Os mercados internacionais iniciaram esta quinta-feira (3) com forte instabilidade. O sentimento de incerteza predomina entre os investidores nesta manhã, resultando em quedas generalizadas nos preços futuros das commodities. A última quarta-feira (2), intitulada como “Dia da Libertação” pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não trouxe grandes surpresas em relação às expectativas iniciais, no que diz respeito aos potenciais efeitos no mercado de grãos, até o momento. Na verdade, o anúncio das tarifas recíprocas pelos EUA, feito na tarde de ontem, parece mais um capítulo inaugural de uma longa novela que ainda deve trazer novas reviravoltas ao comércio internacional. Nos próximos dias, os países afetados pelas tarifas devem intensificar as negociações para minimizar os impactos sobre suas balanças comerciais. Caso as tratativas não avancem para um cenário mais favorável, é provável que medidas retaliatórias contra os Estados Unidos sejam adotadas.
O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou uma sobretaxa mínima de 10% sobre quase todas as importações globais pelos EUA, que entrarão em vigor no sábado (05), bem como “tarifas de reciprocidade” mais elevadas para uma lista de 57 países, que entrarão em vigor na próxima quarta (09) – uma sobretaxa média de 29,2%, com mínimo de 11% (República Democrática do Congo) a um máximo de 50% (Lesoto). Há algumas poucas exceções, como importações do Canadá e do México, importações de produtos energéticos e minerais e importações de segmentos já afetados por tarifas, como aço, alumínio e produtos automotivos. Essa intensificação significativa e prolongada das barreiras comerciais dos EUA resulta em um expressivo enfraquecimento global do dólar, com forte valorização de ativos considerados “portos seguros” para momentos de estresse e incerteza, como o euro, o iene japonês e o franco suíço. Tipicamente, uma elevação da aversão ao risco tende a prejudicar ativos arriscados, como ações, commodities e moedas de economias emergentes, como o real.
Contudo, a taxa de câmbio do real apresenta movimento inverso ao esperado, fortalecendo-se expressivamente na sessão juntamente com pares latino-americanos, como o peso colombiano e o peso chileno. A provável explicação desse movimento é que a maior parte desses países ficou sujeito à tarifa de importação global de 10% e, dessa forma, tendem a ser menos prejudicadas que outras economias emergentes países, como o do leste asiático e africanos. Por conta dessa “vantagem comparativa”, pode-se esperar que as exportações da América Latina sejam favorecidas pelo “choque tarifário” americano, o que tende, no futuro, a ampliar a entrada de divisas e, assim, fortalecer as moedas de suas economias.
Até o momento, os efeitos das tarifas recíprocas anunciadas pelos Estados Unidos sobre o mercado de grãos não são tão diretos como para outros setores. Os agentes aguardam os desdobramentos das medidas recentes, que tem potenciais para gerar extensas medidas retaliatórias que, dessa forma, poderiam trazer maiores prejuízos aos grãos estadunidenses. Os preços futuros da soja iniciaram o dia, assim como os demais grãos, registrando perdas, mas na sequência se recuperaram e passaram a operar com alguns ganhos em Chicago.
No mercado do milho, as preocupações são as mesmas que para a maior parte dos mercados, neste momento. De que as tarifas impostas possam gerar medidas retaliatórias por parte dos países afetados, de modo que o comércio internacional do cereal seja comprometido.
Embora o petróleo tenha sido isento das tarifas de importação, seus preços seguem pressionados pelo temor de uma retração na atividade econômica global e pelo risco inflacionário em importantes economias mundiais — fatores que podem reduzir a demanda pelo produto em nível global. A queda nas cotações do petróleo e do diesel também tem impactos na desvalorização do milho, por ser uma matéria-prima importantes para a produção de biocombustíveis.
Os impactos das tensões sobre o mercado do trigo podem ser melhor observados conforme os países forem avançando nas suas negociações, ou anunciando medidas retaliatórias ao comércio global. Caso ocorra esta segunda opção, o fluxo de exportações de trigo dos Estados Unidos pode ser prejudicado, a depender da magnitude das retaliações que possam vir a surgir.




