Café volta a reagir a fundamentos e recua na semana
- Altista
- Petróleo segue pressionando complexo de commodities;
- Riscos de disrrupções logísticas no fluxo de embarcações pelo Mar vermelho;
- Safra menor e restrições nas vendas fortalecem diferenciais de café arábica no Brasil no curto prazo.
- Baixista
- Projeções de safra recorde no Brasil;
- Desenvolvimento positivo das lavouras e clima regular no Brasil;
- Projeções positivas para volumes do Vietnã e Indonésia em 2025/26;
- Pesquisa reforça consenso do mercado de superávit e preços menores em 2026.
Segunda-feira estende movimento de queda
A última semana foi marcada por correções nos preços futuros de café. Após ganharem alguma tração em meio às altas do petróleo e do complexo de commodities, além das incertezas trazidas pela guerra no Oriente Médio, os futuros de café voltaram a reagir às perspectivas mais favoráveis para a oferta, à medida que o clima segue positivo nas principais áreas produtoras do Brasil e do Vietnã.
Arábica: O contrato maio encerrou a semana cotado a US¢ 304,7/lb na bolsa de Nova Iorque, com desvalorização de 2,6%. Após as correções no petróleo observadas no início da semana abrirem espaço para que o mercado voltasse a olhar para os próprios fundamentos, os preços do café passaram a corrigir parte das altas registradas nas duas semanas anteriores.
O último relatório da CFTC mostrou um aumento das posições líquidas compradas dos fundos, de 10.601 para 15.941 lotes até o dia 24, o maior nível desde o fim de janeiro, o que abriu espaço para realizações de lucro por parte dos investidores especulativos. Adicionalmente, na última sexta‑feira, a Cooxupé, maior cooperativa de café do Brasil, informou que espera um crescimento de 12% na oferta proveniente de seus cooperados neste ano em relação ao anterior, reforçando o cenário de maior disponibilidade esperado para os próximos meses.
Robusta: O contrato equivalente registrou retração semanal de 1,9%, encerrando cotado a US$ 3593/t. Os preços do robusta também passaram por correções técnicas após o avanço observado nas duas semanas anteriores. Embora ainda haja relatos de produtores vietnamitas segurando suas vendas, os importadores passaram a recorrer com maior intensidade à originação via Indonésia e Brasil para suprir parte de suas necessidades, o que contribuiu para pressionar as cotações.

Fonte: CmdtyView. Elaboração: StoneX.
Mercado físico: O indicador Cepea do café arábica encerrou a semana cotado a R$ 1.947,9/saca, retração semanal de 0,8%. Já o indicador do café robusta registrou leve avanço de 0,3%, encerrando a R$ 1.016,6/t.
Nesta segunda‑feira: O mercado iniciou a sessão registrando nova retração significativa em ambas as bolsas, com desvalorizações de 2,9% para o café arábica e de 4,8% para o café robusta. Na ausência de novidades relevantes, o cenário positivo pelo lado da oferta segue pesando sobre os preços. Por outro lado, vale destacar que os riscos de uma escalada do conflito no Oriente Médio — e de uma eventual nova disrupção no fluxo de embarcações pelo Mar Vermelho, após a entrada do grupo paramilitar Houthis, do Iêmen, no conflito — ainda parecem não estar sendo precificados pelos agentes de mercado.
Pesquisa aponta consenso de balanço mais confortável e preços menores em 2026
A Agência Reuters divulgou uma pesquisa com participantes do mercado de café que reuniu as principais expectativas para produção, balanço e preços em 2026.
Em detalhes: A pesquisa apresenta a mediana das projeções dos analistas consultados, oferecendo uma visão do consenso geral do mercado:
- Arábica: a mediana indica preços encerrando o ano em US¢ 225/lb, nível cerca de 35% inferior ao fechamento de 2025 e 25% abaixo do patamar registrado na última sexta‑feira.
- Robusta: projetado em US$ 2.500/t, o que representa uma retração de 36% em relação ao fim de 2025 e de 30% frente ao fechamento da semana passada.
- Brasil: a mediana para a safra brasileira é estimada em 74 milhões de sacas, um aumento de 10 milhões em relação à temporada anterior. Vale lembrar que a StoneX estima produção de 75,3 milhões de sacas, com crescimento de 13 milhões frente à safra passada.
- Vietnã: a pesquisa aponta produção de 31 milhões de sacas na atual temporada, número estável em relação ao ciclo anterior.
- Balanço global: a mediana indica um superávit de 8,7 milhões de sacas em 2026/27, após um excedente de 1 milhão de sacas na temporada passada.
