Ontem (22/06), o contrato mais ativo do Brent fechou em queda de 3,3%, cotado a USD 77,90/bbl. O WTI encerrou a USD 73,86/bbl (-2,3%).
A concessão de isenção de sanções de 60 dias ao Irã pelos EUA — permitindo ao país vender petróleo ao mercado global, não apenas a compradores habituais — foi o principal vetor de pressão baixista. A perspectiva de reincorporação do petróleo iraniano à oferta mundial, somada à retomada gradual do tráfego pelo Estreito de Ormuz, reverteu boa parte do prêmio de risco que sustentava os preços desde o fechamento da rota em março.
Por volta das 07h20 desta manhã (23/06), o Brent recuava 0,6% a USD 77,46/bbl e o WTI cedia 0,4% a USD 73,56/bbl. O mercado precifica progressão das negociações EUA-Irã, mas mantém cautela diante das divergências sobre o programa nuclear e das incertezas operacionais no Estreito.
Isenção de sanções ao Irã e reabertura parcial do Estreito de Ormuz
O Tesouro americano anunciou isenção de sanções ao Irã até 21 de agosto, após rodada de negociações em Buergenstock, na Suíça. O acordo inclui também mecanismos de comunicação para garantir passagem segura de navios comerciais pelo Estreito de Ormuz, com registros de rastreamento mostrando dois navios tanqueiros tipo VLCC carregando cerca de 2 milhões de barris pelo estreito na segunda-feira (22).
Por que isso importa: A isenção redireciona o petróleo iraniano a compradores globais, pressionando a oferta disponível sem exigir aumento de produção imediato pelos países do Golfo Pérsico. A retomada do tráfego pelo Estreito de Ormuz, mesmo que lenta, sinaliza normalização parcial dos fluxos físicos — reduzindo o prêmio embutido nos preços desde o fechamento da rota. Persistindo o acordo, o mercado tende a reprecificar o equilíbrio entre oferta e demanda com viés baixista no curto prazo.
Panorama: A isenção autoriza exportações de petróleo e petroquímicos iranianos e descongelamento parcial de ativos; divergências persistem sobre inspeções nucleares e uso dos recursos liberados.
• Técnicos de ambos os lados continuam negociações ao longo desta semana, com prazo de 60 dias para acordo definitivo.
• Estima-se que cerca de 400 navios dentro do Golfo Pérsico comecem a se mover próximos ao Estreito de Ormuz, com as empresas marítimas mostrando maior confiança em relação a uma possível travessia para fora do golfo. Ainda assim, as embarcações aguardam um sinal verde de Teerã e Washington para seguir se movimentando.
O que esperar? Enquanto as negociações avançarem sem ruptura, o Brent tende a permanecer sob pressão baixista, com uma eventual reabertura do Estreito mantendo os futuros em patamares mais baixos. Caso o Irã retome restrições ao tráfego ou as negociações colapsem, o prêmio de risco voltaria a se materializar rapidamente. A persistência de divergências sobre o programa nuclear representa o principal risco de reversão do acordo.
Crise de refino na Rússia amplia restrições a derivados
Ataques ucranianos a refinarias russas causaram queda de 25% na produção de gasolina em relação à média diária de junho de 2025, com oferta caindo para cerca de 765 mil barris/dia. As exportações marítimas de derivados recuaram 15% na primeira quinzena de junho frente à primeira quinzena de maio, atingindo cerca de 3,3 milhões de toneladas. O governo russo avalia importar combustíveis com subsídios para conter preços e reduzir filas em postos.
Por que isso importa: A retração das exportações russas de derivados reduz a oferta disponível em mercados que dependem desses fluxos, sustentando os crack-spreads de diesel e QAV. A necessidade de importar combustíveis inverte o papel da Rússia no balanço global de derivados, com potencial de gerar pressão adicional em rotas de abastecimento da Europa e Ásia. Para o Brasil, importador de diesel, a redução da oferta russa no mercado global pode ampliar custos de aquisição caso a crise se aprofunde.
Panorama: Quatro regiões russas registram restrições de venda, alta de preços e filas nos postos, com a crise se aprofundando principalmente na Sibéria.
- Reunião com o vice-primeiro-ministro Novak discutiu importações subsidiadas como medida emergencial de contenção de preços.
- Vale destacar que, no início do mês, a Rússia baniu exportações de QAV em meio aos riscos de desabastecimento. Agora, as atenções do mercado se voltam para o diesel, com preocupação em relação a medidas parecidas para o destilado médio.
O que esperar? A crise de refino russa deve manter o mercado global de derivados apertado no curto prazo, especialmente se novos ataques ocorrerem. Enquanto as exportações russas de diesel permanecerem reduzidas, o crack-spread do produto tende a permanecer elevado — com impacto direto nos custos de importação do Brasil. Caso a Rússia efetive importações subsidiadas em escala relevante, poderá aliviar pressão doméstica, mas não compensará a retração nas exportações.
Corrida global para recomposição de reservas estratégicas
A guerra no Estreito de Ormuz expôs a fragilidade dos estoques estratégicos em países importadores. A IEA coordenou liberação recorde de 400 milhões de barris; os EUA reduziram a Reserva Estratégica de Petróleo ao menor nível desde junho de 1983, com 331,2 milhões de barris registrados na semana passada. Índia, Paquistão, Austrália e Cingapura anunciam planos de expansão de estoques.
Por que isso importa: A demanda de recomposição — estimada em até 1 bilhão de barris entre novos estoques e reposição de reservas já drenadas — representa suporte estrutural de médio prazo para os preços, mesmo diante de oferta crescente. A Índia, com reservas equivalentes a apenas 8 dias de importação, está distante do padrão de 90 dias da AIE, e qualquer movimento de compra em escala terá impacto sobre os fluxos físicos globais. A fragilidade do balanço global persiste mesmo após a normalização do Estreito.
O que esperar? A demanda por recomposição de estoques deve sustentar preços acima do que os fundamentos de oferta de curto prazo indicariam, especialmente se a recuperação da produção do Oriente Médio for mais lenta do que o esperado. O cenário atual é de pressão baixista imediata por alívio geopolítico, mas com suporte de médio prazo pela necessidade de recomposição. Caso a recuperação da produção do Golfo Pérsico se atrase por questões logísticas ou instabilidade regional, o balanço global permanecerá frágil por mais tempo.
Variação intradiária dos preços no setor energético

Fonte: ICE, NYMEX. Elaboração: StoneX.