Comentários de Abertura
É dia de decisão do Fed em Wall Street, mas os traders também continuarão monitorando as manchetes relacionadas às tarifas. A mais notável delas é a de que negociações em alto nível começarão neste fim de semana entre China e Estados Unidos, o que trouxe um certo ânimo para o mercado. O índice VIX está sendo negociado perto de 25 nesta manhã, enquanto o dollar index opera próximo de 99,4. Os rendimentos dos títulos do Tesouro de 10 anos estão em torno de 4,29%, enquanto os de 2 anos estão em cerca de 3,80%. Os preços do petróleo bruto recuam levemente após os fortes ganhos das duas sessões anteriores, enquanto os mercados de grãos e oleaginosas sobem, impulsionados pelo otimismo em torno das conversas comerciais com a China.
O gelo foi quebrado. China e Estados Unidos realizarão negociações comerciais de alto nível neste fim de semana, na Suíça. Ambos os lados alegam estar atendendo a pedidos do outro para dialogar, mas isso é irrelevante desde que estejam conversando. Espera-se que o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e o principal negociador comercial, Jamieson Greer, se encontrem com o czar econômico da China, He Lifeng, para iniciar as conversas. Bessent informou à imprensa que os primeiros passos serão definir os temas da pauta. As tarifas impostas por ambos os lados estão tão elevadas que atuam, na prática, como um embargo, embora a China tenha discretamente estabelecido diversas isenções para produtos necessários à sua economia, enquanto os EUA fizeram exceções para eletrônicos. O primeiro passo será reduzir as tensões entre os países, seguido por esforços para avançar rumo a um acordo que reduza as barreiras comerciais tarifárias e não tarifárias. O acordo de Fase Um alcançado durante o governo Trump exigiu 13 reuniões presenciais entre os dois lados. As questões são muito mais complexas desta vez, mas a China também substituiu o negociador linha-dura daquela ocasião por um mais moderado.
Ainda não espero ver um acordo rápido para restaurar o comércio entre os dois países. O estado de “embargo” prejudica ambos, embora o país mais afetado normalmente seja aquele com maior superávit comercial — neste caso, a China. Um banco de investimento estima que o impasse comercial atual pode custar à China cerca de 16 milhões de empregos. Diante disso, o país anunciou hoje um novo pacote de estímulo — o maior desde o início da guerra comercial — para transmitir a imagem de que está indo para as negociações em posição de força, não de fraqueza. O banco central chinês reduziu o compulsório dos bancos comerciais em 50 pontos-base, medida que deve injetar 1 trilhão de yuans (US$ 138 bilhões) na economia. Também cortou sua taxa básica em 10 pontos-base, além de reduzir em 25 pontos a taxa de hipotecas para compradores de imóveis. Isso ampliará o diferencial entre as taxas da China e dos EUA, pressionando para baixo o valor do yuan — algo que o país tem se esforçado para evitar.
"Não precisamos assinar acordos." Essa foi uma declaração do presidente Trump na terça-feira, ao responder a perguntas de jornalistas. Ele acrescentou que, nas próximas semanas, se reunirá com sua equipe para definir os números que os EUA querem e apresentá-los aos parceiros comerciais. Trump afirmou que esses países poderão aceitar ou não os termos. Se aceitarem, haverá um acordo. Caso contrário, não terão acesso ao consumidor americano. Segundo ele, é simples assim. Trump mencionou que esses números podem ser ajustados, se necessário, mas que, no fim das contas, cabe aos outros países — a maioria com superávit comercial com os EUA — decidirem se querem ou não um acordo. Em outras palavras, ele não disse que os EUA não precisam de acordos assinados, mas que não precisam de um acordo tanto quanto os países com superávit comercial. Essa foi, basicamente, a postura que demonstrou durante a entrevista coletiva com o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, antes de suas conversas na terça-feira. A reunião foi descrita como, no máximo, cordial, com ambos os lados buscando demonstrar força perante os jornalistas e seus cidadãos antes do início das negociações. Em resumo, o presidente Trump entra nas negociações partindo da premissa de que o país com superávit comercial precisa mais de um acordo do que o país com déficit — e a história sugere que ele está certo.
Compradores chineses adquiriram cerca de 15 carregamentos de soja na semana passada, a maioria delas compras da Sinograin oriundas da Argentina, que devem ser destinadas às reservas estratégicas da China. Esse estoque continua crescendo, dando ao país a liberdade de leiloar a soja para processadores ainda este ano, quando a oferta brasileira estiver escassa — em vez de comprar dos EUA. O USDA estima que os estoques excedentes da China em 1º de setembro serão de aproximadamente 44 milhões de toneladas, mas esse número pode ser ainda maior. De qualquer forma, esse volume é quase o dobro do que a China comprou dos EUA no atual ano comercial. Ainda assim, os futuros de milho e soja dos EUA se recuperaram de pontos de suporte gráfico nas últimas 24 horas, com os preços do trigo também atraindo algum interesse de compra em patamares baixos recentes. No entanto, para sustentar uma alta nos mercados de grãos e oleaginosas, será necessário mais suporte das manchetes.



