. Conforme destacado no relatório da StoneX, a aplicação de tarifas de 46% sobre o Vietnã e de 32% sobre a Indonésia poderia abrir espaço para o aumento das exportações brasileiras de café robusta. No entanto, o governo vietnamita já iniciou negociações com os Estados Unidos para tentar reverter a medida, demonstrando disposição para eliminar as tarifas de sua parte. O desfecho dessas negociações ainda é incerto e poderá impactar de forma significativa o mercado global de café.
Além das tarifas, um fator que tem dado suporte aos preços futuros é o cenário logístico, com dificuldades nas exportações de café. O acompanhamento dos dados de embarques é essencial para entender este aspecto. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o Brasil exportou 3,65 milhões de sacas em março, um crescimento de 5,2% em relação ao mesmo mês de 2024. Os dados oficiais do Cecafé ainda não foram divulgados e estão previstos para a tarde do dia 9 de abril.
Além das exportações, o foco do mercado agora se volta para o avanço da colheita da safra 2025/26. A safra de café 2025/26 deve começar por volta do dia 20 de abril na maioria das regiões produtoras de arábica e nas áreas de conilon. Devido à uniformidade no desenvolvimento dos grãos e ao avanço das fases fenológicas, favorecido pelas boas condições climáticas a partir de outubro, a colheita será antecipada em relação ao padrão habitual. Em algumas regiões mais quentes, ou que, por fatores climáticos, apresentaram floradas mais precoces, já há relatos de colheita em andamento. No entanto, esse avanço ainda é pontual e ocorre em áreas isoladas.
A expectativa é de que a colheita se intensifique nos próximos dias e, caso não haja chuvas que atrapalhem o ritmo dos trabalhos, já em maio devemos observar bons volumes de café da nova safra chegando ao mercado. A qualidade dos grãos colhidos nesta temporada tende a ser significativamente superior à da safra passada, especialmente em relação ao tamanho dos grãos. Isso tende a aliviar, ao menos no curto prazo, a atual restrição de oferta.
Evolução do ritmo de colheita no Brasil nos últimos anos

Fonte: StoneX e Conab. Elaboração: StoneX.
Por fim, outro fator importante a ser monitorado é o clima. Apesar de ainda estarmos a certa distância do inverno, as previsões meteorológicas deverão ser acompanhadas de perto, especialmente quanto ao risco de geadas, que podem impactar significativamente a produção e os preços. O cenário macroeconômico global, por sua vez, continuará sendo um elemento de grande relevância, com destaque para as incertezas em torno das tarifas norte-americanas, os desdobramentos sobre o comércio internacional e a volatilidade dos mercados.
TABELA DE INDICADORES



