Movimentação dos futuros do açúcar segue respondendo à alta do petróleo
Na última sexta-feira (4), a Associação de Usinas de Açúcar da Índia (ISMA, em inglês) divulgou novo acompanhamento de safra. De acordo com a divulgação, até o final de fevereiro/22, foram produzidas 25,3 milhões de toneladas de açúcar no país, um crescimento anual de 7,7%. Este desempenho é resultado do maior número de usinas em operação no comparativo safra-a-safra, bem como do clima benéfico dos últimos meses.
Em Maharashtra, foram produzidas 9,7 milhões de toneladas do adoçante até a data de referência, acumulando alta anual de 14,5%. Crescimento ainda mais significativo foi registrado no estado de Karnataka, onde a produção alcançou cerca de 5,1 milhões de toneladas (+24,5%). Por fim, a oferta de açúcar em Uttar Pradesh permanece abaixo do observado em 2020/21, situando-se em 6,9 milhões de toneladas, contra 7,4 milhões no ano passado.
Como vem sendo pontuado em nossas análises, um dos principais fatores condicionantes para o bom desempenho da safra corrente tem sido a questão climática, principalmente em Maharashtra e Karnataka, que foram favorecidos pelas precipitações regulares até o final de janeiro/22. O mês de fevereiro/22, por outro lado, foi marcado por déficit hídrico nestes estados, o que pode ter contribuído com o avanço dos trabalhos em campo, ao passo que os reservatórios de água do país se encontram abastecidos. Em paralelo, Uttar Pradesh registrou chuvas dentro da média histórica.
Ao longo dos próximos 14 dias, as chuvas devem se manter brandas em Uttar Pradesh, enquanto os estados de Maharashtra e Karnataka devem registrar até 10 mm, de acordo com monitoramento climático da StoneX. Caso confirmada, esta condição deverá ser benéfica para as lavouras situadas em regiões que vinham apresentando umidade excessiva.
Com base nesses pontos, a ISMA revisou positivamente suas estimativas para a temporada. A perspectiva atual é de que a produção indiana chegue a 33,3 milhões de toneladas em 2021/22, já considerando um desvio de 3,4 milhões de toneladas de açúcar para a produção de etanol. Por ora, contatos da StoneX na Ásia esperam uma diversificação próxima de 3,0 milhões de toneladas – o que pode se intensificar em meio à alta do petróleo no mercado internacional, fazendo com que o governo indiano invista ainda mais no alcance do E20 até 2025.
Em vista dos planos de Nova Delhi, as distribuidoras estatais estão aumentando sua capacidade de estocagem em 51% - o que pode elevar a capacidade atual de 4,3 milhões de m³ de etanol para 10,6 milhões em 2025. Evidentemente, o avanço da produção também deverá ser pautado em outras matérias-primas que não o açúcar, de modo a manter o estoque da commodity em linha com os últimos anos.
Ainda em relação à produção de açúcar, diante da maior oferta doméstica, parece provável que a país tenha potencial de exportar cerca de 7,5 milhões de toneladas - aliviando o déficit no saldo global em 2021/22. Até o momento, cerca de 6,0 milhões de toneladas já foram contratadas para exportação, sendo que 4,2 milhões já embarcaram e entre 1,2 e 1,3 milhão de toneladas devem ser direcionadas ao exterior neste mês. Em um horizonte de longo prazo, contudo, o avanço do mercado de etanol se coloca como ponto de atenção para o papel da Índia no mercado açucareiro global.
Para o ano safra corrente, considerando o consumo doméstico de açúcar em 27,2 milhões de toneladas e as exportações de 7,5 milhões, parece provável que os estoques finais se situem em 6,8 milhões de toneladas. Em um cenário em que as exportações indianas alcancem 8,0 milhões de toneladas, pode-se esperar que os estoques de passagem se situem em 6,3 milhões de toneladas - o que seria o menor nível dos últimos anos, mas ainda provável de acontecer dado o desempenho recente.
Já para o ciclo 2022/23, o potencial de exportação da Índia deve cair para nível próximo de 3,5 milhões de toneladas – considerando nossa expectativa inicial de produção de 31 milhões de toneladas, direcionamento de 4,0 milhões para a destilação de etanol e estoques constantes ao longo da temporada.
Cenários para os estoques finais na índia (milhões de toneladas)
*Estimativa. ¹Considera exportações de 7,0 mmt. ²Considera exportações de 7,5 mmt. ³Considera exportações de 8,0 mmt. Fontes: ISMA e StoneX. Elaboração: StoneX.
Em meio à firme valorização dos futuros do açúcar, a paridade de exportação da Índia contra o #11, que se situa em US¢ 19,80/lb, já se mostra mais próxima da abertura. Nesta segunda-feira (7), o maio/22 do demerara se aproximou da resistência dos US¢ 20,00/lb, mas encerrou o pregão da ICE/NY cotado a US¢ 19,27/lb – queda de 0,4% frente ao fechamento da última sexta-feira (04). Vale lembrar que a arbitragem já vinha favorável para a negociação de açúcar branco indiano com o exterior, com o #5 encerrando as negociações a US$ 533,3/t na ICE-Europe, contra um nível de paridade de US$ 435,5/t.
Vale destacar que a forte valorização dos últimos pregões foi sustentada pela alta do petróleo
Brent, que atingiu a máxima de US$ 139,13/barril. A trajetória altista do óleo bruto ganhou novo fôlego após as ameaças feitas pelos Estados Unidos e países europeus de estenderem as sanções impostas à Rússia para o setor energético. Considerando que 30% do petróleo e 39% do gás natural consumidos na Europa têm origem na Rússia, a principal preocupação do mercado é com uma possível crise energética no continente. Apesar de não serem fortes dependentes do óleo russo, esta origem representou 8% do total das aquisições americanas em 2021, cerca de 20,4 mbpd de petróleo e derivados (veja a análise completa
aqui). No entanto, com a amenização do tom das conversas, o petróleo devolveu parte dos ganhos observados no início do pregão.
No mercado brasileiro de combustíveis, a principal preocupação segue sendo a defasagem entre os preços domésticos e internacionais, o que prejudica a margem da importação e pode trazer riscos de desabastecimento. As discussões em torno da política de preços e possíveis reajustes pela Petrobras continuarão no radar, de modo a avaliar as perspectivas para o consumo de Ciclo Otto, bem como para a paridade entre o açúcar e o etanol.
Tabela de indicadores