Comentários de Abertura
Hoje marca o 100º dia do mandato do presidente Donald Trump. Os contratos futuros das bolsas internacionais registraram movimentos mistos durante a madrugada, enquanto investidores seguem tentando se posicionar em meio à complexa dinâmica de tarifas, buscando mais clareza sobre o cenário futuro. O índice de volatilidade VIX opera abaixo de 25 nesta manhã, consolidando-se nesse patamar nos últimos dias, enquanto o dollar index (DXY) gira em torno de 99,1 pontos. Os rendimentos dos Treasuries de 10 anos recuaram para 4,19% ao ano — mínima das últimas três semanas — e os dos Treasuries de 2 anos estão em torno de 3,67%. O petróleo WTI é negociado próximo a US$ 61 o barril, refletindo preocupações com a demanda futura em meio à guerra comercial. Já o mercado de grãos e oleaginosas apresenta desempenho misto.
Estamos no 20º dia da pausa de 90 dias nas tarifas recíprocas impostas pelos EUA. O prazo para que a Casa Branca apresente avanços em novos acordos comerciais com parceiros estratégicos está se encurtando. Enquanto isso, os principais índices de ações permanecem próximos da extremidade superior da faixa em que vêm operando desde o tombo de 3 de abril, quando as notícias sobre tarifas recíprocas derrubaram os mercados. Os investidores vêm se ajustando ao novo ambiente — o que não elimina o risco de novas quedas, tampouco garante um rali consistente a partir deste ponto. Historicamente, contudo, esse tipo de adaptação tende a ocorrer após choques de política comercial. Esse ajuste se deu até agora em grande parte sem dados concretos sobre os impactos efetivos das tarifas de Trump. No entanto, novos números começam a ser divulgados: pesquisas com gerentes de compras já apontam para uma alta expressiva nos custos de insumos — parte da qual está sendo repassada ao varejo. Na sexta-feira, será divulgado o relatório de empregos dos EUA referente a abril, e o resultado pode refletir a incerteza enfrentada pelas empresas no período de coleta dos dados. O mercado projeta a criação de cerca de 130 mil vagas no mês, mas há receios de que o número seja inferior, ou até mesmo negativo. Apesar de os balanços corporativos desta semana estarem, em geral, positivos, o payroll de sexta-feira será determinante para o humor dos mercados.
Na ausência de anúncios de acordos comerciais relevantes, o foco permanece na relação com a China, onde pesadas tarifas recíprocas continuam em vigor. Ambos os lados vêm moldando suas narrativas internas: enquanto a Casa Branca afirma que há negociações em andamento, Pequim nega oficialmente. Na prática, as conversas ocorrem, mas ainda em níveis muito preliminares — tratando mais sobre o formato de uma negociação do que sobre termos concretos de um acordo. Empresas como a Amazon já anunciaram a retomada de envios de produtos da China, repassando os custos adicionais das tarifas aos consumidores, mas deixando claro o valor da alta. A decisão de compra, portanto, fica a cargo do consumidor. Em paralelo, o governo chinês tem, de forma discreta, isentado de tarifas retaliatórias produtos considerados essenciais, mantendo a aparência de resistência contra os EUA, mas garantindo o abastecimento interno. Hoje, por exemplo, foi divulgada a inclusão das importações de etano na lista de isenções. Produtos como medicamentos, microchips e motores de aeronaves já haviam sido liberados anteriormente.
O principal desafio de Pequim, entretanto, está no impacto negativo sobre sua indústria manufatureira, provocado pelas tarifas recíprocas de 145% impostas pelos EUA. Para mitigar os efeitos, o governo chinês tem aumentado a emissão de dívidas e promovido estímulos econômicos, tentando incentivar o consumo interno em meio ao aumento do desemprego e à queda nos investimentos estrangeiros. No primeiro trimestre deste ano, os governos locais emitiram 1,24 trilhão de yuans (cerca de US$ 172 bilhões) em novos títulos, um aumento de 47% em relação ao mesmo período de 2024. Só em março, a emissão atingiu 437,5 bilhões de yuans, alta de 24% no mês e de 66% no comparativo anual. Segundo dados do Ministério das Finanças da China, a dívida total dos governos locais atingiu 50,165 trilhões de yuans (cerca de US$ 6,87 trilhões) até o fim de março, uma alta superior a 20% em relação ao ano anterior. Apesar dos riscos, a China parece determinada a sustentar essa disputa, considerando-a estratégica para suas ambições de longo prazo de se tornar a principal economia e potência militar do mundo.
No mercado de grãos e oleaginosas, o viés nesta manhã é de baixa, com destaque para a queda da soja e do óleo de soja, diante da expectativa em torno da decisão da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) sobre as novas metas de biodiesel de biomassa. O setor agrícola carece de uma narrativa de curto prazo que sustente ganhos expressivos. Embora mudanças possam ocorrer com o anúncio de medidas da EPA, no momento o clima segue favorável ao desenvolvimento das safras tanto no Brasil quanto nos EUA.



