Comentários de Abertura
Os futuros de ações se firmaram durante a noite, apesar das expectativas de que a escalada da guerra tarifária se intensifique amanhã. Enquanto isso, as commodities agrícolas sofreram pressão, diante da possibilidade de que o setor seja o principal alvo de uma retaliação chinesa. O VIX está sendo negociado próximo de 20 nesta manhã, enquanto o dollar index opera em torno de 106,8. Os títulos de 10 anos do Tesouro estão em 4,25%, enquanto os títulos de 2 anos estão em 4,03%, após fecharem ligeiramente abaixo do nível psicológico de 4% na sexta-feira. Os preços do petróleo bruto estão moderadamente mais altos, sendo negociados próximos a US$ 70 por barril, nível que anteriormente atraiu compras de barganha. No setor de grãos e oleaginosas, houve mais vendas de fundos em milho e soja durante a noite, devido ao receio de que sejam os principais alvos das ações retaliatórias chinesas nesta semana.
A liquidação no setor de grãos e oleaginosas continuou durante a noite, em meio a relatos da China de que o país está considerando impor medidas retaliatórias contra esse setor caso o presidente Trump siga adiante com o aumento adicional de 10% nas tarifas sobre os produtos chineses a partir de amanhã. Na semana passada, Trump anunciou que avançaria com a retomada das tarifas de 25% sobre Canadá e México, à medida que a suspensão de 30 dias chega ao fim, e que elevaria em 10% as tarifas já aplicadas desde 1º de fevereiro sobre a China, elevando-as para 20%. Para analistas, essa decisão é intrigante, pois os países vizinhos fizeram esforços para conter o fluxo de imigração ilegal e drogas para os EUA.
Esse movimento ocorre no mesmo momento em que um conflito diplomático incomum eclodiu na Casa Branca entre o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, e o presidente Trump. O episódio pareceu altamente estratégico, com Vance assumindo um papel atípico ao desafiar Zelenskyy, enquanto Trump inicialmente permaneceu como observador antes de intervir. Zelenskyy parecia pronto para usar a conferência de imprensa para pressionar os EUA a continuar apoiando a guerra, mas foi interrompido por Trump e Vance. O que está em jogo? Sem o apoio dos EUA, a Ucrânia perderia a guerra, mas a adesão à OTAN não seria uma opção, pois isso poderia provocar a Terceira Guerra Mundial. Em vez disso, Trump busca um acordo de paz que daria aos EUA acesso às vastas reservas de minerais raros da Ucrânia, reduzindo a dependência dos EUA da China. A Rússia sabe que Trump já atacou tropas russas na Síria durante seu primeiro mandato, o que levou Moscou a reduzir sua presença no país na época. O acesso dos EUA aos minerais ucranianos poderia desencorajar Putin de uma ofensiva contra a Ucrânia, além de minimizar seus temores sobre uma possível agressão da OTAN. Assim, a Ucrânia conseguiria a paz, enquanto os EUA garantiriam acesso estratégico aos minerais raros, permitindo uma maior contenção da China.
No fim das contas, tudo gira em torno da contenção da China. Acredito que esse é o objetivo principal de Trump, por trás da maioria das movimentações que estamos vendo nas manchetes. Isso nos leva de volta às tarifas de 25% sobre Canadá e México, que entrarão em vigor amanhã. Mencionei na semana passada que essa medida também pode estar relacionada à contenção da China, e, durante o fim de semana, soubemos que o México está considerando igualar as tarifas dos EUA sobre a China, algo que aparentemente foi pressionado a fazer. O México tem sido um canal para produtos chineses entrarem nos EUA sem tarifas, algo que também ocorre, em menor escala, no Canadá. Os EUA agora pressionam o Canadá para seguir o exemplo do México. Minha aposta é que as tarifas de 25% seriam canceladas se ambos os países concordassem em impor as mesmas tarifas contra a China, aumentando a pressão sobre Pequim.
Isso nos leva de volta à China e às tarifas de 20% sobre seus produtos, especialmente se Canadá e México igualarem as tarifas contra os chineses. A resposta inicial da China ao aumento de 10% nas tarifas em fevereiro foi relativamente pequena. Pequim não quer uma guerra comercial – e nem pode bancá-la neste momento. A economia chinesa está muito fraca, e um conflito econômico prolongado poderia ser devastador, assim como Reagan levou a URSS à falência nos anos 1980. No entanto, a retaliação chinesa pode ser diferente desta vez. No primeiro governo Trump, a China direcionou suas retaliações contra o setor agrícola dos EUA, um dos principais redutos políticos de Trump. A mídia estatal chinesa informou hoje que as autoridades estão considerando fazer o mesmo desta vez. No passado, a China pôde se dar ao luxo de reduzir as compras de soja dos EUA porque seu rebanho de suínos foi drasticamente reduzido devido à Peste Suína Africana. Agora, ela pode reduzir as compras novamente, pois o Brasil está colhendo uma safra recorde ou próxima disso, e a taxa de câmbio favorece os produtos brasileiros. A narrativa será de que a China não está comprando soja dos EUA por causa da guerra comercial, quando, na prática, o Brasil já tem vantagens competitivas.
O mesmo vale para as compras chinesas de milho e trigo – há alternativas mais baratas disponíveis. O impacto maior seria sentido na carne suína e bovina dos EUA, setores nos quais a China é um grande comprador. A China prefere negociações diretas e demoradas, como vimos no primeiro mandato de Trump, quando o país exigiu 13 rodadas de negociações antes de fechar um acordo comercial, um processo que se arrastou por anos. Agora, Trump parece estar intensificando a pressão para fechar um acordo mais rapidamente, mas isso ainda pode significar meses de retaliações, deixando o mercado agrícola em um limbo. Essa incerteza é o motivo pelo qual continuamos a ver liquidação no setor agrícola, particularmente nos grãos mais impactados pelo comércio com a China. Enquanto isso, os preços de energia já estão em níveis significativamente baixos.



