Colheita e solo: Tendências de umidade e planejamento agrícola
O período de maior umidade nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil — caracterizado por nebulosidade intensa, chuvas convectivas e circulação de umidade — está terminando. Nesse contexto, sistemas como a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) e a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) perdem influência direta sobre essas áreas. Neste relatório, analisamos a umidade da superfície no final de maio, comparando com os meses anteriores, além de avaliarmos a dinâmica dessa variável ao longo do mês e a previsão de umidade do solo para os próximos dias de junho.
Análise mensal do NDMI
O NDMI (Índice de Umidade por Diferença Normalizada) é um indicador que reflete mudanças na umidade do solo causadas por chuvas, evapotranspiração e desenvolvimento da vegetação.
No final de abril, houve uma redução visível nas manchas amareladas a avermelhadas (indicativas de baixa umidade) nas regiões Centro-Oeste, sudeste e Tocantins, em comparação com março. No entanto, no final de maio, essas manchas retornaram e se intensificaram, indicando queda na umidade do solo.
O anterior pode ser evidenciado no monitoramento do NDMI tanto em tamanho (áreas anteriormente azuis adquiriram tons mais amarelados e esverdeados), quanto na severidade da seca (manchas vermelhas mais intensas) e no surgimento de novas áreas com tonalidade verde, o que é um ponto de atenção, considerando que o período seco ainda nem começou efetivamente.
Destacam-se nessa dinâmica as seguintes regiões: noroeste de Minas Gerais e Triângulo Mineiro, extremos de Goiás (especialmente o nordeste), Mato Grosso (particularmente no extremo leste), Tocantins (no limite com a região conhecida como MATOPIBA), norte e leste de Mato Grosso do Sul, além do estado de São Paulo (exceto o litoral).
Índice NDMI – fevereiro a maio de 2025.

Fonte: Copernicus elaborado pela StoneX
Dinâmica do NDMI ao longo do mês de maio com irregularidade de chuvas
Apesar dos volumes acumulados acima da média em pontos do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a distribuição das chuvas foi extremamente irregular e destacamos que:
• Chuvas intensas concentradas em poucos dias;
• Mais de 20 dias consecutivos sem chuva significativa em estados como Minas Gerais, Goiás e Tocantins (mais detalhes adicionais no relatório semanal anterior).
Apesar dos volumes acumulados de chuva nos meses de transição serem considerados um sinal positivo, a concentração em poucos eventos, provavelmente intensos, não é ideal para a recarga hídrica do solo.
Uma mal distribuição pode fazer com que com que o solo fique encharcado rapidamente, especialmente nas camadas mais superficiais — aquelas com poros maiores. Quando isso acontece, a água da chuva tem dificuldade para penetrar nas camadas mais profundas e acaba escorrendo pela superfície, indo parar em rios e córregos.
Esse efeito é ainda mais comum em áreas agrícolas, onde o solo costuma estar mais compactado por causa do uso constante de máquinas pesadas. Com menos espaço entre as partículas, a água tem menos facilidade para infiltrar.
Essas condições ajudam a entender por que o índice NDMI (que mede a umidade do solo) mostrou piora em algumas regiões, como o leste de Mato Grosso, Goiás e o noroeste de Minas Gerais. Outro fator que contribuiu para esse cenário foi o calor acima do normal nos últimos meses, que aumentou a evaporação da água do solo e das plantas — um processo chamado evapotranspiração.
Dinâmica do Índice de Umidade por Diferença Normalizada (NDMI) para o mês de maio
Fonte:Copernicus elaborado pela StoneX
Umidade do solo em Junho: frentes frias beneficiam o Centro-Sul, mas secas avançam no nordeste
A previsão de umidade para a camada mais superficial do solo, que abrange os primeiros 7 a 10 centímetros, em forma geral, é positiva neste momento comparada com anos anteriores. Atualmente a umidade presente no solo é determinante para o sucesso da colheita, influenciando diretamente a qualidade, o rendimento e o momento ideal para colher culturas como o milho safrinha, o café e a cana-de-açúcar*.
Previsão de umidade do solo para o período de 11 a 21 de junho de 2025, com mapas diários: 11 (A), 12 (B), 13 (C), 14 (D), 15 (E), 16 (F), 17 (G), 18 (H), 19 (I), 20 (J), 21 (K). A interpretação considera a primeira camada do solo e as seguintes categorias: Dry: solo seco. PWP (Permanent Wilting Point): ponto de murcha permanente. CAP (Field Capacity): capacidade de campo. Sat: solo saturado
Fonte:ECMWF
Nos primeiros dias de junho, a atuação de uma frente fria com intensidade considerável contribuiu para o transporte de umidade sobre grande parte do Centro-Sul do Brasil. As regiões mais beneficiadas foram o Mato Grosso do Sul, o sul de Mato Grosso e toda a Região Sul, com exceção do Rio Grande do Sul. Também houve registro de chuvas pontuais no litoral extremo do Nordeste, associadas à entrada de ventos alísios úmidos vindos do oceano.
Os mapas de previsão da umidade do solo indicam uma ampla variação de condições hídricas no país. Em algumas áreas, o solo se aproxima do ponto de murcha permanente (PWP) — nível no qual a água disponível não é mais acessível às plantas, indicado por cores amareladas e castanhas. Em outras, o solo apresenta capacidade de campo (CAP) ou até níveis de saturação, representados por tons verdes e azulados, sugerindo boa ou excessiva disponibilidade hídrica.
No oeste do Brasil e em regiões mais periféricas, observa-se uma condição intermediária de umidade (tons verde-amarelados), que favorece tanto o avanço da colheita quanto a transição para o período seco.
Por outro lado, o interior do Nordeste já apresenta sinais consistentes de solo seco, com coloração castanha nos mapas. A tendência é de expansão dessas áreas mais críticas, inclusive avançando em direção ao interior do Sudeste, à medida que os dias secos se acumulam.
Na Região Sul, os elevados níveis de umidade no solo refletem a persistência das frentes frias. Esse excesso hídrico, embora beneficie a vegetação, pode comprometer o processo de secagem dos grãos e provocar atrasos nas operações de colheita. Além disso, solos encharcados aumentam a suscetibilidade a doenças, exigindo atenção redobrada no manejo fitossanitário.
Em especial, estados como o Paraná e o sul do estado de São Paulo deverão monitorar atentamente as condições de solo nas próximas semanas, com foco na logística da colheita e no controle de possíveis perdas por doenças associadas à alta umidade.
*Quando a primeira camada do solo está bem hidratada, o solo se torna mais manejável, reduz o esforço das máquinas e evita perdas por compactação. Além disso, uma boa condição de umidade nessa etapa final do ciclo contribui para a saúde das plantas e para a conservação do solo. Por ser a parte mais exposta, essa camada é também a mais sensível às mudanças do clima, respondendo rapidamente à variação de sol, vento e chuva.