Por que isso importa: A pesquisa reforça o consenso de que, diante de uma produção global maior em 2026, os preços do café tendem a recuar até o fim do ano. Caso essa visão não seja contrariada por dados de colheita ou exportações ao longo dos próximos meses, o mercado tende a operar com um viés mais baixista, especialmente quando comparado aos preços médios observados em 2025.
Por fim, vale destacar que a StoneX divulgará na primeira metade de abril o relatório de balanço global de café para 2026, no qual apresentará sua visão atualizada sobre as principais variáveis que podem impactar o mercado mundial, incluindo estimativas de produção, demanda e saldo global para este ano.
Entrada do grupo Houthis no conflito do Oriente Médio desperta lembranças de crise logística no mercado de café
Conforme destacado no Resumo Semanal de Petróleo da StoneX, divulgado nesta segunda‑feira (30), ao longo do fim de semana o grupo Houthis, do Iêmen, voltou a lançar mísseis contra Israel, com o governo israelense confirmando a interceptação pela defesa aérea do país. A movimentação dos Houthis, no entanto, reacendeu uma preocupação mais ampla em relação à possibilidade de retomada dos ataques contra embarcações que transitam pelo Mar Vermelho — cenário semelhante ao observado em novembro de 2023.
Por que isso importa: enquanto o Estreito de Ormuz representa uma passagem estratégica para o escoamento de petróleo e gás no mundo — especialmente em direção às potências asiáticas —, o Estreito de Bab el‑Mandeb é crucial para o fluxo de mercadorias, sobretudo entre a Ásia e a Europa. Nesse sentido, vale relembrar alguns dos principais desdobramentos da participação dos Houthis no conflito Israel‑Hamas e seus impactos, em especial sobre o mercado de café:
- Novembro/2023: os Houthis, em apoio ao Hamas, iniciam ataques a Israel e a embarcações que transitavam pelo Mar Vermelho.
- Dezembro/2023: as principais companhias marítimas passam a cancelar embarques pelo Mar Vermelho. Os custos de seguro disparam, e parte das embarcações enfrenta dificuldades para sequer contratar cobertura securitária.
- Aumento do percurso: navios passam a ser forçados a contornar o Cabo da Boa Esperança, no continente africano, adicionando mais de 6.000 km ao trajeto em relação à rota tradicional pelo Mar Vermelho.
- Aumento no tempo de transporte: o percurso adicional passou a representar, em média, duas semanas extras no transporte das cargas, agravando a situação de compradores com níveis de estoques mais baixos.
- Alta nos custos: o trajeto significativamente mais longo levou os custos das rotas entre Ásia e Europa a dispararem. Entre novembro de 2023 e julho de 2024, por exemplo, o frete na rota Xangai–Roterdã chegou a se tornar sete vezes mais caro.
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Impactos nos preços do café: observando somente o período entre novembro de 2023 e abril de 2024, as cotações do café arábica registraram uma alta de 31,9%, avançando de US¢ 167,3/lb para US¢ 220/lb. Já o café robusta — que, na prática, foi o mais afetado, diante do impacto direto sobre o fluxo de embarcações oriundas do Vietnã e da Indonésia para o Ocidente — apresentou uma valorização de 69,9% no período, saindo de US$ 2.366/t para US$ 4.021/t.
Arbitragem: Após esse movimento, a arbitragem entre os preços nas bolsas de Londres e Nova York se estreitou significativamente ao longo de grande parte de 2024, indicando que o café robusta passou a ser negociado de forma relativamente mais cara em relação ao café arábica quando comparado aos padrões históricos.
Cotações de café arábica e robusta entre 2023 e 2024 
Fonte: ICE. Elaboração: StoneX.
O que esperar: vale destacar que, no caso do café robusta, além de ter sido mais intensamente impactado pela disrupção logística, o mercado também enfrentava uma safra mais fraca no Vietnã, fator adicional que deu suporte às cotações. Ainda assim, grande parte da alta observada esteve diretamente associada à interrupção dos fluxos pelo Mar Vermelho.
Dessa forma, o mercado deve seguir monitorando atentamente a situação na região. Em caso de uma escalada do conflito e de uma interrupção efetiva da rota pelo Mar Vermelho, os agentes tendem a precificar, em um primeiro momento, um maior prêmio de risco. Caso esse cenário se prolongue, a exemplo do ocorrido há cerca de dois anos, as altas nos custos de frete tendem a voltar a impactar o mercado de café.
TABELA DE INDICADORES

Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.